Diário: a primeira tarde de protesto na era Bolsonaro

O ato do MPL contra o aumento dos ônibus, em SP, visto por dentro. Perfil dos dez mil manifestantes. Os métodos horizontais. O Vermelho e o Negro. A tática policial para isolar o protesto e a resposta

Por Gavin Adams, em Outras Palavras

10 de Janeiro: Saí da estação Sé do metrô, no centro de São Paulo, às 17h30 para alcançar a primeira manifestação do Movimento Passe Livre contra o aumento da tarifa, em frente ao Teatro Municipal. A passagem aumentou acima da inflação e provocou o que parece ser o primeiro grande ato de protesto da Era Bolsonaro.

A Sé estava quente e cheia: pregadores, população de rua, transeuntes, trabalhadores e turistas. Quando avançava acalorado pela rua Direita, ouvi pelo menos duas pessoas da rua que falavam muito alto, gesticulando. Vi viaturas e PMs na Praça do Patriarca, e a Guarda Civil Metropolitana (GCM) em frente á Prefeitura, gradeada. Ao longo do Viaduto do Chá e na frente do shopping Light havia mais viaturas e soldados da polícia.

O MPL frequentemente atrai muita repressão policial. Já acompanhei passeatas onde vastas operações de guerra foram montadas para exercer extrema violência. Não estava claro hoje se já entramos na era da tipificação do protesto como terrorismo, ou se os aprendizes de ditador Doria e Covas Jr iriam mostrar serviço batendo na garotada… Lembrei com desconforto que várias figuras de autoridade já liberaram a impunidade policial.

De longe, ainda no Chá, vi o agito. Notei que tinha muita bandeira vermelha, que não é sempre o caso com o MPL, onde os autonomistas e anarquistas tendem a predominar.

Cheguei no Teatro Municipal e reparei que a escadaria estava fechada com grades, e a GCM atrás. Vi quatro soldados da guarda com seu novo uniforme, que é de selva, bizarro para uma guarda civil urbana. Amigos depois batizaram-nos de “polícia ambiental”.

Encontrei a amiga G e conversamos. Falamos da situação geral da economia e de nosso campo de trabalho, um desastre. Demos um giro pela multidão e anotei as bandeiras que vi: Combate Sindical, FOB (anarquista), UPES (estudantes), UJS (União da Juventude Socialista), uma LGBT, UEE (estudantes), POR4 (Partido Operário Revolucionário 4a Internacional), PSTU, PCB, Liberdade e Luta, a Juventude do PT, UJM, LSR.

O companheiro E, que logo encontramos, disse que o MTST tinha lançado uma chamada de apoio, mas não compareceu com militantes. O PSOL está sempre na rua, mas desta vez não vimos bandeira deles – só uma camiseta depois.

Avaliei que umas 2 mil pessoas estavam lá. Achei ok, mas esperava mais. No final, quando saímos em passeata, chegou a umas 6 a 10 mil. Avaliar o número de pessoas é sempre difícil e envolve adivinhação, já que as concentrações de corpos variam no espaço. No jogral final, a organização falou em 20 mil pessoas, o que achei um pouco excessivo. Mas julguei enorme sucesso ter juntado perto de 10 mil pessoas na primeira manifestação. Essa jornada pode ser muito boa

Tanto para o governo quanto para os movimentos, a possibilidade de um novo 2013 deixa tudo muito incerto.

No meio do povo vi a Fanfarra Clandestina, com seus metais e percussão. É sempre muito legal poder caminhar juntos pela cidade junto a um coração sonoro. Não havia carro de som, o que é muito bom, já que esse tipo de estrutura esmaga os manifestantes e faz púlpito para a direção.

Achei que tinha um bom equilíbrio de moços e moças, meio a meio. Achei que a maioria era de jovens ao redor de 25, além de um contingente ao redor dos 40.

