Celebração faz memória aos 14 anos do assassinato de Dorothy

Bispo do Xingu pediu que a comunidade local não tenha medo e se inspire na vida da agente pastoral

Por Mário Manzi, em CPT Nacional

As ruas de Anapu falam. A mata fala. Os povos da floresta falam. Os ventos assoviam o nome de Dorothy. Esses ventos alvissareiros carregam o nome da missionária que, de tempos em tempos cai nos ouvidos dos passantes e daqueles que nessa terra fazem morada. Do-ro-thy, ou Doti. As irmãs de Notre Dame de Namur, parceiras de Stang, mantém os trabalhos pastorais na região. Muitas vezes são elas chamadas de Dorothy. Ou Doti. O nome não cabe mais na figura de cabelos brancos que chegou à região ainda na década de 1970, contemporânea à construção da rodovia Transamazônica. Dorothy transborda, tornou-se símbolo da luta fundiária e da luta pelas matas. Ela está presente na voz das camponesas e dos camponeses, das autoridades e dos inimigos do povo, aqueles que a mataram, e que seguem temendo o nome da missionária.

Celebração

Reunidos em memória aos 14 anos de assassinato da agente pastoral Dorothy Stang, centenas de pessoas participaram da celebração de crisma da Comunidade de Anapu nesta terça-feira, 12. Os pés, ternos, pisaram o solo do Centro São Rafael e se reuniram no salão central. Ouvidos e olhos atentos aos relatos sobre a vida de Dorothy, camponesas e camponeses – que conquistaram a terra por meio da luta junto da missionária – assistiram a um trecho de uma entrevista de Dorothy. A voz baixa e grave descreveu em breves palavras a relação que Stang teve com a natureza desde a infância. “a terra tem que ser para sempre, por isso a gente tem que tratar a terra com carinho”.

“Aquele agradecimento, aquela gratidão, porque as pessoas boas elas têm essa força de evocar em nós, coisas boas, é nesse sentido que vamos dar início a nossa celebração de sufrágio e de Crisma, confirmando seu batismo, assumindo a missão cristã no mesmo dia em que essa grande cristã provou para nós que é possível viver o evangelho e levá-lo até as últimas consequências. A mártir Dorothy.” (Dom João Muniz)

Em seguida ao trecho da entrevista, a cerimônia religiosa foi iniciada. Dirigida pelo bispo do Xingu, Dom João Muniz, a celebração teve início com a marcante fala de uma das ministras da Eucaristia “nessa celebração vamos pedir outra vez a força e o sopro do espírito santo para sermos fiéis à nossa ação. Sem fraquejar. Sem ninguém soltar a mão de ninguém”.

A ideia de unidade seguiu recorrente também nas palavras de Dom João. Para ele a celebração se constituiu como um momento histórico. Ele lembrou que “os pobres são os nossos mestres” e que o cristão tem um “compromisso com os outros”.

No momento das preces, uma multiplicidade de pedidos soou em sincronia.

“Não corremos da luta. Não temos medo do embate!”

“Que as nossas orações quebrem as correntes de padre Amaro.”

“A igreja está sendo ameaçada de fiscalização. Todos nós lutamos, assim como Dorothy lutou. Para que nós não baixemos a cabeça perante as ameaças e os perigos desse governo que aí está. Para que ninguém baixe a cabeça e ninguém solte a mão de ninguém!”

“Pelos atingidos por barragem, Brumadinho, Mariana e Barcarena!”

“Por todos que lutam como Dorothy!”

“Feminicídio Não!”

Ao fim, Dom João ligou todas as falas em prece: “Ninguém é maior ou melhor do que os pequenos articulados na fé”. Coragem para o enfretamento também foi outro ponto abordado pelo bispo da Prelazia do Xingu. “Não tenhamos medo. O medo nos faz fugir e abandonar a luta. A nossa vida está nas mãos de Deus. Ele cuida de nós. Cuidemos, portanto, para que a nossa missão de cristãos seja profundamente marcada pelo compromisso uns com os outros, pelo compromisso com a realidade, que estejamos pisando no chão sem esquecer o próximo ao nosso lado. Que de pé no chão olhemos para o nosso irmão.”

Ao todo seis pessoas foram crismadas na celebração em memória a Dorothy. Entre elas, Dona Berenice, que tem por nome de batismo, Eronildes Alves da Costa. Para ela, a participação enquanto crismanda foi uma honra. Dona Berenice, que não chegou a conhecer Dorothy, explicou sobre sua relação com a memória presente da missionária “a gente leva uma tristeza porque ,como uma missionária de muita luta, ela deixou tanta conquista e a gente queria que ela fizesse mais, mas infelizmente foi interrompido. Temos e estamos tendo contato com a luta dela e o que representa é que a gente não pode desistir. A gente está com mão firme levando essa luta pela frente, porque essa luta é do povo. Por isso que a gente não vai desistir Ela é uma pessoa que está viva aqui no meio de nós, porque o pessoal a ama. Eu não a conheci, mas estou conhecendo e estou vivendo a história dela” finalizou emocionada.

Proveniente da comunidade de Nossa Senhora Aparecida da Água Preta, Nilzângela Amorim da Silva também foi crismada durante a cerimônia. Conforme explicou, não havia melhor data para a Crisma. “Foi emocionante. Todas essas palavras, todas essas pregações, a presença de várias comunidades. Esse dia que marca o falecimento dela não como tristeza, mas como força para cada um de nós. Para que continuemos a prosseguir o que ela vinha fazendo, que é lutar pelos oprimidos”.

