Saúde de raiz: encontro da Fiocruz debate sobre saúde e agroecologia

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O 1º Encontro de Diálogos e Convergências Saúde e Agroecologia, realizado pela Fiocruz, reuniu agricultores, indígenas, caiçaras e pesquisadores para discutir sobre o tema. Para a revista Radis, o vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, Marco Menezes, afirmou que “o que vemos é um cenário em que mais de 800 milhões de pessoas passam fome no mundo, e o Brasil voltando ao Mapa da Fome. A discussão da agroecologia é importante para pensar a questão da fome, da posse da terra, dos sistemas agroalimentares”.

Em parceria com a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e o Fórum de Comunidades Tradicionais Indígenas, Quilombolas e Caiçaras de Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba (FCT), o encontro, que aconteceu entre 21 e 24 de novembro de 2018 no Parque Nacional da Serra da Bocaina, em Paraty, litoral sul do Rio de Janeiro, reuniu 150 pessoas de diversas entidades, e procurou aproximar os campos da saúde e da agroecologia, em busca de modelos de desenvolvimento mais sustentável. A repórter da Radis, Lisiane Morosini, fez a cobertura do evento e produziu a matéria a seguir, onde relata depoimentos de trabalhadores que utilizam técnicas de agroecologia e mostram a importância de um projeto ecológico na promoção da saúde e interação com todo o ecossistema.

“Saúde de raiz. Encontro em Paraty reúne agricultores, indígenas, caiçaras e pesquisadores em discussão sobre saúde e agroecologia

É da terra onde mora há 40 anos que Valdevino Claudio dos Remédios tira o sustento da família. A apenas alguns passos da varanda de sua casa, ele tem à mão, além de alimentos e frutas, medicamentos naturais. Plantas medicinais como boldo, capim mil homens, cidreira e tantas outras crescem em harmonia com flores, árvores, arbustos e palmeiras de seu jardim. Esse espaço verde tão peculiar, localizado na comunidade de São Roque, em Paraty, no Rio de Janeiro, foi se moldando ao longo do tempo pela mão e pelo trabalho de Valdevino.

Primeiro, ele utilizou técnicas da agricultura tradicional e foi misturando as plantas. Aos poucos, introduziu novas espécies e diversificou o cultivo. Só muito tempo depois, quando recebeu uma consultoria de técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que nomeou o que estava fazendo. “Foi aí que eu descobri que o que eu fazia era chamado de agrofloresta”, conta à Radis. Hoje, em seu sítio, tem aipim, cana de açúcar, palmito, taioba, cupuaçu, feijão e muitas outras espécies que crescem à luz do sol e da agroecologia, totalmente orgânica. Ele relata ter comprovado, na prática, os benefícios de cultivar uma agrofloresta, um sistema ancestral de uso da terra sustentável, que combina espécies de sol e de sombra, e que é mantido em um terreno de 1,6 mil metros quadrados.

Saúde, ensina Valdevino, é ter vida. E o remédio que cura, garante, vem da terra e da mata. “Tem que tomar antes de a doença chegar. Tem que prevenir”, receita com sabedoria. “Lembro que antigamente o remédio vinha todo da mata. Quem tratava era parteira e benzedeira. Elas iam no mato, pegavam o remédio e faziam. A planta era saudável e a comida também. Não tinha tanta doença espalhada assim”, relata. Bastante conhecido na região onde mora, ele extrai saúde das folhas, das cascas e das raízes, aplicando os conhecimentos que aprendeu com a avó.

“Copaíba é bom para reumatismo e dor de dente, mas para fazer efeito não pode tirar o limo da árvore, só a casca”, ressalta. “Esta é a ciência”, explica Valdevino, que indica limão cravo com sal grosso como um ótimo anti-inflamatório, e picão para curar os males do fígado. As experimentações no terreno são constantes e delas nasceram “garrafadas”, misturas de plantas medicinais cuja receita ele não revela. “Eu sou o fazedor e o provador”. Pai de 11 filhos, ele conta, com orgulho, como os sustentou. “Tenho honra de ter criado meus filhos sem ter trabalhado para ninguém. Tudo o que eu tenho veio da agricultura”, revela animado durante uma visita ao sítio.

