Um túmulo para Beriaru. Por Oiara Bonilla

Qué duros tiempos, el ángel ha muerto,
los barcos dejaron el puerto.
Tiempo de amar, de dudar, de pensar y luchar,
de vivir sin pasado.
(A. Zitarrosa)

Na DR

Dizem isso, que escrever começa com a dor.
Porque essa dor é surda, quase muda.
E só se pode gritar assim por dentro.

Não pensava em escrever.
Mas recebi a notícia e acordei com a aquela musiquinha de novo na cabeça.
Sai cedo. Andei rápido. As palavras surgiam uma atrás da outra. Palavras, só palavras. Quase impossível pensar em frases para gritar.
Laranjeiras. Largo do Machado. Rua Paissandú – aquele hotel está à venda. As paredes daquele quarto ruíram. Paisagem demolida na memória.
Demolição.

Ecoa o pedido de D.

– Precisamos de ajuda para fazer o túmulo.
Um túmulo de mármore para Beriaru.

Atravessando, pisei na lama sem querer. Tentando correr antes do sinal fechar.

A lama suja e líquida do Rio, esgoto e lama, que mancha. Que mancha. Lama-sangue que o chinelo espirra. Lama-sangue de todos os cadáveres esquecidos soterrados pela beleza cega, surda e muda da cidade. Lama-sangue que cola na batata da perna, nos dedos do pé, na alma.

Atravessei toda aquela lama-sangue que cobre os pés, as pernas e toda essa cidade.

Todo o sangue que escorre dos morros e das ladeiras dessa cidade e se mistura com a lama-esgoto das ruas, das esquinas, dos comércios, dos mercados, das valas, das areias brancas cheias de graça. “Lava o pé na torneirinha do play”. A lama-sangue que cola na sola de todos os pés.

Mas ninguém sente
Ninguém vê
Ninguém ouve
Ninguém grita

Demolição.
Como se começa e como se esquece?
Como se desmancha?

Como se grita?

Travessia. Desmemória.
Há 20 anos, estava lá, naquela aldeia.

Em junho
Achei a foto
dela
Beri na beira do rio
com a mãe

Lembrei dela. Beri. Beri sorrindo, no alto da árvore.
Achava que tinha esquecido.

Foto: Oiara Bonilla

Não dela Beri, mas da memória dela, da irmã dela, da mãe dela, do pai, do irmão dela,  da aldeia, do Rio Javaés rasinho no verão, das travessias a pé, espantando as arraias com um pau, das expedições a cavalo, dos lagos, das praias de areia branca, dos jacarés boiando, do gado, do sol implacável do cerrado. Do sorriso dela. De toda a violência que já cercava aquelas terras, há quantos? Vinte e tantos anos atrás. Do gado. Do arroz. Do milho. Da colheitadeira. Da poeira da estrada. Das pontes. Da chuva, da lama.

– O túmulo está desabando com a chuva.
A lama invadindo a cova.

O sangue
O soterramento do corpo
Demolição.

A Ilha. O Bananal. Paraíso indígena encurralado por colheitadeiras e turistas.
Toda a Baixada Santista baixando no Rio Javaés. Geladeira, cerveja, motor.
Repelente. Panças estufadas de cerveja e linguiça.
O verão. A pesca. A presa. O troféu.
E o tum-tum-tum surdo e abafado do som saindo da Hilux, rio abaixo, na beira.

Estupros. Estupros.

O sorriso dela
O sorriso da Beri
O sorriso da Beri
O sorriso dela

Perdido na minha memória do Txuirí. Aldeia Porto Txuirí. Lugar-memória aterrado pelos anos, pelas mudanças, o casamento, os filhos, as perdas, as demolições, pelo trabalho, por outro povo, por outros afetos, outros lugares, outras memórias, pela vida. Mas o Txuirí estava lá. O lugar ficou lá, ele sempre esteve lá. Esperando. Desmemoriado. Soterrado.

Lugar-memória, o Porto Txuirí. Retomada indígena karajá e javaé. Retomada de terra quase esquecida na poeira do cerrado. Na beira do Rio Javaés.

Conta o mito que foi ali que o herói Txuirí descansou, depois de empurrar a canoa rio acima. Dias a fio, contra a correnteza do rio raso. Ele sentou ali. E chorou.

O Txuirí estava lá. Beri estava lá. A irmã estava lá. E a mãe, também.
Beri cresceu. Casou. Foi mãe, três vezes.
E chorou.

Corre, Beri!
Ele vem com raiva!

A menina Beri que não largava do meu pé. A curiosidade insaciável de Beri. A Beri que lia meus cadernos de campo. Onde eu ia ela ia, abrindo os caminhos, os emaranhados de cercas, levantando os arames farpados, pequena desbravadora de quintais. Pendurada no meu colo, Beri. Gargalhávamos atravessando o rio contra a corrente para tomar guaraná. O guaraná, o orelhão, a travessia, a estrada. O pau que espanta as arraias no leito do rio raso. As risadas de Beri e de D. O banho de rio. O Rio Javaés.

Sobe na árvore Beri, sobe!
Que ele vem aí!

A menina Beri casou. Foi mãe.
Três vezes.

Corre, Beri!
Que ele vem aí!

Nunca mais vi
o lugar onde Beri chorou.
Suas águas mansas e rasas no verão.
A outra margem do rio, para aonde atravessávamos.
A praia de areia branca.

Grita, Beri!

O verão.
A travessia.
As arraias.
A correnteza.
A alegria.
Beri.

No primeiro golpe, Beri caiu.
Um soco, dois socos
Pancada.

O terror.
Sem grito.

ninguém ouve,
ninguém vê, ninguém fala

Do outro lado, os brancos.
O orelhão.
A venda.
O guaraná.
Do outro lado, os tori.

O chute

A estrada. A porteira.
A garrafa.
O tum-tum-tum.
O troféu.
O gado.
O curral.
A lama.

O chão
O chinelo
O sangue
O fígado atravessado pela dor
A lama

O arame farpado
O golpe na cabeça
O chute na barriga
O fígado
A lama no pé
O sangue
O chão

Demolição.

pequena atravessadora de rios,
o que subsiste nas ruínas do (seu) mundo?

Beriaru
na beira do rio
seu sorriso
a praia de areia branca
a travessia
a dor
a lama
o túmulo
O lugar onde Txuirí chorou.

-‍

Para Beriaru Javaé, assassinada em 16 dezembro de 2016.
Imagens: Oiara Bonilla

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