Pesquisa aponta contaminação humana e ambiental em Campos Elíseos

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A contaminação humana e ambiental em Campos Elíseos, no município de Duque de Caxias – Rio de Janeiro, foi o tema discutido no último ‘Encontros do Cesteh’. Na atividade foram apresentados os resultados do estudo que analisou a contaminação na região. Coordenado pelo pesquisador do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP) e coordenador do Laboratório de Ecotoxicologia, Josino Costa Moreira, o objetivo do estudo foi avaliar os níveis ambientais e a contaminação humana na área de influência do Polo Industrial de Campos Elíseos, além de entender seus potencias impactos sobre a saúde da população residente. Os resultados da pesquisam apontam para a situação de precariedade dos indivíduos residentes da região, com indicação de alterações hematológicas, relacionadas à ocorrência de exposição ao benzeno.

Campos Elíseos é situado em uma área de manguezais e possui uma população de aproximadamente 20 mil habitantes. Na região é constituído o Polo Industrial de Campos Elíseos (PICE), que abriga cerca de 30 empresas, a maioria delas ligadas exploração de petróleo e gás. A região possui um elevado Produto Interno Bruto (PIB) quando comparada a outros municípios da Baixada Fluminense. Diante deste contexto, a região sofre constantemente com cenários de acidentes. De acordo com Josino, a situação em Campos Elíseos é de alta vulnerabilidade. As moradias são localizadas próximas aos tanques de distribuidoras de combustíveis do Pólo Petroquímico. Não há saneamento básico e água, e quando chove as enchentes fazem a água suja retornar as casas. Além disso, não há opções de lazer para a população local.

Outro aspecto analisado na pesquisa foi a qualidade do ar. De acordo com o pesquisador, a concentração de material particulado é sistematicamente mais alta na região. Queimados também é uma região de alto risco. O município abrigou, durante um bom tempo, o Centro de Tratamento de Resíduos Sólidos de Queimados (Centres). “A contaminação na Baixada Fluminense vem por todos os lados: solo, água e ar”, lamentou. Moreira apresentou, também, a razão de taxa de internações por leucemias em adultos registradas nos municípios da Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, de 2006 a 2014. Duque de Caxias apresenta elevada taxa, tanto em homens quanto em mulheres.

Segundo o pesquisador, o benzeno é a principal substância associada a leucemia no municípios que apresentam taxas muito elevadas de internação. O benzeno é um composto comprovadamente cancerígeno para humanos, classificado como Grupo 1 da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde desde 1979, com base em evidências suficientes de que causa leucemia. A exposição ao benzeno, por suas características toxicológicas, levam a alterações hematológicas e neurológicas, como dores de cabeça, náuseas, irritação das mucosas respiratórias e oculares, danos no sistema nervoso, irritação do sistema nervoso central, irritação da pele. Esses sinais e sintomas são chamados de benzenismo.

O benzeno ocupa a 5ª posição na lista da OMS das substâncias mais preocupantes (ao todos são 20 substâncias). Além disso, o benzeno é matéria prima para muitos produtos, como por exemplo, aditivo de gasolina. Josino explicou em seguida a avaliação de polimorfismos enzimático.

Resultados apontam contaminação humana e ambiental

A pesquisa teve por objetivo caracterizar a população em estudo; determinar as concentrações de benzeno, nicotina e metais no ar e em alimentos colhidos na região estudada; determinar a concentração de biomarcadores de dose interna, de efeitos precoces, citogenéticos e de suscetibilidade para os agentes tóxicos deste estudo; determinar os efeitos adicionais do tabagismo; além de estudar os polimorfismos enzimáticos na população estudada; investigar as possíveis correlações entre os dados oriundos dos questionários e os resultados analíticos; elaborar um banco de dados com todos os resultados; orientar os participantes sob maior risco de adoecimento e encaminhar aqueles já comprovadamente impactados para a assistência médica competente; e, por fim, elaborar material informativo.

Dos objetivos da pesquisa, os já concluídos foram: a caracterização da população em estudo; a determinação da concentração do ácido fenilmercaptúrico urinário nos indivíduos do estudo; a realização dos hemogramas e avaliação dos parâmetros hematológicos; a análise dos polimorfismos dos genes CYP2E1 e NQO1 como indicadores de susceptibilidade genética neste grupo populacional; a investigação de possíveis correlações entre os níveis do o S-PMA e os indicadores de susceptibilidade individual genética; e a investigação das possíveis correlações entre os dados oriundos dos questionários, como idade, ocupação, sexo e hábitos de vida, e os resultados analíticos obtidos.

O estudo analisou 450 moradores da região. O perfil da população é predominantemente feminino (55%) com idade média de 55 anos. 64% são desempregados ou aposentados, e possuem renda familiar inferior a R$1760,00 reais. Em média residem quatro moradores por residência e não há fornecimento de água. Há apenas um estabelecimento público de saúde na região. Dos entrevistados, 69% consomem álcool de forma ocasional ou em eventos e festas e 91% são não fumantes e 54% fumantes passivos. Com relação ao perfil da população sobre a percepção de poluição na cidade, 98% afirmaram que existia poluição na região e 79% afirmaram que já sentiu ou sente algum mal estar relacionado a odor desagradável presente no ambiente.

No âmbito das análises de amostras biológicas, 33% apresentaram alterações características de algumas patologias, sendo a maior taxa de anemia. Os resultados da pesquisam apontam para a situação de precariedade dos indivíduos residentes da região, com indicação de alterações hematológicas, relacionadas à ocorrência de exposição ao benzeno.

Imagem: Reprodução Portal Ensp.

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