“2019 será sinônimo de luta e resistência”

Em entrevista, Kelli Mafort da direção nacional do MST, fala sobre o ano que chega ao fim e analisa as projeções para o próximo período

Por Maura Siva, da Página do MST 

O ano termina tendo como marca o avanço da extrema direita, simbolizado dentre outras coisas pela vitória de Jair Bolsonaro nas urnas, mas 2018 também foi marcado pela resistência e pela luta dos movimentos populares, em especial o MST. Para falar sobre o esse cenário e analisar as projeções para o próximo período conversamos com Kelli Mafort, da direção nacional do MST.

Para ela: “em 2018 ficaram evidentes as consequências do golpe. Isso pôde ser visto no sucateamento do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), nos cortes orçamentários de política públicas importantes como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e no recuo de algumas prefeituras diante da legislação do Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar), que garante que 30% da alimentação escolar seja advinda da agricultura familiar.  Já em nossos acampamentos o corte foi ainda mais violento, não só do ponto de vista de obtenção de áreas, mas também de todo o rito de desapropriação, que envolve, por exemplo, a vistoria de terra, cadastramento de famílias e mapeamento de áreas. Apesar dessas condições tão adversas, resistimos”.

Acompanhe a entrevista na íntegra:  

2018 termina como um dos anos mais violentos no campo. A criminalização das lutas, o número de prisões, ameaças e assassinatos aumentou consideravelmente. Diante disso, o que esperar para 2019 e como nos preparar para esse recrudescimento?

Sim, foi um ano muito violento na luta pela terra e pela Reforma Agrária. Além dos assassinatos – 10 contabilizados somente nesse período – nós enfrentamos despejos, reintegrações de posse, prisões políticas de pelo menos 15 pessoas e muitos processos na tentativa de criminalização. Esse cenário revela um recrudescimento das forças conservadoras, dessa nova direita com característica neofascista, que avança contra a classe trabalhadora. Além disso, diante da vitória presidencial de Jair Bolsonaro nós tememos um processo no aumento da criminalização que pode ser operado tanto pelo estado, classificando os movimentos populares como grupos terroristas, quanto pelo aparato jurídico que já é historicamente usado contra o Movimento Sem Terra. Logo, nós podemos afirmar que, ao incitar a violência contra o MST, Bolsonaro não só aperta o gatilho como também pode ser considerado o mandante de qualquer ação de violência contra os trabalhadores Sem Terra.

O corte orçamentário em 2018 foi enorme; vimos o definhamento de programas e até mesmo o fim de muito projetos. Ao que parece, ano que vem não será diferente. Como se reinventar diante da falta de investimentos no campo?

Em relação à Reforma Agrária, em 2018 ficaram evidentes as consequências do golpe. Isso pôde ser visto no sucateamento do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), nos cortes orçamentários de política públicas importantes como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e no recuo de algumas prefeituras diante da legislação do Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar) que garante que 30% da alimentação escolar seja advinda da agricultura familiar.  Já em nossos acampamentos o corte foi ainda mais violento, não só do ponto de vista de obtenção de áreas, mas também de todo o rito de desapropriação, que envolve, por exemplo, a vistoria de terra, cadastramento de famílias e mapeamento de áreas.

Apesar dessas condições tão adversas, resistimos. E essa resistência pode ser traduzida em alguns números: só em 2018 nos assentamentos de Reforma Agrária nós produzimos três milhões de litros de leite por dia, somos o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, também produzimos 63 toneladas de feijão, 43 de café, realizamos mais de 10 feiras estaduais, além da feira nacional que já vai para o quarto ano. Não podemos deixar de citar também as lojas do Armazém do Campo que é um espaço importante de comercialização e diálogo com a sociedade. Isso mostra a resistência da produção Sem Terra: mesmo com todos os cortes essa continua sendo uma política fundamental de geração de renda e alimentos.

Embora tenha sido um ano difícil, também foi um ano de muitas conquistas para o MST, na sua opinião, qual a de maior destaque?

Em janeiro o MST completa 35 anos de existência. Diante disso, nós podemos dizer que, ao longo dessa trajetória de histórica luta pela terra, a educação foi uma de nossas principais bandeiras. Nós sempre acreditamos na educação como forma de romper as cercas do saber. Em 2018 nós tivemos o prazer de formar sete turmas de graduação nos cursos de direito, história, serviço social, veterinária, agronomia e pedagogia. Além disso, 61 turmas estão andamento. Também em 2018, 25 mil pessoas foram alfabetizadas através do programa ‘Sim, eu posso!’, e comemoramos 20 anos do Pronera (Programa Nacional de Educação da Reforma Agrária). Foram 187 mil pessoas atendidas diretamente por essa importante política educacional nessas duas décadas. A formação política é sem dúvida a grande conquista do MST, uma conquista que se multiplica cada vez mais.

Esse também foi um ano em que o MST participou ativamente de todas as lutas sociais empreendidas no país, passando pelas mobilizações pelo Lula Livre – desde o dia 7 de abril mantivemos cerca de 200 pessoas ligadas ao MST na Vigília Lula Livre em Curitiba e lá ficaremos até a sua libertação -, realizamos uma grande marcha que chegou a contar com 50 mil pessoas ao final de cinco dias de caminhada, participamos de uma greve de fome, foram 27 dias com sete companheiros ligados  ao campo popular mobilizados em pressionar o STF (Superior Tribunal Federal). No campo da comunicação seguimos com as edições impressas do jornal Brasil de Fato, que é uma importante ferramenta de diálogo com a sociedade. Só esse ano foram 12 milhões de exemplares distribuídos em todo país. Então, apesar da adversidade nós avançamos muito no processo organizativo e formativo. Por isso, 2019 será sinônimo de luta e resistência.

Para as mulheres, em especial, esse também foi um ano de reafirmação. O que podemos esperar das mulheres do MST no próximo período?

Em 2018 as mulheres demonstraram força, resistência e ousadia. Do ponto de vista das organizações do campo, nós pautamos o tema das empresas transnacionais. Focamos também na questão da apropriação da água, denunciando empresas como a Coca Cola e a Nestlé. Durante a campanha política as mulheres, organizadas entorno do ‘Ele Não’, fizeram uma das maiores mobilizações da última década. Nesse bojo, é importante ressaltar que a luta das mulheres é uma luta pela própria vida. Existe um aumento generalizado nos índices de violência em todo país, e essa violência atinge principalmente as mulheres e os sujeitos LGBTs. Não por acaso, somos o país que mais mata transexuais no mundo. Por isso, as mulheres vão chegar com força em 2019. Nós presenciamos uma campanha machista, racista, misógina e lgbtfóbica, agora é a hora dessas forças se unirem contra tudo o que nos ameaça.

Você pode deixar uma mensagem para os acampamentos e assentados?

A mensagem que eu deixo é o foco na resistência ativa. Essa formulação feita no último período deve ser incorporada por toda a nossa base social. Isso significa que nós vamos continuar a fazer o que aprendemos, que é resistir mesmo em condições adversas. É importante olhar para nossa trajetória e ver que nós já passamos por períodos difíceis em que resistimos e crescemos. O MST é um dos maiores movimentos populares da América Latina, somos articulados nacionalmente e internacionalmente. Somos organizados e vamos juntos superar as adversidades. Para isso, é importante nos atentarmos a três tarefas básicas: o trabalho de base, a formação política e também o fortalecimento das lutas, sejam elas no campo e na cidade. A luta, seja ela qual for, faz parte de nossa existência e resistência, e o MST estará presente em todas elas.

Foto: Kelli Mafort, direção nacional do MST 

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