Mariana/MG confirma 59 casos de trabalhadores da mineração com coronavírus

No Mab

No dia 20 de maio começaram a aparecer denúncias de que havia trabalhadores com Covid-19 nas obras de reparação em Mariana referentes ao crime da Samarco, Vale e BHP Billinton. A Renova havia parado suas obras no final de março devido à pandemia, mas retornou no final de abril. 

No dia 21 de maio, de posse dessas denúncias, a prefeitura fez a paralisação das obras dos reassentamentos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo e os trabalhadores retornaram para a área urbana de Mariana nos ônibus das empresas terceirizadas. Foi emitida uma recomendação técnica (nº 35) pela prefeitura que determinou a paralisação das obras dos reassentamentos, da praça central da cidade (Jardim) e de estruturas rurais, até o dia 31 de maio. 

No dia seguinte a essa ação, 22 de maio, o boletim de saúde da prefeitura de Mariana informava que do total de casos confirmados de Covid-19 no município eram de 21 trabalhadores da Vale, da Fundação Renova e suas terceirizadas. No dia 25 de maio, eram 36 trabalhadores dessas empresas confirmados pelo teste rápido do município. Hoje já são 59 casos confirmados só dos trabalhadores da mineração. 

A prefeitura de Mariana aprovou a volta das obras da Renova através da apresentação de um plano que continha algumas regras a serem cumpridas. De acordo com a prefeitura alguns desses critérios não foram cumpridos, como a não contratação de trabalhadores advindos de outras regiões do país; a atuação desses trabalhadores apenas na área rural, (mas eles moram na área urbana e transitam pela cidade); a apresentação da descrição clara de ações de testagem rápida, monitoramento e isolamento de casos suspeitos e confirmados, e a comunicação desses casos ao Comitê Gestor de Enfrentamento ao coronavírus. Devido a todos esses descumprimentos e a testagem positiva de alguns funcionários, a prefeitura interrompeu as obras e deu prazo para que a Renova apresente um plano de como irá lidar com essas questões.

A Renova e as terceirizadas vêm tentando voltar as atividades também no município de Barra Longa, vizinho a Mariana, através de reuniões e convites para treinamento dos trabalhadores, o que pode gerar a movimentação dos funcionários de uma cidade para a outra e levar o vírus para Barra Longa. Até agora essas ações não aconteceram de fato, mas as denúncias de trabalhadores e moradores são recorrentes. 

Nesse momento é muito importante refletir sobre quais os objetivos da Fundação Renova com toda essa boa vontade em retomar as atividades de reparação. Essa boa vontade é estranha aos atingidos, principalmente quando esses querem negociar com a Renova qual ação deve ser feita e de qual maneira. A Fundação nunca foi honesta em suas atividades e obras de reparação, nunca teve pressa em pagar indenização a um atingido, muito menos, teve pressa em construir casas ou reassentamentos coletivos. 

Essa pressa em retomar as atividades tem como um dos objetivos aproveitar o momento de limitação dos atingidos em participar dos rumos das obras de reparação para fazê-las da forma planejada pela Fundação Renova, sem a interferência dos atingidos e suas críticas. Cerca de 45% das famílias de Bento Rodrigues estão insatisfeitas com o projeto do reassentamento da comunidade. Seguir as obras em um momento de pandemia é fazê-las sem a presença dos atingidos para fiscalizá-las e sem a necessidade de participar de reuniões onde os atingidos questionam os detalhes das obras. 

Outro objetivo de seguir as obras nesse momento é fazer propaganda de que elas estão seguindo e mostrar o compromisso da Renova com a reparação. Isso é algo que nunca existiu. Se houvesse algum compromisso da Renova, de fato, com a reparação, não estaríamos, após quase 5 anos do crime, com nenhuma casa construída nos reassentamentos e com quase a metade da comunidade insatisfeita com a nova localidade. 

É fato que a Renova vai usar o atraso gerado pela pandemia para justificar o atraso em suas obras, atraso esse que já existia antes da pandemia. 

Não se pode esquecer que a Vale também contribui para o quadro de agravamento da situação da pandemia em Mariana, uma vez que continua suas atividades de mineração, com trabalhadores advindos de diversos locais do país e que vivem na cidade e comunidades rurais, para onde podem levar o vírus. Esse é outro capítulo das irresponsabilidades das mineradoras, que buscam apenas o lucro. Além disso, o governo federal favorece essas empresas ao colocar a mineração como atividade essencial. É preciso perguntar para quem a mineração é essencial nesse momento. 

Os trabalhadores seguem sofrendo com o medo de ir trabalhar, se contaminar e levar o vírus para suas famílias e comunidades e também com o medo de não ir trabalhar e perderem o emprego. É preciso que seja tomada uma série de medidas que paralise as atividades da Fundação Renova e das mineradoras, e garanta empregos, salários e benefícios aos trabalhadores, para que seus direitos à segurança e saúde sejam assegurados. Os trabalhadores e as comunidades devem continuar denunciando a ação dessas empresas que mais uma vez cometem crimes.

Imagem: Samarco/Divulgação 

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