A crise da democracia não está em Brasília, mas na Favela do Areião

Por Fausto Salvadori, da Ponte Jornalismo

Enquanto te enterravam no cemitério judeu / do Caju / (e o clarão de teu olhar soterrado / resistindo ainda) / o táxi corria comigo à borda da Lagoa / na direção de Botafogo / as pedras e as nuvens e as árvores / no vento / mostravam alegremente / que não dependem de nós. Não, não estou mencionando esse poema de Ferreira Gullar, sobre a morte de Clarice Lispector, para falar dos tantos sepultamentos em série que passaram a encher os cemitérios das capitais, seja a multidão anônima, e cada vez mais pobre e preta, das vítimas da Covid-19, sejam os artistas tão queridos, e tão a cara do Brasil, como Moraes Moreira, Rubem Fonseca e Aldir Blanc, que deram para ir embora todos de uma vez, como se não aguentassem mais continuar no Brasil desses dias.

Lembrei do poema porque queria falar dessa sensação, evocada nesses versos, e que todo mundo que já perdeu uma pessoa amada conhece, de como é estranho ver a vida, o universo e tudo o mais seguirem indiferentes ao nosso fim e à nossa perda, como se nada houvesse acontecido. A vontade, nessas horas, é que tudo pare e que até o sol se recolha antes da hora, em protesto. Os gregos, por sinal, diziam que alguns crimes eram capazes de fazer o próprio sol recuar. Gosto de pensar como eles: o horror de alguns crimes deveria, mesmo, ser capaz de mudar a ordem das coisas. Deveria ser capaz de alterar, até, a capacidade que a gente tem de permanecer indiferente, algo que às vezes pode parecer tão imutável quanto o dia e a noite.

Mesmo em tempos de coronavírus e Bolsonaro, a vida nacional bem que podia ter deixado todos os assuntos de lado, por alguns instantes que fosse, e olhado para a morte de David Nascimento dos Santos. Vendia bala no farol e fazia música contando seu presente como se fosse passado: “Ficava no farol só para ganhar um trocado/Hoje eu estou suave, uma fiel tenho ao lado”. Não chegou a ver o futuro que cantava, pois foi morto pela PM aos 23 anos.

A última imagem de David com vida, feita por uma câmera de segurança e revelada pela Ponte, mostra David sendo colocado em uma viatura policial, durante uma abordagem da PM na Favela do Areião, em São Paulo. Segundo a família, ele esperava a chegada de um lanche, pedido via aplicativo. Um jovem, negro, à noite, parado na rua de uma favela: é tão certo, como o dia e a noite, que ele seria abordado pela Polícia Militar. David foi encontro morto horas depois, com marca de tiros, e os policiais contaram as histórias que sempre contam, dizendo que tinham atirado nele durante troca de tiros. Não fossem as imagens de uma câmera, suas mentiras teriam sido aceitas como verdade.

Que isso não tenha virado um escândalo nacional, tão explosivo quanto qualquer print do celular de Sérgio Moro, mostra como o Brasil se importa pouco com a vida humana quando ela tem a pele preta. Veja bem. As imagens mostravam um jovem de 23 anos entrando, sem oferecer resistência, dentro de um automóvel do Estado, colocado ali por agentes do Estado, pagos para manter a segurança dele. E esse jovem foi morto. Se a gente levasse todas as vidas a sério, as últimas imagens da vida de David deveriam estar sendo repetidas dia e noite em todos os telejornais e todas as autoridades, a começar pelo governador João Doria, deveriam se sentir obrigadas a vir a público e responder sobre esse crime. O sol bem que podia mudar de curso numa hora dessas.

Ponte foi criada para isso: trazer histórias como a de David para o centro do debate nacional. A morte dele é um sintoma de como a democracia brasileira está e sempre esteve doente. Um sintoma tão sério, aliás, quanto qualquer bravata ou canetada de Bolsonaro. Quando o País perceber isso, que o que acontece nas vielas da Favela do Areião dizem tanto sobre o estado da nossa democracia quanto qualquer escaramuça ambientada na Praça dos Três Poderes, aí, quem sabe, começaremos a consertar o quanto de errado fabricamos em séculos de história torta.  

Imagem: David Nascimento dos Santos, 23 anos, foi morto depois de ser colocado dentro de uma viatura do Baep, na periferia de SP | Foto: arquivo pessoal

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