Enquanto promete proteção ambiental no exterior, Bolsonaro toca a “boiada” no Brasil

ClimaInfo

As suspeitas de governos e investidores internacionais sobre as reais pretensões ambientais de Bolsonaro se sustentam principalmente na discrepância entre o discurso para o público estrangeiro e a prática da “boiada” dentro do país. Curiosamente, o governo federal parece pouco disposto a alinhar uma coisa com a outra, mesmo sob o risco de prejudicar a economia brasileira.

Lá fora, o tom é “nos ajude para te ajudar”. Em mais um encontro virtual com o enviado especial dos EUA para o clima, John Kerry, Ricardo Salles e o chanceler Carlos França repetiram as promessas feitas por Bolsonaro durante a Cúpula Climática – zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030 e atingir a neutralidade das emissões de carbono até 2050. Mais uma vez, eles também reforçaram a necessidade de recursos externos para facilitar o cumprimento dessas promessas – EstadãoFolhaO Globo e UOL deram mais informações.

Já aqui dentro, o tom segue sendo o “tocar a boiada” sobre as leis e as políticas ambientais. Em um evento com ruralistas, Bolsonaro defendeu que a redução substancial das multas ambientais sob a atual administração é um “avanço” – mesmo em meio a uma das escaladas mais agressivas de destruição ambiental no Brasil nas últimas décadas. “A quantidade de multa caiu bastante porque preferimos entrar pelo lado, primeiro, do aconselhamento, das observações. Em último caso, a questão das multagens [sic]”, disse o presidente – sem falar, obviamente, que esse modelo resultou em uma paralisia completa da responsabilização judicial dos criminosos ambientais, sem o pagamento das multas. Para Bolsonaro, isso “trouxe paz e tranquilidade para o produtor rural” (mesmo que ao custo de prejudicar ainda mais a imagem da agricultura brasileira no exterior). O Globo e UOL citaram o presidente.

Bolsonaro também parece querer, a título de promover a “paz e tranquilidade” dos produtores rurais, passar a boiada sobre as leis que envolvem o trabalho análogo à escravidão. O presidente questionou a legislação e afirmou que não pretende regulamentar a Emenda Constitucional 81, que determina a expropriação das propriedades rurais com registro de exploração de trabalho escravo. Para ele, mais grave do que penalizar os que abusam dos trabalhadores é atentar contra a propriedade privada dos abusadores. Folha e G1 deram mais detalhes.

Em tempo: De maneira deprimente, as Forças Armadas encerraram na 6a feira (30/4) a Operação Verde Brasil 2, que desde maio do ano passado vinha alegando trabalhar no apoio à fiscalização e ao combate ao desmatamento e às queimadas na Amazônia. Como apontado no Globo Rural, se considerarmos o volume de recursos públicos despendidos e os resultados obtidos, o balanço da operação é negativo. Talvez por isso, o ministério da defesa sequer se deu ao trabalho de responder ao pedido do vice-presidente Mourão de uma prorrogação das ações militares na floresta, informou o G1. A nova “bala de prata” de Bolsonaro para a Amazônia parece ser o uso da Força Nacional de Segurança Pública no lugar do Exército: segundo o Estadão, o governo vai destinar R$ 23 milhões de multas ambientais negociadas com a Petrobras para apoiar a atuação desse contingente nos próximos meses. Ao invés de destinar os recursos aos órgãos ambientais, como Ibama e ICMBio, que vivem situação de penúria. O UOL também abordou o envio da FNSP à Amazônia.

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