Qual o limite do governo Temer, que rifou escravos em nome de sua salvação?, por Leonardo Sakamoto

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Confesso que tenho medo do resultado da votação na Câmara dos Deputados, nesta quarta (25), que deve livrar o pescoço presidencial da guilhotina afiada pelas denúncias de organização criminosa e obstrução de Justiça.

É mais fácil o bíblico camelo passar pelo buraco da agulha do que os nobres parlamentares, em um rompante ético, decidirem que as denúncias da Procuradoria-Geral da República precisam ser devidamente investigadas e votarem pelo afastamento de Michel Temer. Ou seja, a menos que o roteirista desta tragicomédia chamada ”Brasil” tenha um surto psicótico e resolva psicografar o imponderável, caminhamos tranquilamente para jogar tudo para baixo do tapete.

Contudo, o trabalhador brasileiro deveria se preocupar com um placar amplamente favorável a Temer. Porque larga margem significa uma grande quantidade de acordos feitos para trocar votos pela dignidade do restante da sociedade. Emendas e cargos são a parte pequena e mais visível desse comércio. O que preocupa foi o quanto do país foi ”vendido” por Michel Temer para permanecer onde está, via concessão de leis, mudanças de regras e outras medidas, e que nunca saberemos. Há estimativas que apontam um custo de mais de R$ 32 bilhões em concessões e medidas para salvar Temer a votação da denúncia anterior e nesta.

Já na rejeição da primeira denúncia, houve o perdão bilionário de dívidas previdenciárias para ruralistas e o apoio tanto para mudanças nas garantias dos povos tradicionais a seus territórios quanto para o relaxamento da proteção ambiental, por exemplo.

Avisei que havia ainda muita coisa que podia ser entregue. Afinal o Brasil é um país grande. E adiantei que o conceito de trabalho escravo iria entrar na conta. Não deu outra. Ele rifou a liberdade de trabalhadores em troca de sua permanência no poder. O que ainda surpreende, não pela falta de oportunidade, mas pelo excesso de cara de pau que isso representa.

A publicação de uma bizarra portaria que mudou as regras de fiscalização de trabalho análogo ao de escravo no Brasil, dificultando o resgate de pessoas nessas condições, a fim de agradar a bancada ruralista e o setor paleozóico do empresariado nacional e conquistar seus votos em nome da rejeição da denúncia, foi uma ação tão absurda que faria corar o tal roteirista acima citado.

Correspondentes de veículos de comunicação estrangeiros, ao entenderem o que havia acontecido, perguntavam a nós, colegas brasileiros, como um governo que faz isso à luz do dia e de forma tão descarada, continua no poder. A resposta é simples, ele continua no poder exatamente por coisas como essa, somado ao desalento e à descrença da população e à falta de alternativas de consenso.

O pacote de novas medidas pró-escravidão está por ora suspenso pela ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal. Mas Michel Temer e amigos já fizeram o favor de atiçar o monstro e vai ser difícil colocá-lo novamente na caverna. A cúpula da Câmara dos Deputados, para atender as demandas ruralistas, já demandou estudos para aprovar as mesmas mudanças trazidas pela portaria através de projeto de lei. Lembrando que existem, pelo menos, cinco projetos já tramitando, há anos, no parlamento com propostas semelhantes.

E isso é uma coisa de muitas. Vale lembrar que Temer sancionou o novo Refis, com mais perdão bilionário de juros e multas a devedores, inclusive parlamentares-devedores. E vem mais por aí. A Reforma Trabalhista Rural, cujo projeto original foi tachado de ”legalização da servidão”, dado o tamanho do retrocesso, estava provisoriamente congelada e deve voltar a correr. Interessante, aliás, ver como as medidas que brotam do Congresso Nacional concorrem entre si para ver quem é mais castradora da dignidade.

Ou mesmo aberrações como as propostas que visam a dificultar o aborto legal nos casos já previstos em lei, como estupro, que é um dos xodós da bancada do fundamentalismo religioso. Isso sem contar os grupos de pressão do capital, que seguem atuando por bloquear mudanças na estrutura tributária extremamente desigual – que sobretaxa o consumo dos mais pobres para deixar intocada a renda dos mais ricos. Ou seja, quando tudo isso for entregue, vai sobrar o quê?

Temer foi posto onde está na expectativa de parte da classe política de que ele, de algum forma, consiga impor um freio à operação Lava Jato. E pela expectativa de Patos Amarelos de que seu governo reduza o tamanho do Estado e aumente a competitividade, passando por cima da qualidade de vida dos brasileiros se necessário for. O que significa impor tetos ao crescimento do investimento em educação e saúde, defenestrar direitos trabalhistas e enfiar goela abaixo mudanças na aposentadoria que afetarão a classe média baixa, ferrando com a vida de quem já foi ferrado pela vida.

Vale, portanto, a sabedoria popular: no fundo do poço, há sempre um alçapão.

Na votação sobre a segunda denúncia, que deve ser rejeitada, ouviremos novamente parlamentares proferirem sua decisão nos microfones ”em nome da estabilidade da economia”, ”contra a perseguição política”, ”pela investigação e pela ética, mas só depois que Temer deixar o mandato”, ”por Deus”, ”pela família”, ”por meu labrador caramelo”. Mais honesto seria alguém ter a coragem de dizer apenas um curto e grosso ”que se dane o país”.

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters.

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