Uma espécie de extinção. Por Janio de Freitas

Impor a subserviência ou o silêncio do jornalismo é parte essencial do plano de Bolsonaro

Na Folha

A satisfação de Jair Bolsonaro com a ideia de que “jornalistas são uma espécie em extinção” não é egoísta. Acaricia certo sentimento de incontáveis ressentidos. E, ao menos no que me toca, é comprovável até em dose dupla: tanto no jornal, onde as seis colunas por semana hoje ficam nesta única (e olhe lá), como na encaminhada extinção, mais tradicional, do meu prazo de validade geral.

A ideia de Bolsonaro, dessa vez exposta com mais ênfase, volta com o mesmo problema. Ei-la: “Vocês são uma espécie em extinção. Acho que vou botar os jornalistas do Brasil vinculados ao Ibama. Vocês são uma raça em extinção”. A formulação continua vaga, de imprecisão que chega a parecer deliberada.

“Vocês são uma raça em extinção” é uma dedução, sugerida pelas previsões alucinantes do futuro cibernético? Ou é constatação, facilitada pelo embate entre imprensa, internet, TV e que tais, com as visíveis crises de identidade e os desmaios financeiros? Ou é ameaça, ampliação dos ataques à Folha  e  seus anunciantes, à Globo e seu próximo vencimento da concessão?

A indefinição até parece um suspense inteligente, não fosse de Bolsonaro. O histórico das relações entre “mídia” e governos, no Brasil, é de capitulações muito mais frequentes, quase uma norma, do que enfrentamento das ameaças. Bolsonaro talvez ache, insensato, que vale a pena testar, faltando-lhe a experiência de ter pela frente a artilharia unida, como aconteceu a Lula, Collor e Dilma.

A gracinha da citação ao Ibama, tão desumorada, tem a ver com a vocação de Bolsonaro para o atraso, para o passado menos digno. Com o Ibama, traz de volta, sem saber, o tempo do jornalismo pendurado às escondidas nos cofres públicos. Assim eram as redações quando cheguei a uma delas. Havia até, em várias, jornalistas e dirigentes que podiam ganhar insignificâncias porque recebiam “contribuição” da ditadura portuguesa de Salazar. Como regra, os salários eram baixos e os empregos públicos, dispensada a frequência, eram apenas tão silenciados quanto possível.

No sempre citável Diário Carioca de meado dos anos 50, formamos um grupo de resistência a determinadas práticas, como o emprego público, e pela profissionalização real do jornalismo. Os que ainda não eram funcionários fantasmas aderiram, todos. Não tardou, porém, que Câmara de Vereadores, Correios, Casa da Moeda (imoralidade tão revoltante que inspirou uma crônica de Fernando Sabino), e outros cofres, ilustrassem seus quadros de fantasmas com entusiastas da profissionalização ética. Sobramos apenas uns cinco ou seis (quatro ainda ativos na teimosia).

De São Paulo, sempre se ouvia, no Rio, o quanto era generoso o Jockey local, o que, aliás, mais tarde levou o novo proprietário da Folha, Octavio Frias de Oliveira, a vetar seção de turfe. A “mídia” nos demais estados não estava mais distante dos cofres impróprios que a das grandes cidades. A ditadura agravou muito essa deformação, inclusive por meio do SNI. Com a chamada redemocratização, Brasília atualizou seus métodos. O que quer dizer que também jornalistas o fizeram, mas se tornaram uma parcela cada vez menor. Embora o surgimento, também em vários estados, de determinadas “assessorias de comunicação” e “agentes” praticantes dos métodos mais nefastos.

É claro que jornais, tevês e rádios privados são instrumentos políticos, com tal propósito ou não. Toda notícia, mesmo a isenta, contraria alguém ou os interesses de algum lado. Todo comentário, idem. O grau da reação a essas contraposições é um dos mais perceptíveis e úteis indicadores da sinceridade democrática de um governante, em qualquer nível. Nesse quesito, José Sarney e Itamar Franco, por mais que o íntimo lhes doesse com a brutal pancadaria, foram democraticamente perfeitos, quando presidentes. Lula e Dilma não contiveram queixas públicas, mas a ninguém ameaçaram e nada moveram para abrandar, calar ou vingar.

Impor a subserviência ou o silêncio do jornalismo é parte essencial do plano de Bolsonaro, e dos seus aliados fortes, para moldar o país à ignorância cascuda e antidemocrática que nos é mostrada por  Damares,  Weintraub, Ricardo Salles, Onyx, e demais reproduções miniaturizadas da nulidade humana com status de Presidência. Não enfrentar esse plano já é uma espécie de extinção.

Fantasiado de presidente da República no Japão. Foto de José Dias /Presidência

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