Série M: A Vaza Jato nos jornais

Por Eduardo Barbabela e João Feres Júnior, no Manchetômetro

No dia 9 de junho de 2019, o site The Intercept publicou uma série de matérias denunciando a colaboração entre o então juiz federal Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, procurador federal e coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, a partir do vazamento de mensagens trocadas pelos dois em redes sociais.

A repercussão desse escândalo vai depender bastante da cobertura jornalística que ele está recebendo. Assim, a equipe do Manchetômetro decidiu acompanha-la de perto.

Nesse boletim analisamos todos os textos publicados pelos jornais Folha, Estado e O Globo, nos dias 10 e 11 de junho de 2019. Atribuímos dois enquadramentos básicos, Crítico ao Intercept, quando o texto ataca a divulgação dos dados pelo The Intercept, acusa suposta violação de privacidade dos envolvidos, ou mesmo simplesmente apoia o ministro Moro; Crítico a Moro, quando o texto acusa a ilegalidade da atuação de Moro e de sua relação com a Lava Jato, Neutro/Ambivalente os textos não têm posição manifesta.

A Folha de São Paulo é o jornal que realiza a maior cobertura do caso, com 33 textos sobre o fato. Desde o primeiro dia o jornal foi aquele que mais destacou o fato, preocupando-se em apresentar o caso amplamente, inclusive por meio de elementos gráficos, e exemplificando as supostas conversas sempre que possível. O jornal também se mostra a mais crítica à atuação do atual ministro da Justiça, apontando inclusive para possível manipulação política na Lava Jato. Apesar disso, o jornal reforça o argumento de que a Lava Jato não será desmoralizada pelo vazamento ilegal das conversas. A Folha também critica bastante o hacking das conversas que declara ser ilegal, mesmo que defenda que o jornalismo realizado pela The Intercept não deva ser questionado pela possível ilegalidade dos dados. O jornal também abre espaço para Moro, membros da Lava Jato e seus apoiadores defenderem que as conversas não possuem nenhuma informação relevante.

O Estadão é o jornal que menos abriu espaço para o vazamento das conversas, com apenas 11 textos nos dois dias. O jornal é o único que não possui nenhuma manchete sobre o tema, com uma cobertura que possui a mesma quantidade de críticas a Moro e ao The Intercept, além dos textos neutros. O jornal cita a gravidade das suspeitas levantadas pelas conversas e chega, em editorial, a renúncia do ministro renunciar dada a gravidade das acusações. Apesar desse posicionamento, o jornal, abre bastante espaço para a defesa de Moro.

O Globo é o jornal mais crítico ao The Intercept. Com 21 textos sobre o assunto, o jornal possui apenas dois textos que enfatizam a crítica a Moro, ao passo que abre amplo espaço para acusações de hacking.. O Globo insiste em um argumento pragmático segundo o qual, a despeito da possível veracidade das acusações contra Moro e Dallagnol e da ilegalidade da obtenção da obtenção das provas, a força legal dos fatos supostamente comprovados pela Lava Jato impede a reversão das condenações feitas no esteio da Operação, particularmente a do ex-presidente Lula.

Folha, Estado e O Globo têm dedicado enorme espaço à cobertura da Lava Jato, desde o surgimento dessa operação. Sua posição editorial e manifesta nos artigos de opinião e nas reportagens foi até agora de amplo apoio às ações de Moro e do MP do Paraná, inclusive em momentos em que essas mesmas ações chafurdaram no terreno da ilegalidade, como quando a condução coercitiva de Lula, da divulgação das conversas telefônicas entre Lula e Dilma e mesmo quando das sentenças de Moro e do TRF4 condenando e ratificando a condenação do ex-presidente. Agora que a ilegalidade dessas ações vem à público de maneira escandalosa, cada meio assume posição diversa. Vejamos nos próximos dias como essas posições vão evoluir.

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