Pelo direito de viver: primeira deputada negra trans toma posse em São Paulo

Nascida em Pernambuco e vivendo em SP há 16 anos, a educadora Erica Malunguinho recebeu 55.423 votos nas eleições de 2018

Por Iris Pacheco*, na Página do MST

“Este não é um dia comum. Os livros no futuro irão documentar sobre a importância histórica deste dia 15 de março de 2019 para toda a comunidade negra de São Paulo e país afora”. É com essa afirmação que Erica Malunguinho assumiu sua ‘mandata quilombo’, junto a ativistas, militantes do movimento negro. A parlamentar chegou na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) acompanhada de um cortejo do bloco afro-afirmativo Ilu Inã, em um gesto simbólico de “reintegração de posse”.

Diante de 500 anos de dominação, de genocídio e epistemicídio da população negra no Brasil, ocupar a política institucional pelo direito de viver, com uma perspectiva de questionar o atual sistema político para torná-lo mais inclusivo, sobretudo por setores da sociedade que historicamente estão distanciadas do poder, é que se constrói seu mandato popular, é que se faz a “reintegração de posse”. Esse ato aponta que a população negra não mais aceitará mediações ou intervenções que falem por ela.

Malunguinho destaca-se, entre as/os 94 parlamentares que assumiram a cadeira pelos próximos quatro anos. Pernambucana, eleita deputada estadual pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), é a primeira mulher negra trans a ser empossada, em 185 anos da Casa. Criadora da Aparelha Luzia, um quilombo urbano, espaço para fomentar produções artísticas e intelectuais na capital paulista, com certeza é uma das expressões mais marcantes da resistência negra na capital.

Em novembro de 2018, Érica Malunguinho foi entrevistada para o site do MST, e comentou sobre a forma como essa resistência se apresenta, não somente em sua trajetória de vida, que está conectada a construção de sua negritude e identidade de gênero, mas também em outros corpos negros vivos que cotidianamente sofrem as violações sistemáticas dessa sociedade racista, homofóbica e machista que vivemos.

“A resistência é o corpo negro vivo e o desafio deste corpo negro é fazer com que ele volte para si. Sempre lembrando que a luta negra fala de si, mas é para emancipação coletiva. Ela não é egoica, no sentido narcísico. Enfim, nossa maior resistência é a nossa vida”, afirmou.

Na mesma entrevista, Malunguinho comentou ainda sobre os desafios no atual cenário político brasileiro, e dada a sua atuação na posse, podemos afirmar que certamente a política paulistana não será a mesma após sua existência na Alesp.

“Precisamos cuidar de nós, do afeto, da solidariedade. Isso é essencial. Por isso, precisamos desenvolver estratégias e falo de estratégias para permanecermos vivas. São estratégias de sobrevivência, fazendo crescer o nosso grupo de articulação política. Precisamos criar uma estrutura de inteligência que construa espaços seguros em nossos territórios. Essa estrutura não pode ficar a cabo da igreja, das estruturas políticas que estão no poder.

A gente tem que traduzir para os nossos esse nó racial, étnico, político, institucional. Porque é um nó gigantesco e nós temos a missão de desatar esse nó. Temos que efetivamente construir um projeto político e pedagógico, tanto organizado coletivamente quanto autônomo e independente.”

Esse dia de “reintegração de posse” reflete a potência da construção de projeto coletivo levado sobretudo, pelas mulheres ativistas do Movimento Negro. Um projeto que defende alternância de poder e profundas transformações. Como afirmou Malunguinho em sua posse, “um projeto de amor, de afeto, um projeto humanizador.”

Além de Erica Malunguinho, outras duas mulheres trans também conquistaram vagas em Legislativos estaduais nessas eleições, por meio de mandatos coletivos: Erika Hilton, da Bancada Ativista, em São Paulo, e Robeyoncé Lima, das Juntas, em Pernambuco.

*Com informações do portal Alma Preta Jornalismo e a Ponte
**Editado por Wesley Lima

Foto: Roger Cipó

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