Encontrei O, R, S, E e N. Conversei com O um pouco, e ele disse que não iria seguir com a passeata, pois ia “à delegacia fazer um BO. Te vejo lá então!”, brincou.

Caminhamos um pouco mais e vi as faixas do MPL, ainda no chão: “4.30 não” e “Por uma vida sem catracas”. Cumprimentei A, o fotógrafo R, a fotógrafa A. Tinha um numeroso contingente de trabalhadores da imprensa.

Às 18:15, teve um agito e um bololô de gente em movimento. Seguimos para perto dos policiais em frente ao shopping Light. Perguntei o que tinha acontecido e me falaram que uma moça tinha sido detida por ter o rosto coberto. Escudeiros formaram uma área de contenção, empurrando as pessoas. Fiquei muito tenso, pois ainda não tinha conseguido ler o grau de agressividade da PM.

Cobrir o rosto não é crime, mas a polícia não gosta. Apesar de repetidamente não garantir a identificação individual de todo o soldado na farda, o que é uma flagrante e contumaz contravenção, a PM se sente à vontade para impedir a cobertura do rosto de manifestante.

Voltamos para a frente do Municipal e vi os estandartes do AFRONTE, do PCB, da Unidade Classista e do RUA. Vi as faixas “Chega de aumento. AFRONTE os retrocessos”, “Doria pornô, não aumenta o metrô!” e “Os trabalhadores pagam e os empresários lucram. Abaixo os reajustes”.

Encontrei E e N, e perguntei qual era a disposição da polícia. Ela disse que a previsão era de ser ok, e que o destino final era a praça do Ciclista. Fiquei mais calmo.

Anotei os cartazes “Chega de tarifa”, “Salário diminui e o salário diminui” e “Ele não, 4,30 também não”.

Notamos a presença de 4 policiais com aventais azuis, escrito “mediador”. São eles que negociam com o movimento, por parte da polícia. Três moças faziam o contato por parte do MPL.

Chegou a hora do jogral. Esse é um momento potente, onde se faz silêncio e, sentados, fazemos a nossa voz ecoar pelas avenidas centrais da cidade. Aqui se faz muito evidente o contraste com o carro de som. Tem sim uma fala geradora, mas a repetição pela multidão traz a possibilidade de intervenção no discurso, e acaba por perfazer uma espécie de contratão coletivo feito na hora, uma assembleia literalmente horizontal, o que o carro de som impede.

Passou A e me cumprimentou. Vi o fotógrafo A e trocamos um aperto de mão.

“Vamos para as ruas, vamos espalhar a luta pelas ruas da cidade. Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar”, entoamos em jogral.

Saímos pelo Viaduto do Chá em passeata às 18:45h, ao som de palavras de ordem:

“Se você paga, não deveria, pois transporte não é mercadoria”

“Mãos ao alto, 4,30 é um assalto!”

“Vem, vem, vem pra rua vem, contra o aumento!”

“Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar. Se o povo se unir, a tarifa vai cair, vai cair, vai cair”

“Ei Dória, vai tomar no cu”

Esta última palavra de ordem tem uma contrachamada, também do movimento, que corrige:

“Ei Dória, vai tomar polícia, pois no cu, eu garanto, é uma delícia!”

Vi os cartazes “Não ao corte do busão”, “Bolsodoria quer roubar o povo”, “Chega de tarifa” e “Ele não, 4,30 também não!”. Vi duas camisas do Corinthians, outra “Lute como uma garota”, “Voto Nulo”, “Estudantes contra o fascismo”, uma do Território Livre, e uma de futebol “Carlos Marighella 1969”.

Antes de pararmos em frente à Prefeitura, notei uma menina de uns 8 anos que cantava na calçada, com seu pai, também de chapéu de couro. Ela entoava emocionada balada brega.

Fizemos outro jogral na frente da Prefeitura: “Lançamos um desafio àqueles que se escondem atrás de seus carros de luxo, o de tomar ônibus na periferia durante uma semana. Não vamos recuar, vamos fazer este movimento crescer”. O povo:

“Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar!”

