Contra a sabotagem, mobilização social

Bloqueio das rodovias por bandos de ultradireita, com cumplicidade da PRF, confirma: Lula viverá sob pressão permanente e Bolsonaro, como Trump, tentará se manter como sombra. Para governar, será preciso ter, também, maioria nas ruas

Por Antonio Martins, em Outras Palavras

“É um assalto ao Capitólio à la Bolsonaro”, alertou a deputada Marina Silva (Rede-SP) ainda na segunda-feira (31/10), ao comentar os bloqueios, que então começavam a se instalar, em dezenas de estradas brasileiras. Ela tem razão, em muitos sentidos. Nas primeiras horas de hoje, ficou claro que, como nos Estados Unidos, a tentativa de melar as eleições presidenciais brasileiras articula pequenos bandos de extrema direita e setores do aparato de segurança de Estado – no caso, a Polícia Rodoviária Federal (PRF). O desrespeito, pelo órgão, à decisão do STF, que determinou a liberação das rodovias, é ostensivo. Assim como nos EUA, não há chance alguma de a tentativa golpista prosperar agora. Mas ela é mantida mesmo assim, porque seus objetivos são de longo prazo. No caso norte-americano não houve, pelo governo Biden, apelo a mobilização popular contra a sabotagem. Por isso, Trump cresceu. No Brasil, pode ser diferente.

* * *

Na manhã desta terça (1º/11), o quadro de cumplicidade entre extremistas e a PRF era nítido. Havia 272 trechos de rodovias bloqueados, feitos sempre por pequenos grupos. Pediam “intervenção militar” contra a vitória de Lula nas urnas e se utilizam de caminhões atravessados nas pistas ou barreiras de pneus incendiados. Mas não pareciam ser, em sua maioria, caminhoneiros. Havia registros de carros e motos de luxo envolvidos.

Dezenas de rodovias que ligam rotas cruciais (São Paulo-Rio, por exemplo) estavam cortadas. Os acessos a aeroportos como os de Guarulhos e Viracopos (em SP) e a algumas artérias urbanas (como as marginais dos rios Tietê e Pinheiros), também. O caos estendia-se aos terminais rodoviários, onde milhares de passageiros se afligiam diante da impossibilidade de viajar.

Porém, os pequenos bandos que tentavam paralisar o país só tinham força por contarem com o apoio sem disfarces da PRF. Os noticiários desta manhã exibiram inúmeras imagens em que as viaturas policiais, além de não desfazerem os bloqueios, os engrossam. Em muitas das cenas, fica claro que havia mais agentes da PRF que “manifestantes”.

Em condições normais, este tipo de atitude, por parte da polícia rodoviária já seria um acinte à população. Mas agora há o agravante de contrariar ordem judicial explícita da corte mais alta do país. Na noite de ontem, o ministro Alexandre Moraes, do Supremo Tribunal Federal, havia determinado à PRF a liberação das rodovias a partir da meia noite – sob pena de multa milionária e prisão em flagrante de seu comandante, Silvinei Vasques. Na madrugada, o plenário do STF, convocado em caráter de urgência por sua presidente, formou maioria em favor da decisão.

Ela foi solenemente ignorada por Silvinei, que anunciou apenas uma entrevista coletiva para as 11h desta terça. Trata-se da mesma polícia que, no dia das eleições, realizou supostas “operações de vistoria” seletivas – apenas no Nordeste – que dificultaram o acesso de centenas de milhares de nordestinos às urnas. Trata-se do mesmo comandante que, em 30/10, publicou em rede social (e depois apagou), post favorável a Bolsonaro. E é, também, o mesmo órgão que, conforme relatou com brilhantismo o repórter Allan de Abreu na revista Piauí foi meticulosamente aparelhado por Bolsonaro, para se transformar em uma espécie de polícia política antirrepublicana.

* * *

Do ponto de vista imediato, os bloqueios estão fadados a fracassar. Além de pouco numerosos, seus integrantes estão isolados. No Brasil, a vitória de Lula foi reconhecida por todo o espectro político – inclusive pelo vice-presidente Hamilton Mourão. O mesmo se dá no exterior. Se as ações prosseguem mesmo assim, é porque fazem parte de um projeto maior. Vale examinar, como sugeriu ontem Boaventura de Sousa Santos, o caso dos Estados Unidos, Donald Trump e Steve Bannon. De lá provém, como foi fartamente documentado nos últimos anos, a orientação política para a extrema direita brasileira – a começar de Jair Bolsonaro e seus filhos.

Toda a tática de Trump, a partir da “tomada” do Capitólio, visou dois objetivos centrais: a) indicar que a extrema direita está pronta para agir e disposta a usar a força; b) ganhar a batalha crucial pela supremacia nas ruas. Este segundo ponto é o mais importante. Ele empareda as forças que desejam a mudança. Se são incapazes de mobilizar a sociedade, elas tornam-se reféns das instituições – Congresso, Judiciário, mídia – onde pode não haver fascismo, mas há certamente compromisso com os privilégios das minorias.

* * *

A partir das 11h de terça-feira (1º/11), após nova ordem do ministro Alexandre de Moraes, as polícias militares estaduais começaram timidamente a fazer o desbloqueio das rodovias. Aparentemente (e ao contrário do que o Moraes determinou), os que os praticaram não foram nem identificados, nem multados. Não deve haver ilusões. Os atos são muito mais que a ação de grupos tresloucados, ou de populares bolsonaristas que lamentam a derrota eleitoral. São parte de um projeto para garantir – a partir de agora, e o quanto antes – a volta do fascismo ao governo.

Felizmente, há antídotos para isso. Na noite do último (30/10), um milhão de pessoas coalharam a Avenida Paulista, para ouvir um Lula vitorioso e eletrizado. Enormes manifestações espalharam-se por todo o país. O presidente recém-eleito voltou a mencionar um tema-chave, que tem feito parte de seus discursos mais recentes: a reconstrução do Brasil, em novas bases. Em ocasiões anteriores, ele havia mencionado a disposição de quebrar os sigilos decretados por Bolsonaro sobre atos de governo, o que pode abrir caminho para que o Judiciário promova o processo e condenação criminal.

São excelentes pontos de partida. Mas é preciso compreender que mobilizações como a de domingo – tão raras nos últimos tempos – precisarão se repetir muito, nos próximos quatro anos. A ideia reconstrução nacional livra Lula de uma postura voltada para o passado, que havia prevalecido em boa parte de sua campanha. A quebra dos sigilos de cem anos pode ajudar a colocar Bolsonaro na defensiva – e quiçá, na cadeia. E os fatos gravíssimos dos últimos dias apontam a necessidade de uma vasta limpeza e reestruturação no aparato policial – principalmente na PRF. Mas o bolsonarismo não acabará tão cedo, nem se dissolverá. E ter supremacia nas ruas será essencial para derrotá-lo.

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

três × dois =