Branquidade e privilégio: o lacre social

“A liberação da identidade racial faz parte tanto da luta contra o racismo como da eliminação da discriminação racial e da desigualdade. Essa liberação envolverá uma revisão da política racial e uma transformação da diferença racial. Tornará a própria democracia muito mais radicalmente pluralista e a identidade muito mais um problema de escolha do que de atribuição. A medida que as lutas para alcançar esses objetivos forem reveladas, reconheceremos gradualmente que a racialização da democracia é tão importante quanto a democratização das raças.” (Howard Winant, Racial Condition, 1994. p. 169)

Joice Berth, no Justificando

Você pode achar, caro leitor, que o lacre ou lacry, expressão muito usada pelo feminismo negro para elogiar ou manifestar grande admiração, é tão somente isso, uma rasgação de seda entre pessoas deslumbradas que se acham as últimas bolachas do pacote.

Mas creio que estão enganados… O termo ou expressão é do feminismo negro, mas o conceito de lacre é muito mais embasado e antigo do que supõe as vãs análises da branquitude que contesta a validade intelectual dos likes e lacres de redes sociais de pessoas negras.

Senão vejamos:

É necessário muito ‘desprendimento’ da realidade que o cerca para não perceber o quanto o fator raça, criou e mantém um sistema de vantagens sociais, ou privilégios, para cidadãos e cidadãs que ficaram no andar de cima da hierarquia que a racialização da sociedade estabeleceu.

Ser uma pessoa negra em uma sociedade como a nossa, te leva para lugares sofríveis, perigosos e esvaziados de oportunidades.

Ele influencia terrivelmente a forma como pessoas negras se percebem, comprometem de maneira (quase) irreversível a autoestima e a espontaneidade social, limita os afetos e as relações sociais, desestrutura famílias de diversas formas, compromete a relação de pessoas negras entre si e com as outras pessoas não negras (pessoas negras que se agridem/pessoas negras que, sendo bem chula, puxam saco de pessoas brancas), enfim, uma série de problemas que de tão profundos e enraizados, nem sequer são questionados e muito menos confrontados. Muitos efeitos do racismo que estão atuando na formação da personalidade de pessoas negras, ainda são desconhecidos, como por exemplo os efeitos psicológicos.

O racismo comprometeu a atuação de diversos profissionais, que prestam serviços incompletos e insatisfatórios, principalmente em áreas essenciais para manter a saúde, como psicólogos e psicanalistas por exemplo.

Cabe lembrar que há um aumento expressivo de profissionais dessa área e com consciência e foco nas questões raciais e isso é uma alegria. Porém, ainda é pouco se pensarmos em 54% de contingente de pessoas negras dentro das estruturas racistas, vivenciando diariamente seus estragos.

Com as políticas afirmativas minimamente aplicadas e a quebra da hegemonia discursiva trazida pela web, os lugares e condições impostas pela racialização da sociedade que, pauta a divisão de classes – o que impõe padrões de aceitabilidade social e cria oportunidades para que apenas pessoas brancas possam mover-se dentro dessas estruturas e instituições ascendendo socialmente – vem sendo confrontados por outros discursos e novas visões da realidade.

Temos uma quantidade, ainda ínfima de pessoas que foram confinadas nos lugares de exclusão e invisibilidade, aquelas que sempre foram convenientemente ignoradas, negligenciadas em nome de sortilégios distribuídos apenas dentro da branquitude, ganhando voz e influenciando sobremaneira outros que vêm dos mesmos lugares, formando uma pequena trincheira que questiona, analisa e produz contra-discursos libertadores e politicamente cravados no limiar de uma luta pela reversão dos estragos seculares que o racismo tem causado livremente.

Nesse sentido, podemos afirmar que o ‘lacre’ ou ‘lacry’ é o contradiscurso, a contranarrativa frente a abordagem excludente da hegemonia branca, como em outros tempos a contracultura foi uma trincheira de enfrentamento e resistência frente a mentalidade conservadora, só que agora a questão é mais urgente, estamos falando de resgates vitais de seres desumanizados em nome do acúmulo de vantagens de toda espécie. Inclusive da vantagem de não se pensar no controle da distribuição dessa vantagem. A vantagem racial.

Ser branco é uma vantagem.