O relato de vida de Valdevino, mostrando a importância de um projeto ecológico na promoção da saúde e interação com todo o ecossistema, foi um dos depoimentos que pontuaram as vivências no território durante o 1º Encontro de Diálogos e Convergências Saúde e Agroecologia, que aconteceu entre 21 e 24 de novembro no Parque Nacional da Serra da Bocaina, em Paraty, litoral sul do Rio de Janeiro. Realizado pela Fiocruz, em parceria com a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e o Fórum de Comunidades Tradicionais Indígenas, Quilombolas e Caiçaras de Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba (FCT), o encontro reuniu 150 pessoas de diversas entidades, quando procurou aproximar os campos da saúde e da agroecologia, em busca de modelos de desenvolvimento mais sustentável. “O que vemos é um cenário em que mais de 800 milhões de pessoas passam fome no mundo, e o Brasil voltando ao Mapa da Fome. A discussão da agroecologia é importante para pensar a questão da fome, da posse da terra, dos sistemas agroalimentares”, afirmou o vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, Marco Menezes. Para ele, é fundamental construir “uma agenda coletiva entre saúde e agroecologia”, pensando nos territórios e nas demandas que eles apresentam.

MODELOS EM DISPUTA

Para Paulo Pettersen, da diretoria-executiva da ABA, há modelos de desenvolvimento em disputa. “A agroecologia propõe outro caminho. Nós temos que pensar em outras economias possíveis. A fórmula única não serve para um mundo tão diversificado como o de hoje”, defendeu. Para ele, a industrialização desconectou a agricultura da natureza, impondo um único modelo, independente do território, que desvincula a produção do consumo. A agroecologia, explicou Paulo, vai de encontro a essa proposta, propondo uma alternativa à lógica do agronegócio.

“Como o próprio nome diz, é um negócio, que tem uma lógica de funcionamento econômica-mercantil e que difere do que queremos. O sistema agroalimentar atual não produz comida de verdade, mas mercadorias, não tem solo saudável e não pode ter alimento saudável. Ele não produz saúde, mas doença e injustiça social”, afirmou o agrônomo. Paulo salientou que a agroecologia fala de alimento saudável e de comida de verdade no campo e na cidade. “Alimento não é só nutrição. Ele tem a ver com a identidade e a cultura dos povos”, defendeu, na entrevista que concedeu à Radis.

No Quilombo do Campinho da Independência, localizado no caminho entre Paraty e Trindade, onde foram realizadas todas as atividades do evento, o alimento reconecta o paladar dos visitantes com a história. As primeiras raízes do quilombo foram plantadas há mais de cem anos, mas o direito à propriedade das terras só veio em 1999. Hoje, ele é um importante ponto de cultura, de resgate da culinária dos antepassados e de resistência, além de local onde se gera emprego e renda. É lá que funciona o Restaurante do Campinho, que desde 2007 é uma referência quando o assunto é comida de raiz. Todo o alimento que chega às mesas é cultivado sem agrotóxicos, produção da agricultura familiar local.

O restaurante é administrado pela comunidade e, além da boa comida, fortalece a cultura alimentar quilombola e o protagonismo feminino. “Descobrimos que esse é um modo positivo para mantermos nossa cultura viva e ao mesmo tempo defender o nosso território”, disse Ninha, como é chamada a chef Cirlene Barreiro Martins, que comanda as panelas. Para Sinei Martins, presidente da Associação de Moradores do Quilombo do Campinho (Amoqc), o restaurante também favorece a agroecologia e a saúde, além de promover a fixação no território. “Nós acreditamos na luta pela agroecologia e é o que vivemos aqui”, pontuou. “Era só um sonho e com muita luta conseguimos que se tornasse realidade. Agradeço às mulheres que cozinharam e que começaram a história desse restaurante. E também às agricultoras e aos agricultores que colocam a mão na terra para que a gente tenha alimentos saudáveis”, completou.