“Tarifa zero quando? Tarifa zero já!”

Quando nos levantamos para seguir em frente, um impasse: a PM bloqueava o acesso à Praça do Patriarca. Achei meio bizarro, mas acabei por entender assim: O MPL insiste no direito à manifestação e não aceita ter que ter seu trajeto aprovado de antemão. A PM insiste em saber o trajeto antes. Assim, pelo que eu pude calcular, o MPL declarou o ponto de chegada – a Praça do Ciclista, mas não o trajeto exato.

Parte do ponto em ter tantos policiais acompanhando a passeata – uns 300 – não é apenas conter o movimento, mas também isolá-lo, impedindo que as pessoas se juntem aos manifestantes. Uma ou duas colunas de PMs caminharam por todo o trajeto ao nosso lado, ora só de um lado, ora dos dois. Um grupo do Choque, de uns 12 soldados, vinha mais atrás.

Acho que a estratégia dos jovens corpos do MPL é andar muito e improvisar percursos. Isso esgarça a vantagem tática territorial da PM e exaure os soldados, fardados, empunhando escudos e por vezes de rosto coberto por gorros de lã. Eu mesmo, com meus 50 anos abrasados pela tarde quente, pedia socorro quando ainda estávamos no Paissandu.

Assim, a polícia fez uma barreira para produzir um gargalo por onde tivemos que nos espremer. Isso traz as pessoas muito perto dos escudos, o que aumenta a tensão dos dois lados.

A passeata foi passando aos poucos, e acabou por cruzar a Patriarca e dobrar à esquerda na São Bento, em direção à estação de mesmo nome.

Nova barreira e impasse no Largo do Café. O povo cantava “Deixa passar, a revolta popular!” e “Você aí fardado, também é explorado!”. Notei que um senhor, no meio da multidão, trazia um hamster na mão. Ele sorria bastante. Foi muito fotografado. Acabamos por descer pela frente do Martinelli até a Líbero Badaró e ganhamos o Anhangabaú. Notei que os PMs traziam duas garrafinhas de água cada um, que prendiam a seus escudos.

Avançamos até a avenida São João onde ela quase encontra o Largo do Paissandu. Esperamos todo mundo chegar e ganhamos o Largo, passando pela frente da Galeria do Rock.

Notei a faixa “Ele não, 4,30 também não. JUNTOS”, uma bandeira vermelha e negra dos anarquistas, uma camisa do Juventus. Uma mulher, de bandeira do Brasil nos ombros, gritava para os policiais: “A luta é de todos, é também sua. Mas você não gosta de mim!”.

Um camelô tirava uma selfie onde aparecia um grupo de jovens anarquistas ao fundo. Uma moça autonomista percebeu e foi abraçá-lo, saindo no primeiro plano da foto!

Eram 19:45h e deixávamos o Paissandu, subindo em direção à avenida Ipiranga. Escurecia, mas o calor não baixava, apesar da fina garoa que ensaiou cair. Era belo.

Notei que uma linha de Black Blocks se destacara e formava uma coluna uns 10 metros à frente da faixa de abertura do ato.

Achei que isso podia indicar que haveria confronto, e vi gente do MPL falando com eles. R confirmou que havia um tenso diálogo entre eles, mas R disse que era assim mesmo e que era apenas mais uma “reunião ambulante” entre as duas partes, e que não havia desacordo entre eles. De fato, não houve repressão ou violência hoje.

O povo entoava:

“Só vai mudar quando o povo controlar”

“Poder para o povo, poder do povo, para fazer um mundo novo”

“Ei, burguês, a culpa é de vocês!”

“Trabalhadora, trabalhador, me diz aí se seu salário aumentou” – que só rima no falar brasileiro.

Vi um cartaz “Mais motorista, menos patrão: 4,30 não!”, outro “Nem privado nem estatal, cooperado”. Vi uma camiseta “Bancada Ativista”, outra da “Democracia Corinthiana” e um adesivo “4,30 é fogo”. Vi um moço do serviço de primeiros socorros, o GAPP.

