André Singer, Vladimir Safatle e Marilena Chaui: Instituições precisam se fortalecer para resistir ao autoritarismo de Bolsonaro

Frente pela democracia deve ser feita pela sociedade, diz André Singer. Professor de Ciências Políticas da USP afirma que partidos estão resistentes à construção de uma frente ampla, mas que a união em torno do tema já está acontecendo na sociedade e deve ganhar força

Na RBA

São Paulo – O professor de Ciências Políticas da USP André Singer afirmou ontem (1º) que os partidos políticos estão resistentes a construir uma frente democrática para enfrentar o ataque a direitos pelo governo Bolsonaro, mas que essa frente deve se impor no campo da sociedade civil, aglutinando diversas instituições que representam os trabalhadores, estudantes e movimentos sociais. “Os partidos terão de se somar a esta ampla frente da sociedade civil, ou ficarão sem base. Se o inverno é deles, a primavera é nossa”, disse sob aplausos, referindo-se à vitória da extrema direita nas eleições deste ano.

Singer expôs essas ideias em debate com os alunos de História e Geografia da USP, realizado ontem a convite do Professor Ruy Braga sob o tema Como Construir a Resistência. Falaram também os professores de filosofia Marilena Chaui e Vladimir Safatle.

Singer analisou a conjuntura política atual sob três aspectos: avaliação da eleição; o que vem pela frente com o governo Bolsonaro; e o que o campo progressista pode fazer, que é a ideia de uma frente ampla no contexto da sociedade.

Sobre o resultado das eleições, ele disse que a diferença entre Haddad e Bolsonaro, que caiu de 18 para 10 pontos no segundo turno, foi um movimento de baixo para cima na sociedade que se mobilizou em defesa da democracia.”O resultado 55/45 (para Bolsonaro e Haddad respectivamente) é equilibrado. A democracia é a única garantia que a classe trabalhadora tem de continuar avançando.”

Singer também disse quê quem votou em Bolsonaro não é fascista. Os grupos que têm elementos fascistas são pequenos no conjunto da sociedade brasileira: “Boa parte dos eleitores votaram contra a crise, mas os eleitores não tomaram consciência do programa de governo vitorioso”, afirmou.

Ele afirmou que os grupos que defendem regressões no campo moral são minoritários. “Nós devemos nos unir e manter isolados esses grupos para formar uma nova maioria.” Singer considera que com a eleição de Bolsonaro um projeto autoritário está em curso. “Não tenho provas cabais, mas tenho convicção”, afirmou, provocando risos, em referência direta ao procurador Deltan Dalagnol, que fez essa afirmação sobre o suposto envolvimento do ex-presidente Lula em casos de corrupção.

“A nomeação de Sérgio Moro”, afirmou ainda, “é um indicativo disso: ele põe por terra a presença e isenção da Lava Jato”.

Situação já foi vencida

Já o professor de Filosofia Vladimir Safatle mostrou que “a situação que estamos vivendo hoje no Brasil já ocorreu em outros lugares e foi vencida”. Ele classificou a ascensão de Bolsonaro como a vitória de um projeto de neoliberalismo brutal, aliado a um regime autoritário com características fascistas. “O eleitor com desejo anti-institucional foi levado para extrema-direita”, afirmou Safatle e completou: “O antipetismo poderia ter ido para qualquer lado”. Para ele, o resultado da eleição também mostra a ressurreição dos fantasmas da ditadura civil-militar no Brasil e se traduz num culto ao terrorismo de estado e da tortura.

“O Bolsonaro é a parte torturador da ditadura, ele assume isso”, comentou ao analisar os segmentos que compõem os eleitores do candidato de extrema-direita. Safatle também disse que o programa econômico de Bolsonaro é falimentar e vai concentrar renda. “A população vai perceber rapidamente que a única maneira de governo será a de crise permanente”, argumentou.

O professor também ironizou o discurso falso moralista que predomina entre os eleitores do candidato do PSL. “O responsável pela crise não é o sistema financeiro, mas são os professores de História, que trouxeram para a sociedade o pensamento crítico”.

“O que o Bolsonaro fala não é bravata contra as minorias, mas é estratégia de governo enquanto a destruição econômica corre solta. Conhecemos essa estratégia e vamos lutar contra ela. Cabe a nós assumir essa luta, ela vai durar um bom tempo, mas quando ela passar vamos lutar por uma sociedade mais justa, mais igualitária”, sustentou.

Ele considera que o campo progressista tem de voltar a falar com a sociedade de forma afirmativa e também fazer uma análise dos erros cometidos durante os governos Lula e Dilma.

Confira o discurso da professora Marilena Chaui:

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Chaui: Instituições precisam se fortalecer para resistir ao autoritarismo de Bolsonaro

Na RBA

São Paulo – A resistência ao avanço do autoritarismo no país com a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) deverá ser feita sob a forma da organização institucional, defende a professora de filosofia da USP Marilena Chaui. Segundo ela, essa é uma estratégia para fortalecer a atuação da sociedade civil por meio dos centros estudantis, sindicatos, associações, movimentos sociais, entre outros, que devem operar como grupos institucionalizados de pensamento e ação.

Marilena falou na quinta-feira (1) aos estudantes da universidade, em debate realizado no prédio de História e Geografia, para discutir como organizar a resistência diante da ascensão do governo de extrema-direita. Marilena discursou depois dos professores André Singer e Vladimir Safatle, que também analisaram a conjuntura política e defenderam a consolidação de uma frente ampla de defesa da democracia, não organizada por partidos políticos, mas por representantes da sociedade civil.

“Vocês vivem um mundo que acabou, esse mundo de espontaneidade, do voluntarismo tem de ser colocado em compasso de espera para entrarmos em um processo lento para nossa organização institucional da resistência”, afirmou a professora, defendendo que as manifestações espontâneas na rua neste momento não vão fortalecer a luta, mas representaram apenas uma ação que é criada pelo governo que está alçando poder e que vai usar a repressão a essas manifestações para encobrir a crise econômica pela qual o país passa.

“Eles querem que façamos as manifestações de rua, mas nós precisamos fazer um trabalho lento como é a toupeira, que cava silenciosamente por debaixo da terra. E fazer isso sempre sob as formas institucionalizadas, foi isso que eu aprendi com os movimentos sociais e movimentos operários. Para eles a melhor maneira de gerir a crise é atuar sobre as manifestações espontâneas”, afirmou.

Marilena falou também em consolidar esse trabalho em formas do pensamento e da prática para que a ação dos estudantes supere os limites das universidades, e também para criar um pensamento coletivo que escuta, responde, fala, apreende e se insere em uma dinâmica de trazer cada vez mais pessoas para resistência. “Eu convoco para uma resistência que seja aquela que nos organiza, aquela que nos dá o caminho para a cada passo nós provarmos de maneira irredutível ou fracasso que vem vindo aí.”

A professora considera a tarefa de construir a resistência difícil por conta da estrutura autoritária da sociedade brasileira. “Eu passei os últimos 30 anos da minha vida acadêmica e política tentando entender a sociedade brasileira. É uma sociedade autoritária, violenta, hierárquica, que produz o mito de um povo ordeiro, cordial, generoso, sensual e de uma história feita sem sangue. Basta não colocar Canudos, Praieira, 1930, abolição; é por isso que os historiadores são considerados assim, porque eles contam uma outra história que não é a do mito da não-violência”, afirmou.

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Veja a íntegra das falas:

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