“É um erro grave assumir a reabertura. Vai custar a vida de um monte de brasileiros”

O médico sanitarista Gonzalo Vecina afirma que o Brasil não atingiu o platô de contágios e comenta as falhas do País diante o covid-19

Por Ana Luiza Basílio, na CartaCapital

No momento em que a maioria dos estados brasileiros avança com a retomada de suas atividades econômicas, liberando até mesmo locais mais propensos a aglomerações, como bares e restaurantes, o médico sanitarista Gonzalo Vecina é taxatixo. “É um erro assumir a reabertura, um erro grave, que vai custar a vida de um monte de brasileiros”, atesta em entrevista à CartaCapital.

Para Vecina, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), tais atividades só deveriam ser pensadas, e não retomadas, “se nós tivéssemos 14 dias consecutivos de queda de casos novos, o que não é o caso”.

O profissional afirma que, embora o País apresente uma redução da velocidade do crescimento de sua curva de contágio, não alcançou o platô, nem muito menos caminha para um movimento descendente.

Carta Capital: É possível afirmar com segurança que o Brasil atingiu um platô em sua curva de contágio?

Gonzalo Vecina: Não, o Brasil não atingiu o platô em sua curva de contágio. O Brasil está, neste momento, numa redução da velocidade de crescimento da curva, mas ele não alcançou o platô, muito menos está descendente.

CC: Quais fatores permitiriam essa segurança?

GV: Basicamente, ter um determinado tempo sem crescimento no número de casos e nós não temos um período de não crescimento no número de casos, tanto considerando o Brasil como um todo, como por regiões.

CC: Estamos diante de um momento de retomada de atividades na maior parte dos estados, caso de São Paulo e Rio de Janeiro, com a reabertura de bares, restaurantes, academias e cinemas. Há segurança para esses avanços?

GV: Não há segurança para esses eventos. Eles só deveriam ser pensados, não retomados, se nós tivéssemos 14 dias consecutivos de queda de casos novos. Nós não temos queda, ainda estamos subindo, menos, mas não chegamos ao platô. Então é um erro assumir a reabertura, a flexibilização do comércio, um erro grave que vai custar um monte de vida de brasileiros.

CC: O senhor reconhece algum país que tenha colocado em prática algum protocolo sanitário mais eficaz na retomada das atividades econômicas?

GV: Muitos. A China com certeza, Cingapura, Coreia e Nova Zelândia, que é um exemplo mundial. Praticamente, boa parte dos países mais civilizados da Europa: Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, França, Noruega, Dinamarca, com exceção da Suécia, todos os outros países têm protocolos melhores do que nós temos.

CC: Qual seria o momento ideal de se pensar em retomar a economia, aliada a um controle de casos e mortes?

GV: Tem que ter pelo menos duas coisas. A primeira é queda no número de casos novos de pelo menos 14 dias consecutivos. Além disso, as taxas de ocupação das UTIs devem estar abaixo de algum número razoável, 70 ou 60%. Seria interessante ainda verificar, pelas antenas dos celulares, o grau de isolamento social, que também deveria estar em torno de 50%. Quando a gente fala em flexibilização, não é liberou geral. É permitir que alguma coisa funcione sob determinadas condições. Então tem que existir ainda um grau de isolamento social importante. Não dá pra falar voltamos, não é a normalidade, é o período que você faz alguma flexibilização porque na medida em que aumente o número de contatos, teremos o aumento de número de casos e teremos que fechar novamente. Aí serão ondas consecutivas de abre e fecha. As pessoas precisam entender isso, ou pelo menos quem toma as decisões precisa entender isso.

CC: O País tem, até o momento, mais de 65 mil mortos e mais de 1,6 milhão de casos. O quanto esses números refletem a real situação da pandemia no País?

GV: Não refletem. E por que não refletem? Porque não estamos testando. Nós sabemos que o número de mortos é maior do que o que está anunciado. Existe um conjunto de mortos por síndrome aguda respiratória grave (SRAG) que são diagnósticos provisórios que nunca se constatarão porque não foi feito o teste de RT-PCR no óbito. Então, como esse é o único de determinar se a pessoa morreu de covid-19, quem aparentemente morrer de uma SRAG vai continuar com esse diagnóstico que é sindrômico, não um diagnóstico de certeza. É complexo de entender. Quando você olha o número de mortos em 2017, 2018 e 2019 por síndrome respiratória aguda grave e compara com o número em 2020, até abril, esse número, só no mês de abril, é igual ao ano inteiro dos três anos anteriores, ou seja, nós temos um monte de mortes declaradas como síndrome respiratória aguda grave e que, provavelmente, são covid-19. Estamos subnotificando. Os testes de prevalência que estamos realizando agora na Universidade Federal de Pelotas e os comandados pelo Fernando Reinach na cidade de São Paulo indicam que estamos sub registrando pelo menos quatro vezes tanto o número de casos novos como o de mortes.

