Indígenas de Aracruz encerram protesto em trilhos da Vale por água potável

Fundação Renova vai entregar 5l de água/pessoa/dia até instalar reservatório e poço na aldeia Comboios

Por Fernanda Couzemenco, Século Diário

Depois de mais de 24 horas de protestos, as comunidades indígenas de Aracruz, no norte do Espírito Santo, conseguiram um acordo com a Fundação Renova, encerrando então o protesto que fechou parte da ferrovia da Vale na altura de Barra do Riacho, também no município, desde o início da tarde de quinta-feira (6). 

As negociações se iniciaram no final da manhã da sexta-feira (7), se estendendo até o final da tarde. A Fundação chegou a dizer que só iniciaria a entrega de água potável dentro de dez dias, e durante um período de um mês, quando então as comunidades anunciaram o retorno para os trilhos por tempo indeterminado. A decisão forçou a Renova a ceder e afirmar que entregaria a água a partir desta segunda-feira (10) e por um período de quatro meses, para todas as aldeias Guarani e Tupinikim de Aracruz. 

O prazo é estimado como suficiente para que a Fundação entregue um poço artesiano e reservatório a ser construído na aldeia Tupinikim de Comboios. Os estudos para a obra estão em fase inicial, e se focam em um local distante do canal Caboclo Bernardo, que corta a aldeia e foi contaminado pelos rejeitos de mineração da Barragem de Fundão, da Samarco/Vale-BHP. 

O canal foi construído pela Aracruz Celulose (ex-Fibria, hoje Suzano) para abastecer sua fábrica localizada na Barra do Riacho, trazendo água diretamente do Rio Doce, este, o maior curso d’ água do Espírito Santo, intensamente impactado pelos rejeitos de minério que vazaram da barragem em 2015. 

“Desde o rompimento da Barragem a nossa água está ruim, amarelada. Temos tido muitas mortandades e as pessoas têm medo de usar essa água. Mas agora, com a enchente de janeiro, a água ficou preta e fedida. Temos urgência em receber uma água própria pra consumo”, declara Antonio Carlos, o Cacique Toninho, da aldeia Comboios. 

A Vale e a Renova negam o nexo causal entre a água contaminada pós-enchente e o crime de 2015. Os indígenas, por sua vez, afirmam que continuarão reivindicando 15 litros/pessoa/dia, como prevê o Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC) de 2016, mas que nunca foi cumprido. 

“Pedimos os 15 litros, mas continuamos tendo negativa por parte do CIF [Comitê Interfederativo, instância criada no âmbito do TTAC para fiscalizar a atuação da Renova, entidade criada pela Vale, a Samarco e a BHP Billiton para executas os programas de reparação e compensação advindos dos danos socioambientais advindos do crime]. Nunca recebemos água da Renova”, denuncia Toninho.

O cacique conta que, além de lideranças indígenas Tupinikim e Guarani, participaram das negociações nesta sexta-feira o gerente Ricardo Borgo, da Renova, e sua equipe técnica, o defensor público da União (DPU) Antonio Ernesto, o representante da Fundação Nacional do Índio (Funai) de Governador Valadares/MG Jorge de Paula, e o comandante Alexandre, do Bbatalhão da Polícia Militar de Aracruz. 

Imagem: Reprodução Século Diário

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