FSM/2018 – Tenda do Bem Viver reafirmou Nuclear Não!

Zoraide Vilasboas, Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania / Articulação Antinuclear Brasileira

Atividades realizadas na Tenda durante o Fórum Social Mundial (FSM), ocorrido de 13 a 17 deste mês na Universidade Federal da Bahia (UFBA), evidenciaram que a resposta à barbárie capitalista é a sociedade do Bem Viver, na qual não têm lugar: o agro e o hidronegócio, que violentam a humanidade com a espoliação de territórios; o agroveneno nos alimentos; a privatização da água; a expropriação nem a entrega dos bens comuns do povo e da natureza a grandes corporações privadas. Também não têm vez a indústria bélica, nem o uso da tecnologia nuclear para produzir energia elétrica.

A Tenda foi aberta com uma abordagem acadêmica sobre o Bem Viver que inspirou o fio condutor de debates sobre a defesa dos bens comuns –contra a mercantilização da vida e da natureza– ao longo de dois dias do FSM. Já exemplos práticos das possibilidades de se atingir o estado de Bem Viver foram revelados no último evento de pescador@s e quilombolaspovos originários e tradicionais, que cultuam o lema “outro mundo é possível” em seu universo de sabedoria e convivência. Nesta perspectiva, o Nuclear Não! emergiu, mais uma vez, como incontestável afirmação da importância das fontes renováveis de energia –que promovem a Vida e não a morte, como é o caso da nuclear– e do fortalecimento da cultura da paz, a favor do desarmamento, amplo, geral e irrestrito.

Profundamente associado à proposta do Bem Viver, o lema Água é Vida –inspirador de ações de ativistas socioambientais baianos desde o FSM/2015, Tunísia– foi outra fonte de ânimo na Tenda. Atividades abordaram os conflitos pelo acesso a esse bem comum, o uso intensivo do produto pela agroindústria e na produção de energia elétrica, e os altos níveis de contaminação das águas devido à falta de saneamento ambiental e à mineração, em especial do urânio de Caetité (BA) para a geração de energia nuclear nas usinas atômicas de Angra dos Reis (RJ).

Os debates sobre a matriz energética reafirmaram a opção pelas fontes renováveis de energia e repeliram o emprego da tecnologia nuclear para produção de energia elétrica (perigosa, poluente, cara) por ser insustentável social, econômica e ambientalmente. O “Diálogo antinuclear” contou com a participação de representantes do Brasil, França, Suíça, Japão, Irã e outros países evidenciando que a energia nuclear é a energia da morte e que em todo o mundo cresce a mobilização por fontes renováveis. A informação de que no FSM Antinuclear, Civil e Militar, ocorrido em novembro de 2017 (França), saiu a orientação de reforçar a luta contra a mineração de urânio em todo o mundo, entusiasmou os ativistas, especialmente da Bahia e Ceará, que combatem a expansão  dessa  mineração no Brasil.

O representante da Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares, Chico Whitaker, propôs o envio de uma Carta Aberta (AQUI) exigindo uma auditoria internacional independente sobre o projeto da usina de Angra 3, à Procuradoria Geral da República, à qual já pedimos a suspensão da conclusão dessa obra, paralisada desde 2015, após denúncia de corrupção pela LavaJato, que levou à prisão vários dirigentes da Eletronuclear.

Ainda no campo antinuclear, tivemos a participação de pesquisadoras na roda de conversa sobre Mineração de urânio, passado, presente e futuro ocorrida na Tenda, mas também ao ar livre. Uma pesquisa sobre Riscos de Contaminação Ambiental e Humana Relacionados à Exploração da Unidade de Concentrado de Urânio no Sudoeste da Bahia, vem sendo desenvolvida pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho/UFBA. A coordenadora da pesquisa Cláudia d’Arêde relatou que o estudo iniciado em 2013 aponta a imposição da naturalização dos riscos, a fim de se tentar minimizar o perigo da contaminação das águas na região; o preocupante adoecimento de trabalhadores e moradores do entorno da mina, por exposição à radiação ionizante e a crescente degradação do meio ambiente. Acrescentou que as condições ambientais em Caetité, Lagoa Real e outros municípios expõem milhares de pessoas a possível risco.

A falta de acesso à água potável foi um dos problemas mais citados pelos entrevistados nas comunidades. Eles afirmam que a falta de água começou a partir da implantação da empresa. Em 2017, foi feita uma análise da qualidade das águas usadas para consumo humano de 15 poços de comunidades próximas à mina e quatro poços, distantes, usados para comparação. Em quatro das amostras do entorno da mina a concentração do urânio superou o Valor Máximo Permitido (VMP) pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (15 ug/L), chegando a atingir 28,93 na localidade de Gameleira/Buracão. Em outras quatro amostras o índice estava acima da metade do valor da VMP.

A profa. Raquel Rigotto, do Núcleo Tramas da Universidade Federal do Ceará, narrou a resistência e luta dos cearenses para impedir a expansão da mineração de urânio no Ceará, onde o mineral apresenta-se misturado ao fosfato. Ali, as irregularidades do licenciamento ambiental e o próprio desafio do emprego de uma tecnologia inédita para separar os dois minerais têm retardado a exploração do urânio de Santa Quitéria (CE). Há uma grande preocupação com a possibilidade da radioatividade alcançar a produção de alimentos no Brasil, através de fertilizantes produzidos a partir do fosfato cearense.

Ágora do Futuro

Uma vivencia inédita encerrou o FSM/2018. A Ágora dos Futuros agitou a Praça das Artes (campus Ondina/UFBA), na manhã do dia de17, quando as atenções se voltaram para a formação de alianças e fortalecimentos das resistências e lutas. Foi um momento de troca de informações entre as iniciativas já existentes e outras nascidas no FSM com o fim de reforçar contatos e articulações para o futuro. Militantes antinucleares divulgaram o Acampamento Antinuclear Internacional de Verão (agosto/18, França), o FSM Extrativismo/Mineração (novembro/18, África do Sul) e o FSM Antinuclear, Civil e Militar (2019, Espanha). As ações anunciadas vão para um calendário virtual de atividades a serem realizadas no mundo de março até o fim de 2019. Esta primeira experiência da Ágora será aprimorada para as próximas edições do FSM.

As entidades organizadoras da tenda foram a Articulação Antinuclear Brasileira, Associação Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania, COESA–Conselho das Entidades Sociombientalistas-BA e o Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho (UFBA), envolvendo cerca de 20 entidades e movimentos parceiros.

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