AGROFLORESTA É MAIS

Do Acampamento José Lutzenberger, na Mata Atlântica, no Paraná, vem a certeza de que é possível implementar um outro modelo de produção de alimentos e preservação da biodiversidade. Célia cultiva hortaliças, diz que seu psicólogo é a mata e relembra os dias num bairro marcado pelas drogas. Valdineia conta como ela e os filhos nunca mais tomaram remédios. Luzinete recorda as lutas contra jagunços e fazendeiros. Hoelington fez curso técnico e compartilha o que aprendeu com a comunidade. Jonas, memória viva da comunidade, fala da satisfação de recuperar um olho d´água e a mata ciliar de um rio. Depoimentos como esses pontuam o vídeo “Agrofloresta é mais”, lançado em setembro e que trata de culturas agrícolas empregadas para restaurar florestas e áreas degradadas.

O vídeo faz parte da série Curta Agroecologia que, desde 2014, dá visibilidade às inúmeras experiências e projetos de diversas regiões do país que se voltam para a prática da agricultura sustentável e retrata experiências bem-sucedidas em agroecologia, além de denunciar situações de injustiça ambiental em diversos estados do Brasil. Nos documentários, é possível aprender a importância de preservar as águas e como cuidar delas, promover a produção de um alimento saudável, dar mais qualidade de vida para o agricultor familiar, aproximando o tema entre o campo e a cidade. Todo o trabalho é fruto de parceria entre a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), a Vídeo Saúde Distribuidora, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) e o Canal Saúde.

Os documentários da série Curta Agroecologia podem ser vistos no canal da VideoSaúde no YouTube.

TERRITÓRIO É SAÚDE

A reconexão com o território passa também pelo desenvolvimento de novas fontes de renda para a comunidade, defendeu Vagner do Nascimento, liderança do FCT. “Nós somos a cultura viva. Somos os guardiões desses territórios. Sem o território nada somos e nossas culturas morrem”, disse Vaguinho, como é conhecido, ressaltando a importância de atividades como o turismo de base comunitária, iniciativas de agroecologia e agroflorestas, protagonizadas por moradores das comunidades locais. “Essas e muitas outras ações promovem o diálogo entre as comunidades e são uma resistência às ameaças que vêm de fora”, observou. Segundo ele, especulação imobiliária, privatização dos territórios, turismo desordenado, avanço de grandes empreendimentos e precariedade de serviços essenciais como educação, saúde, lazer e energia elétrica têm impedido que os povos originários tenham uma relação mais próxima com o ecossistema.

Vagner é também coordenador do Observatório de Territórios Saudáveis da Bocaina (OTSS), um centro de referência para o debate e o desenvolvimento de soluções estratégias para o território (Radis 157). A área vai do litoral sul do estado do Rio de Janeiro ao litoral norte do estado de São Paulo e ali estão espalhadas inúmeras iniciativas que ligam a promoção da saúde à agroecologia. A atuação do observatório no território articula o conhecimento acadêmico e saber tradicional, promovendo o desenvolvimento sustentável e a saúde.

Durante o evento, os participantes visitaram iniciativas de produção agroecológicos em comunidades tradicionais indígenas, caiçaras e quilombolas, em áreas de agricultura familiar e camponesa, e de turismo de base comunitária. Além do sítio de seu Valdevino, conheceram também farmácias vivas na Unidade Básica de Saúde do bairro do Pantanal, em Paraty, e espaços locais para formulação de ervas medicinais tradicionais. Viram, ainda, como funciona o sistema de tratamento ecológico de esgoto na Praia do Sono, uma obra sustentável de saneamento que melhora a qualidade de vida dos moradores e não contamina o lençol freático.

