As trapaças do gozo individual

Num texto que viralizou, Lira Neto propõe desfrute como forma de lutar contra a maré obscurantista. Descontrair não serve como saída política. Nesse caso, reduz-se a individualização e fuga. Lutar pelo comum é criá-lo, no prazer da luta coletiva

por Veridiana Zurita, por Outras Palavras

Na aceleração frenética que movimenta as redes sociais, onde recebemos mensagens instantâneas, postamos, compartilhamos, retweetamos, “likamos” ou selecionamos emoticons que resumem as nossas reativas emoções, recebi diversas vezes posts que replicavam uma mesma receita para suposta superação ao obscurantismo bolsonarista. No geral, tais posts, ecoam aquela lógica de autoajuda que para todo e qualquer sofrimento há um cardápio positivo de superação. Mas a que mais me impactou, já com 8.997 retweets e 26.674 likes, foi um tweet do jornalista e escritor Lira Neto que dizia:

“Leitor pergunta como seguir saudável nesta maré de obscurantismo. Sugiro a sabotagem: ler literatura, assistir a bons filmes, frequentar exposições de arte, ir à roda de samba, dançar forró, amar. Cultivar subversiva alegria. Contra a pulsão de morte, só a anarquia da felicidade. Cultivar a subversão da alegria não significa deixar de denunciar – e lutar – contra a tristeza autoritária do bolsonarismo. É, ao contrário, uma forma de luta, um antídoto contra o derrotismo prévio e imobilista a permanência no luto político. É chegada a hora de reagir.”

Tal tweet segue viralizando nas redes, inspirando milhares, entrando na subjetividade de cada um que celebra esse cardápio de atividades como suposta “sabotagem”, “subversão” e até mesmo “luta” contra aquilo que o autor chama de “maré de obscurantismo”.

Mas, de fato, tal sugestão de luta parece ser absorvida e retweetada pela subjetividade de uma classe que tem tempo e meios pra consumir esses “antídotos” contra a “permanência no luto político” e, mais ainda, por uma classe que pretende “seguir saudável” em meio a tragédia político-social que o bolsonarismo integra. Tanto a pergunta feita à Lira Neto quanto sua resposta são sintomas de tempos neoliberais em que a superação ao horror e ao adoecimento parecem sempre se dar pelo gozo individual.

A sugestão de que “contra a pulsão de morte só a anarquia da felicidade” evidencia o equívoco do autor na compreensão daquilo que é a pulsão de morte. A pulsão de morte é um conceito freudiano e talvez um dos mais controversos na história da psicanálise. O percurso histórico desse conceito passou por complexas transformações, redefinições e rejeições tanto por Freud quanto pelos pós-freudianos. No geral – afinal seria impossível sintetizar todo esse processo em um texto como esse – o processo de formulação do conceito de pulsão de morte acontece através de contínuos questionamentos sobre a dualidade entre duas pulsões. A pulsão de vida, uma energia que impele à ação e à autopreservação e, o seu oposto, a pulsão de morte que leva à inanição, ao zero de excitação, à morte.

A busca pelo entendimento de tal dualidade como algo que pudesse dar conta da teoria pulsional freudiana é incansável dentro da psicanálise. Mas o que se pode dizer é que a pulsão de morte não é simplesmente a destruição da vida. A ambiguidade do conceito é talvez sua maior potência. Talvez, o melhor entendimento do que seja a pulsão de morte é a leitura lacaniana que mantêm o modelo dualista, no qual Freud sempre insistiu. Lacan fornece uma chave para entendermos esse dualismo: “toda pulsão é, ao mesmo tempo, pulsão de vida e pulsão de morte (…) A satisfação a que almeja a pulsão de morte é o gozo, um impulso desenfreado para o prazer gerando repetição, excesso, desprazer, sensações devastadoras que põem em xeque nosso equilíbrio”.

A pulsão de morte não é simplesmente a destruição da vida mas contém em si a constante e repetitiva busca pelo gozo como forma de descolamento da vida ou da realidade. Mais ainda, é “a sexualidade infantil funcionando de modo puramente anárquico“. Superar a pulsão de morte com a “anarquia da felicidade”, como sugere Lira Neto, seria como superar o gozo com mais gozo, acalmar a criança mimada com incontáveis chupetas, ou ainda, dizer que para sabotar o capitalismo deveríamos consumir cada vez mais. Sua proposta é uma contradição e não dá conta de mover o imobilismo político. Se estamos imóveis justamente porque anestesiados, consumir toda uma oferta de antídotos só nos anestesiaria ainda mais.

