Como combater um mundo estreito e repleto de violência

Dossiê do Instituto Tricontinental insere o pensamento do intelectual negro Frantz Fanon na atualidade

Nara Lacerda, Brasil de Fato

Em 1961, sofrendo com os sintomas de uma leucemia em estágio terminal, o pensador, pesquisador e militante negro Frantz Fanon, ditou seu último livro Os condenados da terra, no qual faz um relato angustiante sobre as divisões sociais.

Nas palavras do intelectual, o sistema colonial deixava uma herança a ser combatida “um mundo estreito, repleto de violência”. Quase 60 anos depois, o pensamento e a percepção de Fanon parecem carregar ainda mais o peso da realidade. 

No dossiê Frantz Fanon: o brilho do metal, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social faz uma análise sobre a atualidade das pesquisas e conclusões do intelectual.

Nascido na ilha caribenha Martinica em julho de 1925, ainda adolescente ele se juntou às tropas francesas na Segunda Guerra Mundial voluntariamente. Foi no exército do país que colonizou sua terra natal que Fanon teve contato direto com o racismo.

A partir daí, toda a sua produção intelectual esteve voltada para a superação do pensamento colonial maniqueísta, que coloca o colonizador como detentor da razão e nega a humanidade ao colonizado. 

O que Fanon chama de maniqueísmo se expressa na prática até os dias de hoje, explica o professor de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Federal de São Paulo, Deivison Nkosi.

O colonialismo atuou como um espaço de transferência das contradições do capitalismo. Grupos sociais que tiveram sua humanidade negada ainda sofrem as consequências desse processo.

“Esse maniqueísmo não se supera. Não é uma coisa que fica no passado. Ele continua se atualizando quando a gente pensa a relação das políticas de segurança pública nas favelas, por exemplo. Quando a gente pensa a própria ideia de terrorista. Por que toda vez que a gente pensa em um terrorista a gente pensa em um árabe, um muçulmano? A gente nunca pensa no governo francês ou no exército estadunidense. Você tem um maniqueísmo que é a tônica das relações com os povos não europeus no processo de universalização do capital”, aponta.

Revolução argelina

Fanon faleceu cedo, aos 36 anos de idade. Quando descobriu a leucemia, ele estava em pleno período produtivo, após anos de atuação contra o colonialismo francês e participação ativa na revolução Argelina.

Na ocasião, o intelectual expressava preocupação com o que o dossiê do Instituto Tricontinetal resume como  “os limites das formas políticas que fracassaram ir além do maniqueísmo introduzido pelo colonialismo”. Em um diário de bordo. Fanon demonstra como a formação e a ideologia são essenciais para a superação da mentalidade colonial.

“(…) o colonialismo e seus derivados não constituem, de fato, os atuais inimigos da África. Em pouco tempo, este continente será libertado. Da minha parte, quanto mais fundo eu entro nas culturas e nos círculos políticos, mais seguro estou que o grande perigo que ameaça a África é a ausência de ideologia”, registrou.

O desabafo pode ser facilmente transferido para outras regiões em desenvolvimento e que tiveram sua história e formação marcadas pela mentalidade colonial.

Países que até hoje percebem o pensamento Europeu como superior e que desvalorizam os saberes das minorias, como o Brasil, estão nessa lista. Talvez uma das contribuições mais fortes de Fanon, a percepção de que as realidades específicas de cada povo são essenciais para que se alcance a justiça social, seja o caminho inicial para desconstrução dessa lógica.

Influências

Não à toa o intelectual segue influenciando outros pensadores e lutas sociais até os dias de hoje. “Depois de ler Fanon, (Paulo) Freire desenvolveu um humanismo radical comprometido com o reconhecimento imediato da personalidade plena e igual dos oprimidos como pré-condição para a ação emancipatória”,  relata o documento ao narrar a construção de parte das ideias freireanas. 

“No final dos anos 1970 e 1980, as ideias freireanas sobre a práxis – moldadas em grande parte por Fanon e, em muitos casos, lidas em conjunto com Fanon – foram essenciais para o trabalho político realizado nos locais de trabalho e nas lutas comunitárias pela África do Sul. A teoria da práxis de Freire permitiu o surgimento de algumas das forças sociais mais impressionantes e poderosas do planeta na época, nas quais as pessoas comuns se tornaram protagonistas centrais da luta”. aponta o dossiê.

