Ativistas de favelas alertam sobre o aumento do uso de helicópteros em operações policiais

Tiros a partir de helicópteros geram grave apreensão entre moradores

Por Edmund Ruge, no Rio Om Watch

Às 15:14h de quarta-feira, 20 de março, moradores do Morro do Borel, na Zona Norte do Rio de Janeiro relataram, através das redes sociais, um intenso tiroteio devido a uma operação policial de grande escala. Logo, surgiram vídeos de dois helicópteros da polícia circulando baixo, atirando de cima. Moradores se esconderam, e ficaram receosos de que a operação tivesse começado no horário de saída da escola.

“Têm várias crianças aqui em horários [escolares] diversos que circulam”, disse um morador ao RioOnWatch, falando sob condição de anonimato. “Você não sabe se a estrutura da sua casa vai aguentar reter o projétil de um fuzil superpotente. Eu fiquei desesperado, eu estava com dois filhos aqui em casa.”

A recém-eleita deputada estadual carioca Mônica Francisco, que também é natural do Borel, imediatamente começou a reportar no Facebook, escrevendo: “Operação agora no Borel e comunidades da Tijuca. Helicópteros estão atirando deliberadamente pra baixo em horário de saída de algumas escolas e colocando crianças em risco […] Isso é um absurdo! Não queremos chorar mais mortes!” Na quarta-feira à noite, fontes locais relataram quatro mortes resultantes da operação policial.

Em menos de três meses, em 2019, o Rio já viu pelo menos sete distintas operações em que helicópteros da polícia dispararam contra favelas. No Rio, as operações policiais normalmente envolvem confrontos armados terrestres com traficantes de drogas em áreas residenciais (como foi o caso da operação da Polícia Militar no Complexo do Alemão essa quinta-feira, 21 de março, que deixou um morador baleado na mão esquerda). Sabe-se que a força policial do Rio usava helicópteros apenas para apoio aéreo visual. Agora, no entanto, ativistas locais e moradores alertam que o uso de helicópteros como plataformas de tiro está se tornando comum.

“Eu acho que é uma novidade”, diz Thainã de Medeiros, do Coletivo Papo Reto no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Recordando dezembro de 2014, quando um helicóptero da polícia atirou balas de borracha em uma multidão para dispersar manifestantes na Vila Cruzeiro, Thainã relata casos esporádicos de disparos de helicópteros policiais na última década, mas adverte que esse tipo de militarização está se transformando em política regular. “De lá para cá só piorou. Acontecer uma vez já é muito. E não é que aconteceu só uma vez, aconteceu várias.”

Há apenas algumas semanas, na última sexta-feira do carnaval, moradores do Alemão acordaram com tiros disparados de um helicóptero. A polícia passou pela favela da Fazendinha a pé, enquanto dois helicópteros da Polícia Civil blindados atiravam de cima.

O ativista de direitos humanos, também do Alemão e do Coletivo Papo Reto, Raull Santiago, transmitiu ao vivo a operação policial no Facebook: “Aqui aqui mané! Dois helicópteros, vocês estão ouvindo. Vão passar perto de casa aqui metendo bala”. Ele diz para seus amigos se comprimirem no chão, gritando para uma vizinha do lado da rua: “Tia, desce dessa laje aí tia!”

O aumento é recente e grupos de direitos humanos apenas começaram a monitorar os tiros de helicópteros da polícia. A ONG Redes de Desenvolvimento da Maré marca o mês de dezembro de 2017 como o início do uso consistente de helicópteros. Lidiane Malanquini, coordenadora dos programas de Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré, diz que eles começaram a pesquisar dados sobre o uso de helicópteros após uma violenta operação policial no Complexo da Maré em junho de 2018. Essa operação, envolvendo tiros de helicópteros, deixou sete mortos—incluindo o estudante de 14 anos Marcos Vinicius da Silva.

Segundo dados da Redes da Maré, as favelas do Complexo da Maré tiveram:

  • 33 operações policiais em 2016, três das quais usaram helicópteros, mas nenhuma delas teve tiros a partir de helicópteros;
  • 41 operações policiais em 2017, quatro envolvendo helicópteros, uma delas envolvendo tiros a partir de helicópteros; e
  • 16 operações em 2018, quatro delas empregaram helicópteros —com todas as quatro envolvendo tiros a partir de helicópteros nas favelas.

“O uso de helicóptero como plataforma de tiro coloca a vida das pessoas em risco e gera pânico”, disse Lidiane. “Cada vez que o Estado usa um novo aparato bélico como se fosse a única forma de combater a criminalidade que existe na favela, os moradores têm que criar novas formas de se protegerem”.

Os moradores das favelas da Maré já haviam se acostumado à violência policial militarizada com o uso do veículo blindado, conhecido localmente como caveirão. A polícia usa esses veículos para se aproximar das favelas sem impedimentos, muitas vezes disparando das seteiras dos veículos blindados. “Esses helicópteros são ainda piores que os caveirões”, diz Ana Maria, moradora da Maré, que descreve o uso de caveirões como uma ferramenta de vingança. “Rasantes [dos helicópteros] já rolavam, agora são com tiros. Eu acho que é estratégico.”

Do outro lado da cidade, na Zona Oeste do Rio, a favela Cidade de Deus havia visto pouca atividade de helicóptero até agora, salvo um acidente de 2016 quando um helicóptero da Polícia Militar caiu por perto durante uma operação policial, matando quatro policiais. “Um grande trauma para a Cidade de Deus foi o [a queda do] helicóptero”, diz um morador da comunidade, falando sob condição de anonimato.

Já em 2019, a Cidade de Deus relatou dois casos de tiros disparados de helicópteros durante operações policiais. Por causa da topografia plana da favela e das estradas abertas, a polícia costumava entrar a pé ou via caveirões. Agora, diz o morador, as coisas começaram a mudar.

“Todas essas coisas às quais outras favelas já estão familiarizadas, a Cidade de Deus agora está começando a conhecer também”, disse ele. “Acho que na Cidade de Deus você consegue observar essa mudança bem forte. De certo modo, nas outras periferias, [que estão] mais no morro, esses caveirões voadores sempre estiveram presentes. Agora, eles chegaram para a gente.”

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