A suposição de que é possível “seguir saudável” em meio a “esta maré de obscurantismo” é um ato falho. Ato falho que revela a ilusão de uma classe que acredita não ser afetada por essa maré. A pergunta do leitor de Neto evidencia o privilégio de uma classe acostumada com a ideia de que tal maré sempre inunda mais uns do que outros. Se a água bateu na bunda da classe média agora, uma multidão já se afogou. A diferença é que agora essa maré não vai poupar ninguém. A crise climática que o diga. A ilusão de que há saúde possível pelo gozo individual expõe que já estamos entorpecidos por pílulas anestésicas, antídotos falsos, chupetas alienantes.

Não apenas o indivíduo está doente mas a sociedade, o corpo social, o país, o mundo, a terra. Os transtornos causados pelo individualismo no sujeito contemporâneo são sintomas de um adoecimento civilizatório que se alastra através da crise do capitalismo. Estamos doentes justamente porque individualizamos a tragédia e a possível saída dela. Não vejo como “ler literatura, assistir a bons filmes, frequentar exposições de arte, ir à roda de samba, dançar forró”, (amar? talvez sim) seja uma forma de sabotar o momento que enfrentamos. Esses produtos culturais podem ser formas de amenizar a dureza do momento, “descontrair e dar leveza porque tá tudo muito pesado” (como ouvi de uma amiga), mas encarar o consumo destes como “sabotagem”, “subversão” e “luta” é escapismo.

Assumamos: a classe média (ou pelo menos sua mentalidade) quer mesmo é descontrair! A doença do momento é o individualismo, a racionalidade neoliberal, invadindo corpos e hegemonizando subjetividades através de um arsenal de serviços, cuidados personalizados, que nos fazem acreditar no consumo como garantia de liberdade, sanidade, cura dos transtornos e temores que o próprio capitalismo cria.

Essa onda de obscurantismo não é uma abstração, metáfora ou figura de linguagem que podemos resistir, sabotar ou lutar contra, com uma sessão de cinema.

A vereadora Marielle Franco é executada, a milícia é celebrada, quem matou é preso, porem quem mandou matar a justiça prefere não prender. Um grupo de garimpeiros assassina o cacique Emyra Wajãpi com facadas na cabeça, olhos e corpo, e seguem invadindo a aldeia Mariry agredindo mulheres e crianças indígenas. Luis Ferreira da Costa, integrante do Acampamento Marielle Vive! (MST/Valinhos) é atropelado e morto por um homem que jogou sua caminhonete contra manifestantes sem terra durante ato simbólico de entrega de alimentos e denúncia pela falta de água no acampamento. A juíza Bianca Vasconcelos, decide em sentença pelo despejo das mil famílias acampadas no Acampamento Marielle Vive! para que no lugar de produção de alimentos saudáveis e potência comunitária se construa um condomínio de luxo. O desmatamento da Amazônia cresce em escalada de 278% em relação ao mesmo mês em 2018. O agro continua pop. Ricardo Galvão diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) é exonerado após reiteradas críticas do governo aos dados de desmatamento da Amazônia. Os dados incomodam, o presidente da autoverdade diz que não correspondem com a realidade e o agro precisa continuar pop. Liderança do MSTC Preta Ferreira é intimada na própria casa por suspeita de extorsão, seu processo de acusação é frágil, não há provas mas uma trama de fofocas. Preta segue presa e diz “estou presa porque nasci mulher, preta e pobre”. Militante transexual do PSOL e ativista pelos direitos das trabalhadoras do sexo é sequestrada, ameaçada, torturada e solta para mandar recado. O presidente segue sua vida entre tweets, café da manhã com leite condensado, falas violentas e ignorantes que viram piada e cortina de fumaça quando na realidade são a materialização semântica do próprio obscurantismo. As instituições superiores da justiça vão se solapando em meio a vazamentos. Prendem hackers em Araraquara mas não investigam o conteúdo do que vazou. A contrarreforma da previdência vai passando com mudanças que podem amenizar sua aparência mas não escondem o ataque ao caráter solidário e redistributivo da previdência social. O ministro da educação estreia com cortes de 30% nas universidades federais e segue com o programa “Future-se” que pretende entregar a educação pública federal para o capital financeiro. Enquanto isso o PL 2418/2019, propõe a obrigatoriedade de que provedores de internet realizem monitoramento ativo de publicações de seus usuários que impliquem atos preparatórios de terrorismo e delega à autoridade militar a aprovação de tal monitoramento em casos de ameaça ao Estado. O PL, ou o que se pode chamar de AI-5 digital, tramita em caráter conclusivo e aparentemente sem posicionamento claro de parlamentares do campo da esquerda.

