Encontro da CPT discute conjuntura política e bem viver, com os povos originários do Brasil e da América Latina

Agentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de todo o Brasil, estão reunidos em Brasília, de 18 a 21 de outubro, para discutir a conjuntura política nacional e internacional, o bem-viver e o decolonialismo.

Cristiane Passos e Elvis Marques*, na CPT

Assessorados inicialmente pelo professor de ciência política da Unisinos, Bruno Lima Rocha, os agentes da CPT puderam debater o processo histórico da ideologia política da nossa sociedade, e como ele contribuiu na construção do cenário atual com essa onda reacionária, impulsionada pelo golpe que resultou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

De acordo com o professor, o Brasil tem uma alma de direita muito alinhada com os EUA. “Temos um flerte com as empresas neopentecostais e uma extrema direita equivocada, que não organiza massas, mas que defende, por exemplo, a herança da linha dura da ditadura militar. Politicamente estavam mortos, mas socialmente não”.

Bruno analisou também que o Brasil não possui um plano estratégico. Nunca possuiu. E o modelo de desenvolvimento que ele foi conquistando ao longo dos anos, inclusive o tecnológico, foi o eurocêntrico, mesmo no governo de esquerda. “Isso é o que Jessé de Souza chamou de racismo de classe. É o racismo brasileiro, e é o racismo assumido pela extrema direita, herança ibérica, que não respeita e não leva em consideração os saberes tradicionais dos povos originários, por exemplo”. Para o professor, a ideia de decolonialismo da América Latina é tão profunda quanto a luta de classes.

Em relação à crise da esquerda no nosso país e ao que devemos rever para a construção de um novo projeto político nacional, Bruno analisou que “no Brasil tivemos a experiência terrível de baixar a guarda a partir dos governos Lula e Dilma, achando que eram ‘nossos governos’. Não hipotecar a luta social para chegar ao poder executivo pode ser o maior aprendizado que os companheiros bolivianos, por exemplo, nos trazem. Quando a gente depende de um líder carismático a gente perde tudo, como ficou provado com o Chávez. A Venezuela tentou fazer ao modo deles, mas um líder morto não adianta. É uma soberania relativa dos territórios”.

Experiências de bem viver

Os regionais da CPT puderam partilhar experiências que vivenciaram junto às comunidades que acompanham, que trazem o bem-viver como eixo central. O estreitamento de laços, a afetividade e a solidariedade são alguns dos elementos da experiência de bem viver apresentada por Vanúbia Martins, agente da CPT na Paraíba. A Equipe da Pastoral no estado observou, em contato com as comunidades – urbanas e do campo -, que o apadrinhamento na fogueira de São João, realizado sempre no mês de junho, é, acima de tudo, a prática do cuidado. “As comadres se ajudam na hora de parir, na hora de buscar água, para cuidar das crianças. Elas também se ajudam em momentos que as famílias estão com falta de alimentos, quando as madrinhas contribuem com a comida de seus afilhados”, contextualiza a agente, que destaca ainda que o apadrinhamento é “para além do laço de sangue, pois a gente assume um compromisso de proteção”.

Historicamente no Nordeste, conforme percepção dos/as agentes da Pastoral, o apadrinhamento é feito por mulheres. “São madrinhas de fogueira, e não necessariamente um casal. E você pode ter duas, três ou mais madrinhas, pois isso aumenta o leque do cuidado”, afirma Vanúbia. Para a agente, essa tradição popular “tem uma diferença grande na vida das mulheres. Madrinhas que muitas vezes cuidam dos afilhados enquanto as mães vão trabalhar, seja na cidade ou no campo”.

Manoel Libânio, agente da CPT no Ceará, conta que em seu estado o costume sempre foi acender fogueiras para São João, São Pedro e Santo Antônio, entretanto fica preocupado em relação à continuidade dessa tradição. “Observamos que em nossa região [no estado do Ceará] as fogueiras têm perdido seu valor. Os jovens parecem não querer seguir com essa tradição. Talvez daqui uns 10 ou 15 anos a fogueira seja apenas um assunto lembrado na memória”, ressalta. Para Vanúbia, o apadrinhamento, em seu estado, é uma das formas de resistência das comunidades que não “foi engolida pelo capitalismo”. Um modo de vida e de bem viver que continua bem aceso.

Experiências de bem viver vindas dos Andes

Lorenzo Soliz (Instituto para el Desarrollo Rural de Sudamerica – IPDRS) deu um panorama da história de seu país e da luta dos povos indígenas. Em 1950 houve uma reforma agrária no país, mas não foi benéfica para os povos indígenas das terras baixas, do Chaco, na Amazônia boliviana. Nos anos 1960, período de ditadura como em vários outros países da América Latina, e em que os povos indígenas do altiplano, aymaras e quechuas, retomaram suas lutas. Na década de 1980, o neoliberalismo entra com tudo no país. Em 1990 é realizada uma grande marcha indígena pelos seus direitos e contra esse modelo que estava sendo imposto. Até os dias de hoje já foram cerca de 11 marchas indígenas, todas também em defesa de seus territórios. Nos anos 2000 começam as primeiras lutas para mostrar que existem alternativas a esse modelo neoliberal, através das lutas contra a mercantilização da água. Em 2003 houve uma marcha que pediu uma Assembleia Constituinte. “A nova Constituição incorporou muitas das reivindicações dos movimentos sociais e indígenas da Bolívia, e é considerada uma Constituição muito avançada. Em 2005, então, foi eleito Evo Morales, um aymara, com 54% da votação. Vitória apertada quando comparada às eleições anteriores”, completou Lorenzo. Os primeiros anos do governo Morales foram de grande avanço, contudo, a partir de 2010 houve uma paralisação e uma aproximação do governo com o agronegócio e com políticas de avanço econômico, em detrimento dos interesses da população indígena.

Marta Cabrera, do povo Qhara Qhara, recordou a invasão espanhola, que impôs outro sistema de governo, de produção e o esquecimento de  seus saberes ancestrais. De acordo com ela, a luta dos povos indígenas bolivianos de 1976 a 1990 conquistou o direito coletivo sobre seus territórios. Com a criação do INRA, órgão similar ao Incra no Brasil, em 1996, veio uma pressão para individualizar os títulos de propriedade, no que eles insistiram que deveriam continuar os títulos coletivos. Marta destacou, ainda, que na cédula de identidade deles, vem registrado o nome do território e da nação indígena a qual fazem parte.

Para a indígena, “a única forma de decolonizar é a educação. E essa educação deve ser Intra, inter e pluricultural”.

*Setor de Comunicação da Secretaria Nacional da CPT

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