Evento na Fiocruz debate saúde indígena e pandemia

Roberta dos Santos, CCS/Fiocruz

O Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz realizou, na última quarta-feira (16/09), um encontro virtual de formação abordando o tema A Saúde indígena em tempos de pandemia. Os convidados para o evento foram a presidente do Sindicato Nacional dos Profissionais e Trabalhadores de Saúde Indígena, Carmem Pankararu, da etnia de mesmo nome (Pankararu), cujo território ocupa os municípios de Petrolândia, Tacaratu e Jatobá, no sertão de Pernambuco; e o pesquisador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI) e fundador do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, João Paulo, da etnia Yepamahsã (Tukano), do município de São Gabriel da Cachoeira (AM). A pesquisadora e antropóloga do Laboratório Território, Ambiente, Saúde e Sustentabilidade do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), Fabiane Santos, mediou o encontro.

Segundo Carmem Pankararu, tratar da pandemia do novo coronavírus com os povos indígenas é um desafio muito grande, que se soma a outros tantos enfrentados pela população, como a precariedade social, econômica, alimentar e a falta de informação. As limitações nos territórios indígenas, a falta de saneamento básico, as infecções recorrentes e as doenças crônicas, como a diabetes e hipertensão, tornam as populações indígenas um grupo ainda mais vulnerável à epidemia atual.

“Nossa principal dificuldade hoje é o isolamento dentro da aldeia, pois há falta de alimentos e de água potável para higienização. Com isso, os indígenas precisam sair para trabalhar, vender seus artesanatos, buscar os recursos necessários para sobreviver. E quando eles voltam para a comunidade, acabam contaminando quem está ao redor”, declarou Carmem. 

Para a presidente do Sindicato, a precarização na estrutura dos hospitais dos pequenos municípios e cidades em que a maioria das áreas indígenas está localizada ajudou no agravamento da Covid-19 e coloca ainda mais em risco a sobrevivência da população. “Quando os indígenas precisam ser atendidos nas redes de média e alta complexidade, há uma falta de estruturação e espaço para auxiliá-los. Não há alas, assistência ou recursos suficientes para impedir o avanço da doença, que chega hoje à um número alarmante de casos e óbitos na população. Além disso, alguns povos estão muitos distantes de um centro de unidade de terapia intensiva”, afirmou Carmem. 

Já de acordo com João Paulo, as práticas indígenas no tratamento de doenças são ignoradas por causa do preconceito com a cultura da população, quando deviam ser complementares ao conhecimento científico tradicional. Como a pandemia da Covid-19 é muito recente e há pouco conhecimento sobre o novo coronavírus, surge a necessidade de unir os conhecimentos e habilidades. Quando os primeiros casos de Covid-19 apareceram na população, mostrou-se necessário colocar em prática a sabedoria medicinal dos povos, atrelada às técnicas medicinais convencionais.

“Sempre enfrentamos epidemias, como a do sarampo e da gripe, e tivemos nossas estratégias de prevenção e proteção. Então a Covid veio exatamente para os povos indígenas mostrarem os conhecimentos que foram obrigados a negar”, ressaltou ele. 

O encontro virtual do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz teve tradução para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), em acordo com a política institucional para implementação de medidas de acessibilidade comunicacional. A atividade está disponível na íntegra no canal da distribuidora VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz no YouTube

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