E isso é apenas um recorte ínfimo – e já alarmante – da densa onda de obscurantismo que é histórica, nos afoga no presente e já inunda terras de um futuro que não teremos. Enquanto não acordarmos do sonambulismo, da espera do apocalipse já dentro dele e da ilusão de que há saúde possível dentro de um sistema que nos quer doentes, seguiremos como zumbis, incapazes de agir, resistir e existir.

Não se trata aqui de questionar a importância do cinema, da literatura, do samba, do forró, da arte como forma de resistência. A arte pode sim ser tecnologia potente na criação de outros mundos, outras formas de vida, de sociabilidade, outras existências e humanidades que nadem contra uma corrente que soterra e coopta toda e qualquer dissidência, pedra no caminho do capitalismo neoliberal. Mas já passou da hora de questionarmos que se a forma de consumo de todos esses produtos culturais não superar a ordem do individual e do privado não vai haver resistência possível a uma maré que inunda, acima de tudo, a coletividade e as lutas pelo comum.

O momento de obscurantismo que vivemos não é uma patologia nova que apareceu do nada e que podemos medicar com antídotos. O que nos horroriza somos nós mesmos. Essa “maré de obscurantismo” nomeia e materializa violências históricas em que estamos todos implicados, uns porque já vem lutando e morrendo desde sempre outros porque preferiram e puderam descontrair.

Cultivar a saúde só é possível se tensionarmos o paradigma positivista de superação e cura seja da doença, seja do luto político, seja do próprio adoecimento causado pelo luto. Essa imobilidade no luto político se dá justamente porque estamos ilhados, paralisados por uma narrativa que individualiza o horror, territorializa o medo, e privatiza a falta. Tentar mover esse imobilismo com placebos só vai assentar ainda mais os alicerces de uma lógica político-social-econômica-afetiva que nos quer imóveis, paralisados no limbo entre a constante insatisfação e o obsessivo consumo de chupetas. Sabotar essa maré hoje significa sairmos da zona de conforto, interrompermos o vício inerte do “gostosinho-gostosinho” e dar conta de sua abstinência, aliarmos forças, mobilizarmos solidariedade de lutas, irmos para o enfrentamento e considerarmos que a felicidade e a alegria só são possíveis através da mobilização da coletividade. Como diz Eliane Brum, em resposta ao que ela chama de “doença de Brasil”, “o único jeito de lutar pelo comum é criando o comum – em comum”.

Há mundos possíveis fora do insaciável desejo pelo gozo individual. Ai está, o melhor e mais dócil rato de laboratório do capitalismo, o insaciável zumbi, condicionado à ilusão de que o desejo pode ser saciado. E como sabotar esse laboratório onde somos experimento? A arte, o cinema, a literatura, a dança, a música, o amor, não como antídotos ou produtos isolados que consumimos para sentir qualquer coisa que nos aliene da dureza do momento, mas sim como potências que não nos deixem esquecer da dureza, espaços de encontro que através da criação nos aproximem do luto e ressignifiquem a maneira como lidamos com ele, contextos onde possamos reimaginar a produção e o consumo cultural pelo coletivo, danças sociais que nos instiguem, nos convoquem, nos desalienem, movam o corpo para adentrar com resiliência no adoecimento que nos pertence.

As mobilizações estão em toda parte. Junte-se a elas, encontre coletivos, alie-se a movimentos sociais, potencialize o seu tempo com a luta do outro, organize encontros de reflexão e atuação sobre o momento que enfrentamos, fortaleça estratégias que nos dê coragem para rupturas inevitáveis e que nos alerte para conciliações caducas, faça comunidade, reaproxime laços de possíveis nós…

Contra a morte somente vida em luta e a alegria da mobilização comum.

Veridiana Zurita – Mãe, artista, pesquisadora e feminista. Vive atualmente na zona rural no interior de São Paulo e desenvolve seu trabalho através de projetos multidisciplinares que possam suspender, torcer, desfazer e re-imaginar papeis sociais. Para conhecer alguns de seus trabalhos acesse: http://www.veridianazurita.com/

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