As visitas permitiram que os participantes exercitassem um olhar mais ampliado sobre as múltiplas convergências entre saúde e agroecologia e percebessem a relevância de temas como soberania alimentar, economia solidária, participação feminina e produção camponesa para a promoção da saúde. Fernando Carneiro, do GT Saúde e Ambiente da Abrasco e pesquisador da Fiocruz Ceará, ressaltou a importância dessa aproximação com o território. “Um evento muito coerente, com participação efetiva do território na organização. A comida foi produzida pelo quilombo, a hospedagem foi em pousadas ligadas ao turismo comunitário. A discussão, a partir de uma perspectiva crítica e emancipatória, afirmou a agroecologia como uma potente estratégia de geração de saúde”, declarou.

A saúde como fruto da ligação entre o homem e o território foi lembrada por Julio Karai, da Aldeia Sapucaia. Para os indígenas, ele destacou, a saúde está ligada à liberdade de conviver com natureza e vinculada ao território. “A saúde coletiva envolve o espaço, a terra. Precisamos viver em um ambiente saudável para ter saúde”, observou. A aldeia de Júlio fica em Bracuí, município de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, uma área muito cobiçada pelo mercado, e que sofre enorme pressão de empreendimentos imobiliários. “Nossa luta agora é para garantir o nosso território. Nos locais onde não há demarcação de terra, não podemos pescar e caçar. Isso, para nós, é a nossa saúde. Sem território, não conseguimos passar conhecimento para os jovens, velhos, crianças. Só na terra é que eles podem ter saúde e sabedoria para passar tudo isso para seus filhos”, observou.

LADOS OPOSTOS

De um lado, saúde e qualidade de vida; do outro, produção de doença e prejuízos aos ecossistemas. É assim que o engenheiro agrônomo Dennis Monteiro avalia a produção de alimentos no Brasil. Secretário executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), formada por movimentos sociais, organizações e redes da sociedade civil que estão engajadas na promoção da agroecologia, Dennis defendeu que é preciso transformar o sistema agroalimentar. “Essa é uma tarefa urgente”, disse à Radis, em um raro momento de parada no encontro realizado em Paraty. Segundo ele, a tarefa requer muito fôlego já que, do outro lado, estão grandes empresas que vendem agrotóxicos e que detêm faturamentos anuais que chegam à cifra de R$ 10 bilhões. “Os números mostram porque essas empresas não querem uma política nacional de redução do agrotóxico”, salientou.

O lucro fica com as empresas, mas os impactos e o prejuízo acabam caindo na conta de toda a sociedade, apontou o ativista. Segundo Dennis, a venda de agrotóxicos gera um custo muito alto para o sistema de saúde e provoca a perda de muitas vidas. Ele observou, no entanto, que já há um movimento de consumidores que buscam alimentos saudáveis e com mais qualidade para consumo próprio. “Notamos que há um interesse crescente da população na melhoria da alimentação. Não é à toa que nos últimos anos vimos crescer em todo o país as cooperativas e redes de compra coletivas, e as Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSAs), só para citar alguns exemplos”, salientou.

Ele explicou que a ANA é uma articulação de experiências. “Valorizamos a participação dos movimentos de base”, disse. Segundo Dennis, um dos objetivos da ANA é fortalecer a agroecologia, apoiando intercâmbios de iniciativas como as que acontecem em Paraty. Segundo Dennis, diferentemente do agronegócio, a agroecologia vai além da produção de alimentos (leia mais sobre o assunto na Radis 190). “A agroecologia mostra quem são e como vivem as populações do campo, das águas e das florestas e o seu modo de produção. Revela toda a enorme diversidade dos povos no meio rural brasileiro, respeitando os ciclos da natureza e valorizando a biodiversidade e a cultura local”, afirmou.

Dennis lembrou ainda que a crise ambiental, de proporções gigantescas, afeta diretamente a população do campo e da cidade. “Questões como a sustentabilidade do ambiente, a preservação da água, o alimento saudável, o respeito e valorização de modos de vida e de culturas são parte da agroecologia. O futuro da alimentação estará comprometido se não tivermos pessoas que saibam produzir, que conheçam o território, suas plantas e animais”, alertou.”

Imagem: Reprodução da Revista Radis

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