Um privilégio social.

E isso é o verdadeiro ‘lacre’ em todos os sentidos possíveis.

Ser uma pessoa branca é nadar de braçada em um território seguro, construído, mantido e amparado historicamente pelos primórdios da exploração de pessoas negras. Nesse território onde as dores humanas comuns estão presentes, mas são suavizadas ou solucionadas pelo lenitivo minuciosamente produzido pelos privilégios sociais.

Pessoas brancas, assim como pessoas negras, sofrem com as intempéries naturais da dinâmica irrefreável da vida. Perdem amores, terminam relações, tem problemas e traumas familiares, limitações financeiras, doenças e perdas de entes queridos, crises existenciais, dúvidas e descrenças, desconfianças e medos, melancolias, tédios e toda sorte de acontecimentos inerentes ao andamento natural da vida. E sofrem com isso. Choram por isso. E têm que lidar com isso.

Assim como as pessoas negras. Mas pessoas brancas têm o lacre do privilégio social, blindando suas vidas de problemas outros, que somente a cara e a pele negra definem. O privilégio de ser branco é um lacre que vai limitar totalmente a condição de existência plena de pessoas negras.

Uma identidade branca é um passaporte social para compensações e facilitadores que fecham um cerco em volta de pessoas brancas. Há um mundo a parte que a pessoa de pele branca, ou vista como tal, não sabe, não sente, não vive, não percebe e quando percebe não questiona, afinal, não lhe causa problema algum.

Não vive, por exemplo, a invisibilidade e rejeição que crianças negras acabam conhecendo já na mais tenra infância. Na escolinha infantil, seja pública ou particular, a criança escolhida para ser o xodó da professora branca é também outro representante da raça branca. Isso define já no começo da vida de pessoas negras quem está destinado a receber afeto sincero e espontâneo. Isso lacra nossa vida afetiva para todo o sempre.

Me lembro de ter passado uma infância longe da minha mãe que sempre trabalhou muito para suprir as necessidades materiais da família. Eu sentia uma saudade imensa ao longo do dia. Estar entre outros familiares, como avó e tios, era muito reconfortante, mas a escola me parecia assustadora, um momento do dia em que minha coragem tinha que ser forçada em nome de um futuro melhor.

Primeiro porque não tinham muitas crianças negras, logo eu não me reconhecia como pertencente daquele ambiente, segundo que junto a essas outras duas ou três crianças negras, em uma escola com cerca de 500 crianças, eramos invisíveis e inadequadas; o estranhamento, o elemento repulsivo que as professoras eram obrigadas a lidar e não faziam questão nenhuma de disfarçar. Então elas lacravam um espaço, uma distância aceitável, em que elas se sentiam confortáveis sem ter que lidar com a nossa existência.

Não eramos escolhidas para sermos ajudante da professora, para ganhar estrelinhas de bom comportamento (mesmo eu sendo uma criança extremamente tímida na escola, com vergonha de se levantar até para ir ao banheiro) e não ganhávamos o que era mais desejado por todos os alunos: o colo da professorinha tão amável e tão racista, que ignorava crianças negras e, quando era obrigada a se aproximar fazia cara de desgosto.

Todas as meninas elogiadas, acolhidas e acariciadas pela professora, lacravam. Sambavam na nossa cara. Esfregavam o lacre social contido na pela branca.

Foi aí que comecei a assimilar intuitivamente o que seria o “lacre”.

Eu não lacrava em nenhum lugar. Nos bailinhos da escola, nas apresentações de teatro e dança, na rodinha de amigos adolescentes, no álbum de fotos da turma, nas paqueras coletivas onde todo mundo beijava todo mundo, quando tinha que escolher times, pares para dançar nas festas juninas, no amigo-secreto de fim de ano. As pessoas negras não lacravam, a menos que virassem o/a palhaço/a da turma, aquela pessoa negra que faz de tudo para ser aceita, maltratando-se para caber na cota única que as pessoas brancas lacravam.

Todas as fases da minha vida, eu nunca “lacrei”.

Pessoas brancas lacram, de todas as formas, em todos os lugares onde o fator raça é quem dita as regras.

Pessoas brancas detém privilégios sociais.

E privilégio social é o verdadeiro lacre.

