Estudantes da UFPE, em Caruaru, adaptam enredo do ‘Auto da Compadecida’ para o período de pandemia do coronavírus

Projeto é uma adaptação livre da obra de Ariano Suassuna. Lançado em podcast, o trabalho traz o cangaceiro Severino de Aracaju como o Capitão Covid, que é alérgico a sabão.

Por Joalline Nascimento, G1 Caruaru

A ideia de transformar o cangaceiro Severino de Aracaju, da obra “Auto da Compadecida”, no Capitão Covid bem que poderia ter sido de João Grilo, mas não foi. A proposta surgiu em um projeto de extensão do curso de comunicação social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Caruaru, no Agreste. Sob a orientação de duas professoras, os estudantes desenvolveram o “Auto da Compadecida em tempos de pandemia” – um podcast em formato de radionovela.

Dentro do projeto de extensão “Radionovela: Literatura nas Ondas do Rádio”, os alunos de comunicação já tinham começado a adaptar a obra de Ariano Suassuna de forma fiel, mas antes da pandemia do novo coronavírus, que acarretou na paralisação das aulas. Com isso, a professora e coordenadora do projeto, Giovana Mesquita, teve a ideia de trazer o Auto da Compadecida para os dias atuais, inserindo a Covid-19.

“Ela sugeriu transformar o capitão Severino de Aracaju no Capitão Covid. A nossa adaptação é uma adaptação livre da obra de Ariano. Pegamos os personagens clássicos do Auto da Compadecida e inserimos eles dentro do contexto da pandemia. Taperoá [cidade paraibana onde a história se passa], na adaptação, lida com a chegada desse capitão e, depois, com a presença dele nas terras.Também incluímos novos personagens e novas situações”, detalhou o estudante Gabriel Pedroza, de 20 anos.

Para a professora da UFPE e coordenadora do projeto, o engajamento dos estudantes para o desenvolvimento foi total. “Eles estão super motivados, empenhados, sobretudo, porque têm a noção de que contribuem, de alguma forma, chamando atenção para um problema tão sério quanto a pandemia”, pontuou Giovana Mesquita.

Figuras como João Grilo, Chicó, o padeiro Eurico e a esposa deste, Dora, e o major Antônio Morais permanecem na adaptação. Entre os personagens que foram criados especialmente para o projeto estão: o prefeito de Taperoá e um radialista. “Com este último quisemos incluir o papel importante que a mídia tem de disseminar informações verídicas e de com ela está sendo atacada [neste período de pandemia]”, ressaltou Gabriel.

Ao G1, Giovana revelou que os alunos se preocuparam em realizar a produção sem as condições técnicas necessárias. “Eles entendiam que fazer tudo pelo WhatsApp prejudicaria o resultado final. Resolvemos apostar. E todos os dias da semana, os estudantes estão fazendo a produção, pós-produção, distribuição, divulgação e administração das redes sociais. Nós acompanhamos diariamente todo o trabalho deles. Temos um grupo e fazemos reuniões virtuais para ajustar cada episódio”, contou.

O primeiro episódio do podcast, nomeado “O Capitão Covid está vindo”, foi disponibilizado nas plataformas digitais na quarta-feira (6). Nele, surge a notícia de que o Capitão Covid está a caminho de Taperoá e que ele é alérgico a sabão – fazendo um alusão à importância de lavar as mãos e dos cuidados com a higiene pessoal no combate ao coronavírus.

O major Antônio Morais continua com o mesmo perfil que foi criado: autoritário e que abusa do poder. No primeiro episódio da adaptação, a figura dele se mostra incrédula diante da pandemia e, desta forma, influencia o prefeito de Taperoá a não seguir as determinações de isolamento.

“Quisemos trazer de forma lúdica a situação da pandemia. Por exemplo, dentro do texto a gente incluiu a disseminação de notícias falsas [as chamadas fake news] e do perigo que isso traz. Incluímos a briga econômica, as críticas ao isolamento social, a exploração dos mais pobres. Ariano, no livro, denuncia temas que incomodam a sociedade, como o mundanismo dentro da igreja, a corrupção… A escolha da obra não foi à toa. A gente quis trazer esse tema de uma maneira que se torne atrativa para o ouvinte, mas de uma forma que faça ele pensar e ver a realidade que temos hoje”, finalizou o estudante.

podcast está disponível no Spotify e também no Instagram do projeto. Os capítulos têm cerca de sete minutos de duração.

Como surgiu o projeto de extensão?

O projeto surgiu a partir de um trabalho desenvolvido por Gabriel Pedroza para a disciplina de rádio, quando ele adaptou o livro “Senhora”, de José de Alencar para a modalidade de radionovela. “Minhas professoras, que são as coordenadoras do projeto, Sheila Borges e Giovana Mesquita, gostaram bastante do produto e propuseram transformá-lo em um projeto de extensão da universidade”, lembrou.

O objetivo principal do projeto de extensão é adaptar livros de autores nordestinos em formato de radionovela para ajudar estudantes de Enem e vestibulares “de forma que a linguagem do rádio torne mais simples as linguagens de obras que muitas vezes são muito densas para esses estudantes”, completou Gabriel.

‘O Capitão Covid está vindo’ é o primeiro episódio do podcast desenvolvido por estudantes da UFPE, em Caruaru — Foto: Instagram/Reprodução

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Íris Morais Araújo

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