Deivison Nkosi revela como a práxis (teoria aplicada à prática) é parte valiosa do trabalho da Fanon e se torna uma espécie de chamado aos acadêmicos da época, que não perdeu a validade.

“O Fanon é um teórico que está pensando a teoria não só de uma forma acadêmica e curiosa. Ele está pensando em como a teoria pode iluminar a nossa ação de uma forma eficaz. Para ele, a teoria é preciosa demais para ser deixada nas mãos do inimigo. Ela tem que ser algo que está a serviço de quem luta pela emancipação”, diz Nkosi.

O dossiê indica que há inúmeras possibilidades de conexões e diálogo entre o trabalho de Fanon e as formas contemporâneas de luta. “Elas vão desde seu relato da centralidade da racialização, do espaço e da espacialização da raça no projeto dos colonizadores, até questões de linguagem, policiamento, inconsciente racial e – é claro – as realidades brutais do que passou a ser denominado a pós–colônia.”

Em outro trecho o documento aponta que o pensamento de Fanon continuou vivo e influenciou diversos movimentos populares ao redor do mundo após sua morte, no final de 1961.

“O pensamento de Fanon teve uma vida extraordinária, alcançando desde o turbilhão da revolução argelina até as prisões estadunidenses, passando pelas banlieues francesas e pelas favelas brasileiras e além. Às vezes expressa através de um poeticismo potente e sempre enraizada em um humanismo radical – afirmação imediata, universal e militante da igualdade e do valor da vida humana.”

Avaliações internas e necessárias 

Outra característica marcante do trabalho de Fanon, citada no dossiê do Instituto Tricontinental, é a crítica constante à distorções existentes dentro da própria luta da esquerda.

“Em seu último livro, ele tinha claro que manter os princípios significava empreender uma luta dentro da luta, além de enfrentar o inimigo colonial. Ele adverte que ‘para evitar esses múltiplos obstáculos é necessário bater–se com tenacidade para que o partido jamais se torne um instrumento dócil nas mãos de um líder’. Fanon argumenta que, para estabelecer a rebelião sobre uma base racional, é necessário resistir àqueles dentro do movimento ‘que algumas vezes tendem a pensar que as nuances constituem perigo’ e líderes que insistem que esse é ‘o único dogma que vale a pena (…) é a unidade da nação contra o colonialismo’.”

É nesse sentido que Deivison Nkosi relembra que Fanon foi duro nas críticas à esquerda quando ela desconsidera a importância de entender o racismo para a luta de classes.

“Para ele, se a gente está se colocando na perspectiva de emancipação humana, isso significa se engajar contra qualquer ato de negação da humanidade, qualquer forma de opressão. Aos revolucionários cabe a defesa intransigente do ser humano onde quer que ele seja ameaçado. Isso significa tomar partido de todas as lutas, se solidarizar com todas as lutas, mesmo que elas não tenham uma expressão imediatamente identificada com a luta de classes. Ele está criticando uma esquerda que secundarizou a luta contra o racismo, a partir de uma crença de que essa era uma questão menor. Mas entender a centralidade do racismo, para ele, implica manter uma solidariedade a todas as outras lutas e aí a gente pode pensar gênero, homofobia, xenofobia e uma série de outras dimensões de negações de humanidade que estão postas na sociedade capitalista.”

Fanon conclui não haver solução pessoal para o problema do racismo e que existe a necessidade  de reestruturação do mundo, ressalta o dossiê.

“Fanon descreve o inevitável fracasso das tentativas de encontrar uma maneira de obter o reconhecimento necessário para viver livremente contra o peso esmagador do racismo: ‘Toda mão era uma mão perdida para mim’. Uma dessas mãos perdidas era a razão. O fanatismo com o qual a razão era codificada como branca na imaginação racista era tal que era impossível ser reconhecida como simultaneamente razoável e negra: ‘[Quando] eu estava presente, não estava; quando estava lá, não estava mais’. O resultado final é o colapso: ‘Ontem, abrindo os olhos ao mundo, vi o céu se contorcer de lado a lado. Quis me levantar, mas um silêncio sem vísceras atirou sobre mim suas asas paralisadas. Irresponsável, a cavalo entre o Nada e o Infinito, comecei a chorar’.”
 

Edição: Leandro Melito

Imagem: “Nos revoltamos simplesmente porque por muitas razões não podemos mais respirar.” Arte homenageia Fanon – Tony Webster/ Wikicommons

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