Uma cena da eleição e duas palavras sobre a vitória. Por Juliana Monteiro 

Na Revista Pessoa

Na Piazza Navona, onde votamos, conheci uma senhora brasileira que me fez agradável companhia. Enquanto conversávamos, chegou outra mulher que, ao se apresentar, disse onde trabalhava. A primeira comentou, surpresa e gentil,

– Também trabalho lá, não nos conhecemos!

A resposta veio direta, cortante, altiva:

– Conhece, sim. Mas não me vê porque trabalho na faxina.

Sorriu um sorriso duro, mas sincero. Que não recuava do dito, mas sem rancor nem enfrentamento.

Éramos três mulheres no meio de uma das praças mais famosas do mundo e encenávamos um pequeno pastiche da ferida estrutural brasileira. Desnecessário dizer qual das minhas interlocutoras era branca. Mas talvez seja relevante contar que a mulher que chegou depois estava tão bem arrumada quanto a primeira. Fez-se algum mal-estar que dissipamos rapidamente. Estávamos reunidas pela mesma causa e, embora apreensivas, estávamos felizes. Sabíamos da importância de eleger Lula. Não pude deixar de pensar que o nosso lado, o dos progressistas, tem muitos lados. E que mesmo o mais bem intencionado socialista brasileiro, antes e depois de trabalhar por um mundo melhor, é capaz de ver sem enxergar a pessoa responsável pela faxina.

Pensei nas contradições que alienamos para manter de pé nosso arremedo democrático. Na perversidade que mantém mais ou menos intactas essas contradições a cada eleição. Não é de espantar que o significante “democracia” tenha o significado brutalmente esvaziado quanto menor a classe social do sujeito. A democracia defendida nos condomínios não atravessa seus muros. O catador de latinhas a conhece só de ouvir falar, ainda que participe de seus ritos – ou seja usado neles.

Na frente do consulado estávamos todos de vermelho. Muita festa, música, capoeira, gente se reconhecendo e se abraçando, sem medo, em português. Há quatro anos, o clima na Piazza Navona era terrivelmente hostil. Se atravessei a praça com a camiseta do MST, abraçada com meu filho que tinha seis anos, foi graças ao temperamento desaforado que costuma me causar problemas, e não foi diferente. Fui vaiada e ofendida, mas mandei todo mundo tomar no cu. Meu filho ainda conta desse dia com o mesmo assombro.

Dessa vez, era notável que a maioria ali – entre os que faziam a festa antes e depois de votar e que ficou até a divulgação do resultado, brasileiros desterrados por motivos inumeráveis – era mestiça, trabalhadora e parte de alguma minoria política, mulheres, gays, travestis, pretos. No canto da praça, uma roda minguada, mal-humorada e silenciosa de verde-amarelo.

***

No palanque do presidente eleito estavam antigos companheiros porque Lula não descarta ninguém pelo caminho. E também os novos e novíssimos aliados. Adversários cujas divergências não os transformaram em inimigos porque Lula é desses. Eu faço o mea-culpa. Fui contra a escolha de Geraldo, achei que o custo não valia o benefício. Mas não teríamos chegado sem ele. E sem Simone. Sem Felipe, sem Anitta, sem FHC, sem Meirelles, sem Amoedo, sem Villa e Reinaldo. Sem mim e sem você. Tantos foram necessários para juntar os votos que, por ora, nos salvaram da barbárie.

No palco onde Lula discursou após a vitória tinha Amorim, Janones, Alckmin, Boulos, Dilma, Marina, Mercadante, Randolfe. Nós precisávamos de todos. E cada um que não se omitiu nessa eleição deve ser cumprimentado pelo serviço prestado à democracia. Todo respeito a quem apertou 13 pela primeira vez em 2022 contra o absurdo. Liberais, conservadores e direitistas, gente que votou com genuíno desgosto, contra suas convicções e vivências. Eu conheço muitos. Nossas várias divergências continuam no mesmo lugar, mas elas são a própria razão de ser da democracia, sua beleza, seu desafio e sua potência.

É do contraditório que extraímos a mais virtuosa matéria prima para a construção de uma sociedade justa e para todos. Por isso, é imprescindível que nosso adversário seja respeitável ou saímos todos apequenados da disputa. Pessoalmente, eu estava intoxicada com tanta mediocridade, com o mau gosto, com essa baixaria cotidiana e delirante que sequestrou o debate público no Brasil nos últimos anos.

O presidente demissionário subestimou os mortos que empilhou. As ofensas repetidas às mulheres, a truculência e desprezo pelo povo preto, o assassinato e roubo dos povos da floresta, os brasileiros pobres, o Nordeste. Que Lula governe prioritariamente para esses grupos. O presidente não lhes deve gratidão, não é disso que se trata, mas satisfação, reverência e serviço.

Meu desejo é que o governo eleito se implique na construção de uma democracia factual. Não podemos continuar chamando democracia um regime onde apenas o sufrágio é universal. O Estado de Direito e o Estado de Bem-Estar social também o devem ser. Uma pessoa que não tem onde morar ou o que comer não está instalada na democracia, mesmo que vote. É cidadão o sujeito que tem sua casa invadida sem mandato pelas autoridades? O que tem sua comunidade alvejada a esmo pela polícia? É democracia um regime que permite que um defensor da tortura, da morte e da desobediência às leis dispute a presidência da república? Eu acho que não. Defender torturador dentro do parlamento é quebra de decoro, deveria render a cassação dos direitos políticos porque esse sujeito não serve à democracia.

Eu quero uma democracia onde a barbárie não saia candidata porque nosso pacto não permite que ela se crie. Isso passa por acusar, julgar e punir os que cometeram crimes, é preciso acordar o que é inadmissível entre nós. Parlamentar armada perseguindo cidadãos no meio da rua não é admissível. Negligenciar a população durante uma emergência em que cada minuto significava a morte de brasileiros, também não. Discurso de ódio e de incitação à violência por autoridades públicas eleitas, não cabe. Impor, com abuso do poder político, a um país cuja constituição determina laico, o ideal de moralidade de uma só comunidade religiosa, por deus, não.

Eu desejo que uma direita democrática se insurja e ocupe seu lugar no debate público. Que os conservadores que respeitam e se dão ao respeito se organizem e se engrandeçam. Uma direita decente é necessária até para que a esquerda também o seja. A polarização civilizada só não interessa a autocratas e totalitários. O projeto derrotado não é polo de nada. É só perversidade, distração e crime. Espero nunca mais vê-lo disputando voto.

Como escreveu Saramago, sem pressa, mas sem perder tempo, devemos nos implicar na construção de uma verdadeira democracia. Investidos da potência que Deleuze definiu o sentido como “quando se diz que um pintor conquistou uma cor.” Uma democracia brasileira, que nos orgulhe e nos proteja.

***

Fiquei com meus filhos na Piazza Navona até que o consulado fixasse o resultado de todas as seções eleitorais de Roma. Já estava escurecendo, foi uma explosão de alegria. Escutei a voz da companheira cuja fala, há pouco, ainda reverberava dentro de mim: “Vencemos?”

– Dessa vez, sim. Vencemos.

Comício de Lula em Sergipe 18 de junho de 2022. Foto de Ricardo Stuckert.

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