CC: Como o senhor avalia a condução das políticas brasileiras no enfrentamento ao covid-19? Por que o País se tornou o segundo do mundo em número de casos e mortes?

GV: São duas coisas diferentes. Primeiro, não existe política brasileira. Existem políticas municipais, estaduais, mas o Ministério da Saúde nunca teve uma política brasileira nem no tempo do Mandetta. Agora, sobre o País ter se tornado o segundo do mundo em casos e mortes, o Brasil é um país grande, com 210 milhões de habitantes. Temos mais gente do que a Rússia, do que um monte desses países. Tem países que podem ter uma quantidade de gente semelhante, por exemplo a Indonésia, a Nigéria, mas não tem um sistema de notificação confiável. Agora, existem países maiores, caso da China e Índia. Na China temos um controle humano militar e na Índia mais ou menos a mesma coisa. É uma democracia mas o controle sanitário que está sendo executado, os lockdowns que estão sendo realizados em Bombai e etc são muito mais violentos e ela não tem um sistema de viligância epidemiológica que mereça esse nome. Existem cemitérios clandestinos, não existem registros de nascimentos e mortes que mereçam essa confiança. Então, o fato do Brasil ter um número elevado de casos e mortes tem mais a ver com a sua demografia e com o momento que estamos enfrentando e, em partes, com o fato de que as políticas públicas, particularmente no que diz respeito a isolamento social e testagem, não foram adequadamente executadas.

CC: De acordo com o painel do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), os números de mortes têm tido variações nas semanas epidemiológicas. Mas o número de casos só cresce. O que esses dados dizem sobre o caminhar da epidemia? Em que momento estamos?

GV: Esses dados dizem que nós não temos um controle muito bom, quer dizer, abre, fecha, abre, fecha. Nas periferias das grandes cidades nem abre, nem fecha, continua tudo aberto. É só ver as estatísticas da mortalidade. Morre mais preto, pardo, pobre, gente da periferia. E por quê? Porque tem que se deslocar pra conseguir comida, porque o Estado brasileiro não está sendo capaz de prover assistência social para esses povos. Não vejo com nenhuma surpresa o crescimento de casos. Só vão deixar de crescer quando atingirmos uma imunidade coletiva e não tivermos mais gente para ficar doente.

CC: O estado do Amazonas, por exemplo, já foi muito castigado pela pandemia e anunciou colapso de sua rede de atendimento público. Hoje, não se encontra entre os mais afetados, mas sustenta a maior taxa de mortalidade do País, segundo o Conass. O que isso significa do ponto de vista epidemiológico?

GV: Significa que uma primeira onda passou por Manaus. Agora estamos vivendo uma segunda onda que não está mais passando por Manaus, mas pelo interior. No interior do Amazonas nenhuma cidade tem leito de UTI. Vai morrer um monte de gente ainda. Espero que a gente consiga, por meio de algumas ações via Médicos sem Fronteiras, Exército, proteger os índios. E ainda que ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) consiga fazer isso em Roraima com os venezuelanos. Mas está acontecendo o óbvio infelizmente, não há nada de surpreendente.

CC: Pernambuco e Rio de Janeiro, por sua vez, têm as maiores taxas de letalidade do País. O que esses dados dizem do ponto de vista epidemiológico? Que tipo de atenção requer?

GV: Esses dados refletem duas realidades. Primeiro, a incapacidade de se conduzir o isolamento social e junto com isso a questão da testagem e de isolar quem testa positivo. Uma pessoa que testa positivo, se isolada, deixa de contaminar mais duas. Nós não estamos fazendo isso. A segunda questão infelizmente demonstra o fato de que a prática médica, particularmente nas unidades de tratamento intensivo, está sendo de pior qualidade em relação às cidades que têm uma mortalidade menor.

CC: Já em relação às taxas de incidência, temos taxas altas nos estados do Norte e Nordeste. O que esses números significam?

GV: As taxas de incidência nada mais são do que os números de casos. As taxas mais altas indicam que as pessoas estão na rua, não estão sendo bloqueadas e nem testadas, e nem isoladas quando testam positivo, pra deixarem de fazer pelo menos mais dois casos.

CC: É possível alguma futorologia de quando o Brasil pode controlar a pandemia ou caminhar para uma saída?

GV: Ninguém arriscou esse caminho e eu também não vou, mas, com certeza, em algum momento, ou a gente contamina todo mundo ou chega a vacina, o que não sei se vai acontecer ainda este ano. Eu espero que a vacina chegue ao Brasil entre o final deste ano e o início do ano que vem. Se o governo federal tomar as devidas providências no sentido de que tenhamos acesso à vacina, ou seja, compremos vacina mesmo sem saber se vai dar certo ou não, em uma ação de risco, talvez tenhamos uma parte da solução no início do ano que vem.

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