Inclusive, lacram oportunidades nas mãos de um único grupo banhado em representatividade, a branquitude.

Como a oportunidade de ver e ser visto, por exemplo, é um lacre branco.

A oportunidade de ser gente, de ser reconhecido como alguém que existe, com todas as particularidades e entremeios que isso significa.

“Há esta anedota: uma mulher Negra diz que ela é uma mulher Negra, uma mulher branca diz que ela é uma mulher, um homem branco diz que é uma pessoa. Branquitude, como outras identidades no poder, permanecem sem nome. É um centro ausente, uma identidade que se coloca no centro de tudo, mas tal centralidade não é reconhecida como relevante, porque é apresentada como sinônimo de humano. Em geral, pessoas brancas não se veem como brancas, mas sim como pessoas. A branquitude é sentida como a condição humana. No entanto, é justamente esta equação que assegura que a branquitude continue sendo uma identidade que marca outras, permanecendo não marcada. E acreditem em mim, não existe uma posição mais privilegiada do que ser apenas a norma e a normalidade.” – Grada Kilomba.

Ser uma pessoa é um lacre. O lacre é um privilégio social.

O lacre real é o privilégio racial.

Para uma pessoa que nasce e cresce se reconhecendo em tudo, a ponto de formar sua personalidade tremendamente carregada de soberba e crença de realmente merecer estar sempre no centro de tudo, é muito natural e espontâneo rejeitar tudo que não é espelho. E se incomoda cada vez que o outro demonstra ter poder para quebrar os espelhos que sustentam sua percepção unilateral de si mesma.

Essa é uma das vertentes de atuação do racismo. A pessoa branca realmente se acha única e merecedora de todo o viés do desequilíbrio social que é a existência de um privilégio criado a partir da racialização da sociedade.

Somos todos iguais é uma consideração bastante ignorante e sintomática de pessoas que se acreditam, se pensam e se afirmam na unicidade de sua identidade, na hegemonia de sua existência cercada por outros tantos que pensam e agem da mesma forma.

O ego é extremamente indulgente e fartamente alimentado, tanto que há uma dificuldade em reconhecer qualidades em qualquer outra pessoa que não seja sua imagem e semelhança. O lacre social só enaltece outro lacre social. Busca, defende e reconhece apenas aquilo que garante sua representatividade existencial.

E quando reconhece, sua repulsa racista é ativada e há reações diversas que variam entre a agressão, a sabotagem, o descaso, a distorção ou descaracterização do diferente para que seja impregnado por elementos que remetam a branquidade, para que finalmente ele possa minimamente se reconhecer e aceitar.

Exemplo disso são as práticas de apropriação cultural e o tão falado ultimamente Colorismo. Ou a pessoa branca descaracteriza a pessoa negra e as expressões de sua existência ou embranquece de todas as maneiras possíveis para que a negritude dessa pessoa seja apagada e ele possa então engolir o medo de não se ver, de não se reconhecer e principalmente, o medo de ter que se pensar enquanto indivíduo em uma sociedade cujo favorecimento racial minou a sinceridade de sua existência.

A pessoa branca não se sabe, não se entende. Nós pessoas negras estamos, por motivo de forças maiores, fadados a nos descobrir em meio a esse mar narcísico que o privilégio social, o lacre branco, criou para que pessoas brancas se sentissem confortáveis.

Esse é um dos motivos que pessoas brancas se levantam violentamente, contra toda e qualquer movimentação da comunidade negra, de resgatar seu orgulho pessoal, sua visão positiva de si mesmo, sua autoafirmação social.

Esses movimentos de resistência e resgate que pessoas negras fazem e que hoje banalizam sintetizando tudo em uma gíria, uma expressão, o lacre ou lacry, assustam muito a frágil e vaidosa percepção que pessoas brancas têm de si mesmas.

Digo vaidade, afirmando que esta é muito diferente de autoestima. A autoestima não torna as pessoas, brancas ou negras, narcísicas e arrogantes, autocentradas em qualidades forjadas e defeitos suprimidos, na construção grotesca de uma alegoria de ser humano. Isso quem faz é a vaidade, a autoestima é primordialmente a construção de uma relação positiva consigo mesmo, capaz de reconhecer limitações naturais da existência humana e se amar apesar delas, trabalhando o auto amor pelo viés da resignação que nos torna capazes de nos aceitar e aceitar o outro, porque nos ensina que enquanto seres humanos diversos temos pontos em comum.