Passamos pela Praça da República e G pegou o metrô. Seguimos até entrar na Consolação e alcançamos a Maria Antônia. Mais polícia lá também.

Ao subirmos a avenida, parei e fiquei em cima de um canteiro central para observar toda a passeata. Vi esta passar, de cabo a rabo, e calculei as quase 10 mil pessoas. Confirmei a presença dos blocos vermelho (partidos e facções marxistas ou socialistas) e o negro (autonomistas e anarquistas), meio separados na passeata.

Vi uma faixa “Lutaremos a luta daqueles que se foram. Atitude Punk”, uma bandeira da ANEL, mais bandeiras negras, várias negras e vermelhas da Ação Antifascista de São Paulo, uma camiseta do MTST, a faixa “Bolsonaro quer roubar você. Rede Emancipa”, outra “Que as centrais [sindicais] organizem a luta contra a tarifa e a reforma da Previdência. Esquerda Diário, MRT, Nossa Classe”, outra ainda “Meninas pulam a catraca, meninos também pulam. 4,30 nem a pau. Juventude Socialista PDT”, e mais “Povo na rua contra o fascismo. PCdoB, UJC”. Vi um guarda-chuva colorido LGBT.

Em frente a Universidade Mackenzie, o povo gritou:

“Mackenzie, fascista” e “A verdade é dura, o Mackenzie apoiou a ditadura”. Ainda: “Ai, aiaiai, aiaiaiaiaiaiiai, 4,30 é o carai!”.

Na esquina do Cemitério da Consolação, alguém jogou um petardo que detonou atrás da coluna de policiais. Depois do susto, nenhuma reação e o povo seguiu. A Fanfarra atacou de “Tequila”.

Uns 50 motoqueiros da ROCAM guardavam as entradas da estação do metrô. Uns outros 20 deles guardavam a enorme fachada de vidro iluminada de uma concessionária de carros. Brilhava muito, de frente para a via escura.

Chegamos à altura da Igreja Universal e paramos de frente aos policiais que tinham se reorganizado em bloqueio, impedindo o acesso à Praça do Ciclista.

O povo parou e ficamos no impasse. A PM não ia permitir o acesso à praça. A única saída era a travessa Fernando de Albuquerque, que dá acesso à Bela Cintra. O povo entoava “Ocupa tudo!”, “Deixa passar a revolta popular!”, e tensionou apenas moderadamente a barreira.

Fizemos um jogral e o ato foi encerrado. Uma nova passeata ficou marcada para o dia 16, quarta-feira, na praça do Ciclista. O eco naquele lugar era emocionante. “Mostraremos que somos fortes, e seguiremos em frente até a redução da tarifa”.

A multidão começou a dispersar. Fiquei mais um pouco, agora umas 21h. Uma mulher que não era da manifestação queria passar pelo bloqueio e discutia muito com a PM. Juntou um povo e pressionaram até que ela passou, sob aplausos da galera. Enquanto isso, um homem alto, vestido de camiseta com a foice e martelo, segurava um jornal e uma garrafa de vidro. A companheira A disse a ele que jogasse fora a garrafa, e ele se embaraçou, disse qualquer cosa e saiu fora: era um P2.

Fomos tomar uma e aliviar o calor num boteco próximo. Chegaram vários outros fotógrafos. No balcão do lugar, um figura bojudo de cabeça raspada segurava o livro de Olavo de Carvalho, “Coisas que você precisa saber para não ser um idiota”. Ele afirmava algo sobre ser nacionalista, mas um moço perto dele falou alto “nacionalista é a esquerda, e não um idiota que se abre para os americanos”. O figura não disse nada, contrariado, mas arengou dois PMs que chegaram depois.

Escrevi um pouco, peguei o metrô e fui para casa.

Foto: Alice Vergueiro

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