“Agroecologia, bioenergia e ervas medicinais são um projeto de vida”

Entrevista com Maria Natividade de Lima, do Setor de Saúde do MST, sobre saúde popular

Por Fernanda Alcântara, na Página do MST

O cuidado milenar dos povos tradicionais por meio das plantas, vinculado com a concepção de saúde popular do Movimento dos Sem Terra (MST), são temas de reflexão sobre saúde no campo e na cidade. Dentro do Movimento, alimentação saudável, a cura a partir de bens naturais e o auto cuidado são pilares essenciais na luta por uma vida mais humana e digna.

Logo nas primeiras ocupações do MST a valorização do cuidado popular e da saúde de todas as pessoas envolvidas direta e indiretamente na luta está presente.

Diante disso, o trabalho no setor vai além da produção de alimentos. Envolve espaços destinados a dezenas de variedades de plantas e ervas voltadas à saúde popular. Cavalinha, melissa, erva cidreira, capim limão, goiaba, amora são apenas algumas delas.

E é por meio destas pessoas e com o contato que eles têm com os profissionais de saúde do SUS que a saúde popular segue sendo um dos mais importantes setores do Movimento. E é por isso que na semana em que se lembra o dia nacional da saúde, entrevistamos Maria Natividade de Lima, do assentamento Contestado há 17 anos,  que falou sobre cuidados e agroecologia.

Confira:

Como é trabalhar com saúde popular dentro do assentamento?

A demanda do setor de saúde do Movimento Sem Terra é trabalhar com base no resgate das terapias naturais e ervas medicinais, e estamos fazendo isso dentro do assentamento Contestado. Aqui, temos a prática de terapias não convencionais junto às pessoas do posto de saúde e a equipe médica.

Às quintas eu realizo auriculoterapia [terapia natural que consiste na estimulação de pontos nas orelhas, sendo por isso muito semelhante à acupuntura]. No primeiro e no terceiro sábado de cada mês nós fazemos também a prática do bienergia, que é um trabalho dos pontos energéticos no corpo. As pessoas apontam o que têm e aonde dói, e isso já traz uma confiança em nós, porque damos a ela uma atenção que muitas vezes ela não recebe numa consulta normal.

E como essas atividades foram levadas para o assentamento?

O primeiro passo foi de trazer uma unidade de saúde para dentro do assentamento, um direito de todos que só foi possível depois de um processo de muita luta. Junto com esta demanda mandamos um projeto de uma sala para as terapias naturais. Conseguimos assegurar este espaço e não vamos abrir mão dele, porque ali temos um grupo grande de profissionais que aderem às terapias e bioenergias e estão ligados à agroecologia. 

Tínhamos também um projeto para formação de agricultores e produção de ervas medicinais a partir de um estudo, mas com a mudança na prefeitura, hoje temos um prefeito que não adere a terapias e que se posiciona contra isso, o que torna isso bem difícil.

Qual a diferença da saúde popular com os tratamentos mais convencionais?

A comida é a primeira coisa que discutimos. A pessoa tem que comer melhor. Se alimentar melhor é ter comida sem veneno, sem transgênico, porque os alimentos já tem todos os componentes que o corpo do ser humano precisa. 

Dentro da agroecologia e das terapias tratamos todo mundo como ser humano e não como “mais um doente” ou como “um paciente”. Essa proposta está crescendo porque o povo também está se dando conta de que muitos venenos estão matando e provocando doenças.

E como você começou a trabalhar na área de saúde popular?

Eu sempre estive ligada à isso porque a minha avó era parteira e benzedeira, fazia massagens e usava muitos chás, e meus pais também usavam um pouco desta tradição e iam ajudar na comunidade. Eu comecei na Pastoral da Liturgia, perdendo o medo de falar em público, de ler, e depois fui para a Pastoral da Saúde e Pastoral da Terra e a partir daí procurei cursinhos e formações. Em 2004 fomos convidados a fazer o curso de bioenergia e em 2006 puxamos um cursinho de acupuntura com sementes no corpo. Depois fomos aumentando o número de cursos de formação, e isso ajuda muito a entender a responsabilidade que nós temos de trabalhar com as terapias e sempre ter respeito consigo mesmo e com o outro. 

Dentro da comunidade tem aqueles que me ajudam, apoiam e se somam. Mas tem aqueles que não gostam disso, deste projeto de vida, porque ele não dá muito dinheiro. É um projeto de vida baseado no respeito, no resgate de valores e em ser solidário. 