A autoestima forma uma consciência madura que derruba toda e qualquer necessidade de hierarquização entre pessoas, já que percebemos que somos seres neutros, bons e ruins, inteligentes e burros, amáveis e detestáveis, numa alternância constante de fatores, mas acima de tudo dentro de uma essência apta a se desenvolver ao ser trabalhada com carinho interior e exterior.

Falta autoestima na pessoa branca. E isso é consequência das estruturas sociais que elas mesmas criaram e alimentam sem pensar a respeito.

Falta autoestima e sobra vaidade em pessoas que não conseguem viver com as diferenças, amar as diferenças, se envolver com as diferenças e se repensar a partir das diferenças. Só podemos ser completos quando trabalhamos com as diferenças, dentro e fora de nós mesmos.

Só resta a vaidade, que suga o caráter, elimina a capacidade de se compadecer com as dores alheias e portanto não desenvolve a real solidariedade e pior, contribui ciclicamente para a manutenção das estruturas sociais que formaram esses defeitos.

Isso sim, deve ser pensado e discutido insistentemente por pessoas brancas, em todos os momentos. Exige coragem, muita coragem. Mas seria engrandecedor. Ninguém precisa da falácia raivosa, revestida de um (quase) discreto cinismo, direcionada a movimentações de resistência e reexistência dos invisíveis, dos indesejáveis, que passaram e passam uma vida inteira, tentando reconstruir a autoestima que o lacre de pessoas brancas destruiu e destrói todos os dias, em todos os espaços sociais.

Trabalhar a questão do negro único nos seus meios de convivência é um lacre, aprender a gostar de suas características estéticas naturais é um lacre, se conscientizar que a beleza não é só branca é um lacre, vencer a barreira do auto ódio e criar coragem para se mostrar para um mundo que nos rejeita violentamente e abertamente é um lacre. Mas é um lacre que advém de outro lacre, o lacre da branquidade, o lacre dos privilégios sociais.

O nosso lacre não nos livra da morte física e nem simbólica. Não nos livra dos efeitos e aços diárias do racismo. Não nos tira com facilidade do apagamento consequente do padrão branco. Não deixa de nos colocar na mira das estruturas limitadoras do racismo. Não nos possibilita uma existência dentro do conceito do ‘mais amor por favor’.

Mas nos fortalece, nos renova, nos devolve 0,1% de tudo que uma sociedade racista é capaz de nos tirar e é graças a ele que muitos não sucumbem a depressão e outros distúrbios psicológicos, muitos entram e se mantém dentro do universo acadêmico branco e elitista, muitos se amam e aprendem a exigir que sejam amados como gente, como pessoa.

Porque no frigir dos ovos, quem sempre lacrou e continua lacrando é a branquitude e seu culto doentio a branquidade, que concentra privilégios sociais em todas as esferas, pautando de maneira perigosa, nossas existências negras.

O lacre também é uma invenção branca. O contradiscurso do lacre é a reexistência que sempre existiu e sempre existirá, pois disso, depende nossa existência. O contradiscurso do lacre salva vidas. O discurso do lacre branco, construído pelo privilégios racial destrói e vem destruindo, física e simbolicamente. Há séculos. E a negritude, a maior vítima da grandiosidade desumana do lacre racial, vem inventando diversas formas de ser e de existir que possam coibir ou refrear um pouco de todos os estragos causados ontem, hoje e amanhã.

O lacre real, preciso e eficiente dentro de uma sociedade estruturada e institucionalizada pelo racismo e pela hierarquia estabelecida pela cor da pele é o privilégio social.

E privilégio social é ser branco.

O lacre é ser branco.

Lacre é o privilégio social construtor soberano de todas as desigualdades que invisibilizam existências negras.

E abrir mão desse lacre, ao que parece, não é um desejo ou uma necessidade de pessoas brancas.

Ao contrário.

Esse lacre nenhuma pessoa branca dispensa.

*Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.

Imagem: Paolla Oliveira pinta as unhas de branco pela paz. Foto: Reprodução.

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