Durante os avisos da comunidade, Antônia Melo, liderança do movimento Xingu Vivo, tomou a palavra em tom de alerta e união. “Hoje estamos assistindo o fim da floresta. Nós temos o compromisso e o dever de não deixar que isso aconteça. Somos nós. Dorothy está em uma outra vida, com certeza olhando e intercedendo por nós, mas ela quer que nós assumamos esse compromisso de amor e de luta pela vida, pela floresta, pelo meio ambiente”. Em seguida à fala, Melo convidou a todos os presentes, em nome do movimentos sociais de Altamira e dos povos do Xingu, a participarem de ato público, de manifestação em solidariedade às famílias das vítimas do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, bem como de manifesto contrário à instalação da mineradora Belo Sun na região do Xingu.

Irmã Telma Maria Coelho Barbosa também tomou a palavra para lembrar da questão racial e da ordenação de padre José Amaro Lopes, ocorrida no mesmo centro São Rafael. Impedido de comparecer à celebração devido às medidas restritivas impostas por habeas corpus a presença de Amaro também foi exercida em memória. Dirigindo-se aos crismando, irmã Telma pediu que a luta de Dorothy e Amaro seja “reflexo, sal e luz para os jovens daqui de Anapu. Que vocês, não somente hoje, sejam sempre a renovação do compromisso com a comunidade”.

Ao fim da celebração, Dom João convidou a todos que se reunissem ao redor do túmulo de irmã Dorothy, para que fossem prestadas homenagens. De mãos dadas, as centenas de presentes cantaram e rezaram. O momento foi acompanhado de uma salva de palmas.

Padre Paulo Joanil da Silva, conhecido como Padre Paulinho, da equipe da CPT de Belém, comentou a celebração. Nas palavras dele, o ato foi “revigorante”. “A profecia não acaba. Esse sonho é traduzido na esperança de um compromisso desse jovens e adultos que foram crismados. É muito embólico é muito bonito isso. O testemunho de Dorothy, o sangue dela derramado. Ela está plantada nesse lugar. Ela não só vai brotar, ela já brotou. Somos milhares de Dorothys. Nós celebramos esse memorial dos 14 anos da sua Páscoa, da sua ressurreição, na esperança de que a causa dela jamais morra”, enfatizou.

Andreia Barreto, Defensora Pública da Vara Agrária de Altamira também refletiu sobre a celebração “Dorothy representa um movimento de luta e de resistência de acesso à terra. tendo em vista todo o conflito hoje, todas as disputas hoje possessórias e sobre terras públicas, mas também uma disputa que envolve a floresta. A ideia de Dorothy não nasce em 2005, com a morte dela, mas muito antes. Este é um recorte para lembrar que ela permanece aqui”.

Na organização de toda a celebração e ao lado da irmã Jane Dwyer, a irmã Katia Webster contou um breve relato dos anos de convivência com Dorothy. Em meio às preocupações devido à recepção de todos os presentes Katia falou sobre os momentos de reflexão e saudade que marcaram os últimos 14 anos. “Porque a gente trabalha em dois níveis aqui, uma parte é de organizar o dia então a gente está muito engajada, mas aí tem momentos, quando a gente se distancia e olha quem está aqui, porque hoje havia jovens, que foram crismados, que nasceram e foram batizados em 2005, então eu olho para essas crianças, e penso no tempo que nós estamos sem Dorothy. O que estamos fazendo? Olho essa turma aqui. As pessoas que eram os pioneiros. Tinha alguns que estavam aqui hoje e que chegaram em 1972. A gente vive do dia-a-dia, mas de vez em quando bate uma saudade. De vez em quando bate uma tristeza, porque nós sentimos tanto a falta de Dorothy, quanto a de Amaro, que foi tirado daqui. Do jeito que foi feita toda essa prisão [de Amaro], as acusações falsas, toda a demora do processo, não era para ser desse jeito. Mas o que nos fortalece é o dia-a-dia, sabendo que o povo está engajado nas lutas, está engajado no trabalho, que não deixam de ter sonhos.”

Com preocupação, Irmã Katia também cita a provável nomeação para a Superintendência do Incra de Altamira, Silvério Fernandes. Ele pertence à família que está ligada aos madeireiros e fazendeiros da região. A família Fernandes foi acusada de envolvimento no consórcio que negociou a morte de Dorothy.

Dorothy foi executada com seis tiros no lote 55 do PDS Esperança, no dia 12 de fevereiro de 2005. Morta a mando de um consórcio de fazendeiros que reúne famílias acusadas de grilagem, a agente pastoral foi vítima da pistolagem que ocorre na região. Os mandantes, já julgados e condenados, são Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, e Regivaldo Pereira Galvão, conhecido como Taradão, que já foram colocados em liberdade.

O que são os PDS’s?

O Projeto de Desenvolvimento Sustentável propõe o assentamento de famílias em 20 alqueires de terra, dos quais 80% devem ser destinados à reserva legal, onde é possível explorar a floresta de maneira extrativista, sem derrubar árvores para retirada de madeira ou constituição de pasto. Os 20% são dispostos à roça, ao cultivo da plantação, que pode ser direcionada tanto para o consumo próprio, quanto para comercialização. Nestas áreas geralmente são cultivados cacau, banana, pimenta, arroz, abacaxi, entre outros alimentos.

A maior dificuldade enfrentada pelas famílias que se dedicam aos PDS’s está na ausência do poder público. Fazendeiros e madeireiros ameaçam as famílias assentadas e invariavelmente promovem invasões às áreas. Algumas famílias são forçadas a deixar seus lotes, que são, em seguida, ocupados ilegalmente e muitas das vezes comercializados.

Foto: Thomas Bauer

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