Como estas mudanças podem ser vistas no dia-a-dia do assentamento?

Vamos fazer três anos desta unidade de saúde funcionando, mas já fazíamos algumas desta práticas antes. No projeto de agroecologia, por exemplo, começamos com nove famílias e hoje estamos com mais de 60 só no assentamento. O que a gente percebe é que o interesse cresceu muito sobre o que é ter saúde e por aonde podemos começar a mudar para ter uma saúde melhor. O que é ter saúde? O que é ser saudável? É tomar só medicamento alopático, ou é comer bem, dormir bem, estar bem? Agroecologia não é só produzir comida, é cuidar do ambiente inteiro, cuidar dos bichos, da produção, da água e da natureza, que nos serve muito bem.

Para mim a farmácia viva é a mãe natureza, está nas hortas, na mata, está em todo lugar. O pessoal entende que tem que ter o espaço pra produzir, tem que ter cama para dormir, tem que ter água boa, e não é só produzir comida, nem só produzir remédio. Tem que ter um espaço de dignidade mesmo, isso dentro da Reforma Agrária. Para conseguir tem todo um processo de luta, tem que ocupar as terras primeiro, e dentro da reforma agrária isso é muito forte. 

Dentro da nossa unidade eu sinto essa complementariedade de quem adere, que ajuda, e as pessoas tem a mente mais aberta, e até no plantio das ervas, nas trocas de mudas, e neste intercâmbio inteiro, ele ajuda a pessoa a entender melhor que a alopatia é extraída das ervas medicinais que estragam o humano de novo. Antes a saúde era só alopatia, era médico.

Na verdade, no mundo tem dois projetos: o projeto de vida, como tudo o que eu disse, e o projeto de morte, que é a alopatia, o agrotóxicos, a concentração de renda e agronegócio. 

Quais exemplos você tem deste projeto na vida das pessoas?

Eu começo por mim mesma, eu vivia em médico antes de conhecer o método de bioenergia, de conhecer os métodos e a mãe natureza. E eu me curei com ela e faz 20 anos que eu não tomo um comprimido. Outro caso é meu ex-marido, que estava desenganado pelos médicos, com alergia crônica e outros problemas. O médico disse “você não tem o que fazer mais, vá pra casa porque não tem cura”, então a gente fez uma oferta para ele tentar tratar com o tem a mãe natureza oferece e a bioenergia. Se você quer sarar, cuide-se com ela. Ele mergulhou nesta ideia e hoje ele não tem nenhum dos problemas que ele tinha.

Por fim, tem o meu filho,  que tinha sinusite crônica comprovada pelos médicos. Eu não quis fazer tratamento com alopatia e fui pra bioenergia, e hoje ele é saudável, e não precisou de nenhum comprimido. Então tenho vários testemunhos da minha própria família porque o objetivo é você começar a olhar para a sua família e para si mesmo, depois vai para a comunidade, e depois pro mundo.

Na vida de quem cultiva, o que muda?

Na verdade, só entra nessa luta quem tem vocação para isso. Entre a bioenergia, as ervas medicinais e a alimentação, conseguimos uma energia pura, mais limpa, e a gente se sente bem. Quem adere esse projeto se sente mais feliz, vive mais alegre e vai deixando a alopatia. As pessoas também não estão se envenenando só com agrotóxicos, mas também com os próprios remédios alopáticos. Tudo é uma rede, dentro do agronegócio os médicos populares tratam para te curar, mas os outros não querem te curar, porque é o salário deles, eles querem é o dinheiro mesmo.

E o que você diria para quem ainda não aderiu à esta visão de cuidados com a saúde?

Para mim, a saúde popular não é preventiva, é curativa. Está na hora de quem está no Movimento acordar para isso e se valorizar. Porque, pra mim, as pessoas tem que se gostar, e quem se gosta muda de projeto, sai da produção convencional [do agronegócio], da alopatia, dos venenos. Acredito que ter dinheiro é importante para todo mundo, mas ele não estar em primeiro lugar. Quem tem que estar em primeiro lugar é a pessoa, é a alimentação saudável, e isso não é só quem está no Movimento, mas todos os parceiros que são de outros movimentos que estão nessa luta. Todos precisam repensar seus cuidados, seus valores, se cuidar mais, e entender esta proposta. Porque é esta proposta é um projeto de vida, e este projeto já custou mortes, já custou muitas perdas. Mas ainda temos tempo de refletir e mudar de comportamento.

Como saúde popular e alimentação fazem parte da luta. Foto: Daniela Moura- Voz do Movimento

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