Jovem feminista e militante contra o racismo: conheça Mãe Nivia Luz

‘Quando alguém me dá uma pedrada, não posso considerar apenas como intolerância. Para mim é terrorismo’

por Guilherme Soares Dias, em CartaCapital

Quando Mãe Stella de Oxóssi, uma das mais importantes ialorixás da Bahia, morreu aos 93 anos, em dezembro de 2018, um vácuo abriu-se na hierarquia das religiões de matriz africana no Brasil. Mãe Stella era uma das mais respeitadas e veteranas ialorixás do País, guia de centenas de pais e mães de santo espalhados pelo território nacional. Em março deste ano, o candomblé perdeu Makota Valdina, aos 75 anos, outra referência, vítima de uma parada cardiorrespiratória. As líderes do candomblé costumam ser mulheres mais velhas e, de tempos em tempos, a renovação é natural. A escolha das substitutas geralmente segue a linhagem familiar, mas costuma ser feita pelo jogo de búzios, como determinam os orixás.

Assim Nivia Luz foi escolhida em 2015 para substituir a avó, Mãe Santinha de Oyá, no Terreiro Ilè Asè Oyá. Tinha 32 anos à época. Hoje aos 35, a jovem mãe de santo começa a despontar como uma líder renovadora em uma religião ancestral. Formada em Turismo, faz mestrado, gosta de viajar, é feminista, ligada à pauta LGBT e atuante na luta contra o racismo e a intolerância religiosa, preconceitos que no Brasil se misturam, pois os fiéis do candomblé e da umbanda em geral são os principais alvos e os que mais sofrem fisicamente com o ódio. “Estudo a relação do Estado com as religiões de matriz africanas, da perseguição à exaltação. A perseguição por conta do período onde os terreiros foram proibidos e ao mesmo tempo a exaltação quando há uma virada, surge a cultura do turismo e o candomblé vira objeto de comércio, de abertura para atrair gente de fora.”

O terreiro sob sua orientação espiritual abriga um bloco, o Cortejo Afro, conduzido pelo seu tio, o artista plástico Alberto Pitta. Durante o Carnaval, Mãe Nivia pode ser vista sentada em sua cadeira em cima de um trio elétrico acenando para os foliões. Neste ano, o bloco homenageou Oxalá, orixá relacionado à criação do mundo e dos seres humanos. “A gente estar nas ruas é um ato político. Vivo em uma cidade contraditória, onde, por mais que sejamos a maioria, querem nos tratar como minoria. E o Carnaval, para mim, é um momento de representar os pretos como eles merecem.”

O terreiro, localizado no Bairro de Pirajá, na periferia de Salvador, também sedia o Instituto Oyá, um centro de arte, cultura e lazer que ensina a cerca de cem alunos percussão, teatro e dança, além de prepará-los para o uso da tecnologia e realizar um acompanhamento do desempenho escolar. As redes sociais e os avanços tecnológicos, acredita Nivia, bem usados, têm o potencial de proteger as religiões de matriz africana e seus adeptos. “Tem de tomar cuidado, mas é muito bom quando você utiliza as mídias sociais para fazer uma denúncia. Mostra a realidade de uma casa de afoxé e desconstrói esse imaginário perverso que outras religiões criaram a nosso respeito.”

Antes de assumir a função, Nivia tinha viajado à Tailândia e se impressionado com a influência do budismo no Oriente, capaz de reunir tradição e modernidade. “Tenho entendido o candomblé dessa forma também, inclusive como uma filosofia. Não sou uma ialorixá porque estou dentro desse terreiro, sou ialorixá 24 horas, todo os dias. Isso é uma filosofia.” Partir desse raciocínio, diz ela, lhe permite incorporar a diversidade na própria religião que representa. “Quando falo de tradição e modernidade me refiro ao desejo de manter o que se aprendeu, a ancestralidade, a herança dos orixás, mas também estar alinhado com o seu tempo. Por isso falo de feminismo, de homofobia, de machismo. E de como manter aceso esse debate nas casas de axé.”

Preocupada com as ameaças crescentes a fiéis das religiões afro-brasileiras, Mãe Nivia defende uma nova postura, menos passiva, em relação à violência verbal e física. Ela não prega o revide na mesma moeda, em princípio, mas uma posição mais firme e clara: “Quando alguém me dá uma pedrada, não posso considerar apenas como intolerância. Para mim é terrorismo, gravíssima violência”.

A luta contra a intolerância religiosa, segundo a mãe de santo, deve escapar dos limites dos terreiros. “Tenho pensado muito, pois estou sentada aqui, do porquê de ter sido escolhida, mas sei que na minha função não posso ficar em cima do muro. Não posso esperar que alguém chute a minha porta e invada. Vou me organizar antes para que eles não venham.”

Mãe Nivia dá por menos quando alguém a aponta como a próxima grande ialorixá da Bahia. Diz não pensar no assunto e evita qualquer vaidade. Segundo ela, o posto não é uma profissão, mas uma missão. “Meu sustento vem de outro lugar. Quando você está em uma empresa, quer chegar em algum lugar, quer conquistar algo, ser promovido. Aqui não preciso desse tipo de promoção.” A líder religiosa lembra da existência de centenas de mães de santo e vê espaço para uma atuação conjunta, em nome da preservação das tradições de uma religião historicamente perseguida no Brasil. “Estou no lugar da minha avó, mas não quero ser top em nada, eu quero ser top, mas com todas as minhas irmãs juntas.” Seu maior esforço, afirma, vai além de sobreviver ou de se destacar. A baiana quer viver bem, unir seu povo e manter de pé a tradição herdada. “Não à toa, o bloco Cortejo Afro tem como slogan ‘elegantemente sofisticado’. É o que busco”, diz.

FOTO: HEITOR SALATIEL

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