Militares voltam ao centro da política pelas mãos de Michel Temer

Por João Filho, no The Intercept Brasil

Considerado o presidente mais impopular do mundo, Michel Temer chega ao último ano do governo sem conseguir aprovar a reforma da previdência, o que mancha a imagem de “homem que arrumou a casa” junto ao eleitorado de centro-direita. Agora, aposta no sucesso da intervenção no Rio como a última cartada para alavancar eleitoralmente ele e sua turma e, assim, garantir o tão necessário foro privilegiado. Tomar para si a pauta de Bolsonaro, que aparece bem posicionado nas pesquisas, lhe pareceu uma boa jogada. Ou melhor, “uma jogada de mestre”, como ele mesmo afirmou.

Temer sancionou uma lei, em outubro do ano passado, que determina que casos de homicídios contra civis cometidos por soldados do exército devem ser julgados pela justiça militar. Essa aberração teve efeito imediato. No mês seguinte, uma operação conjunta do Exército com a Polícia Civil do Rio de Janeiro matou 8 pessoas no Complexo do Salgueiro. No dia da chacina, foi emitido um comunicado afirmando “ter havido resistência armada” por parte de traficantes durante a operação. Dois dias depois, um porta-voz do Exército contrariou o comunicado e afirmou que “não houve confronto entre as forças de segurança e das Forças Armadas com integrantes de facções criminosas”. A Polícia Civil também voltou atrás e afirmou que seus homens não efetuaram nenhum disparo. No mês passado, laudos de necropsia indicaram que as vítimas levaram ao todo 35 tiros, todos pelas costas.

Apesar de não ter competência para investigar militares, o MP-RJ abriu uma investigação sobre o caso. Segundo a ONG Human Rights Watch, promotores requisitaram ao general Walter Braga Netto uma cópia das declarações feitas por soldados que participaram da operação e pediram para entrevistá-los. Braga concordou com o pedido mas, três meses depois, não encaminhou os documentos e não disponibilizou os soldados para serem interrogados. Na prática, a lei de Michel Temer tornou impossível uma investigação independente do que tudo leva a crer ter sido uma chacina.

É nesse ambiente que o presidente conferiu super poderes ao general Braga Netto – o homem que está obstruindo a investigação de 8 homicídios no Salgueiro – o comando do sistema prisional e de todas as forças policiais cariocas. O interventor nomeou outro general para a secretaria de Segurança. Pezão virou figura decorativa no governo do Rio.

Na primeira coletiva para falar sobre a intervenção militar, o general Braga Netto exigiu que as perguntas da imprensa fossem escritas em um papel e entregues 10 minutos antes para uma pré-seleção. Quase todas as perguntas escolhidas foram feitas pelas empresas do Grupo Globo. Mais simbólico, impossível. A coletiva nos moldes militares durou meia hora e foi bastante tensa. Depois de informações terem sido negadas de forma arrogante, jornalistas reclamaram e ouviram “Não é no grito que vocês terão as informações”. Os saudosistas da ditadura militar devem ter matado um pouquinho a saudade de Newton Cruz.

Nada do que a polícia carioca já não faça

É impossível não enxergar as intenções eleitorais de Temer na intervenção. Como bem lembrou a jornalista Cecília Oliveira do Intercept Brasil, o Rio de Janeiro não está nem entre as 5 capitais mais violentas do país e não houve nenhuma explosão de violência recente que justificasse a medida. A intervenção é um desastre na sua essência, pois segue a lógica da guerra ao tráfico de drogas – uma estratégia fracassada em todos os lugares do mundo, inclusive no Rio de Janeiro. A presença dos militares na cidade pode inicialmente dar a sensação de segurança para os cariocas das áreas mais nobres, rendendo dividendos eleitorais, mas para boa parte dos moradores das favelas a expectativa é de que a violência aumente, haja vista a chacina no Salgueiro e diversas outras experiências em que o Exército esteve envolvido em questões de segurança pública.

Haverá prisão de traficantes, apreensão de drogas e muitos números para apresentar à população, dando a falsa sensação de que a ordem está sendo restabelecida mas, na prática, será só mais um capítulo do infindável enxugamento de gelo que é a guerra às drogas. Enfim, nada do que a polícia carioca já não faça.

“Nós temos que trazer as Forças Armadas para a administração”

Em entrevista à rádio Jovem Pan, algumas frases de Temer denotam que a segurança, e não mais as reformas, deverá ser a grande marca da sua gestão para fins eleitorais:

“Nós conseguimos um relativo progresso na economia, na educação, na saúde, em várias áreas. Agora precisamos de ordem. Aliás, é o lema do nosso governo e da nossa bandeira”

“Precisamos acabar com esse preconceito de que as Forças Armadas não podem fazer nada.”

“Nós temos que trazer as Forças Armadas para a administração.”

“As Forças Armadas se recolheram durante muito tempo demasiadamente. Tanto que aos poucos estou dizendo: vocês precisam participar da administração”

“Eu disse aos senhores oficiais militares que eles não precisam entrar na política”

Essa última frase é sensacional. Depois de trazer os militares para o centro da política, colocando um general no comando interino do Ministério da Defesa e dando ao Exército a administração da segurança pública do Rio de Janeiro, Temer os aconselha a não entrar na política.

Agora, com os militares do seu lado, despejará mais grana na intervenção no Rio para tentar entrar no jogo eleitoral vestindo a fantasia do homem da ordem.

Os militares, que não viam tanto poder desde a ditadura que impuseram ao país, não parecem dispostos a seguir o conselho desse nobre civil. O general Hamilton Mourão, que no ano passado chegou a cogitar um golpe militar, passou para a reserva e foi homenageado em cerimônia de despedida. Esse eleitor declarado de Bolsonaro contou para a revista Piauí que pretende ser o articulador de várias candidaturas de militares em muitos – “senão em todos”–  estados do país. Bom, a vitrine eleitoral já foi dada por Michel Temer.

Depois de cortar serviços e direitos básicos da população mais pobre em nome de um ajuste fiscal, Temer despejou milhões dos cofres públicos na mídia para promover uma reforma que ele já desistiu de fazer. Agora, depois de aumentar em 23% o orçamento das Forças Armadas (aumento de 19 bilhões em 2 anos), despejará mais grana na intervenção no Rio para entrar no jogo eleitoral vestindo a fantasia do homem da ordem e do progresso.

 

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