Depois de 18 anos do Massacre de Felisburgo, assentamento popular Terra Prometida é destaque na produção

Resistindo diariamente, as famílias de Felisburgo construíram casas e beneficiam farinha no território onde 5 sem terra foram brutalmente assassinados
Por Agatha Azevedo, na Página do MST

Em maio de 2002, o MST de Minas Gerais iniciava uma das batalhas mais emblemáticas da luta pela terra ao ocupar a Fazenda Nova Alegria. No local, batizado de Acampamento Terra Prometida, 230 famílias começavam a construir o sonho de morar e viver do trabalho na terra. Após dois anos de brigas judiciais e ameaças do fazendeiro e empresário Adriano Chafik Luedy, a terra que antes era de prosperidade, sangrou com o Massacre de Felisburgo.

Kelly Gomes, uma das sobreviventes do massacre, afirma que o local é sinônimo de resistência. “Vai se aproximando o mês de novembro e o coração da gente vai ficando apertado, não que os outros meses sejam mais fáceis, mas a dor vai ficando ainda maior. São 18 anos do Massacre de Felisburgo, sofrimento e traumas, mas também resistência e luta.”

No dia 20 de novembro de 2004, o município de Felisburgo, localizado no Vale do Jequitinhonha presenciou a resistência das famílias sem terra em meio a um dos crimes mais bárbaros da luta por reforma agrária. Por volta das 11h15, em meio à forte chuva, 17 jagunços liderados por Chafik e pelo primo Calixto Luedy invadiram o acampamento, assassinaram 5 sem terra com tiros à queima roupa, e deixaram 20 feridos. A dor segue na memória dos moradores que sobreviveram e continuaram a luta pela terra.

Mesmo com o derramamento de sangue que significou a perda dos companheiros Iraguiar Ferreira da Silva (23 anos), Miguel José dos Santos (56 anos), Francisco Nascimento Rocha (72 anos), Juvenal Jorge da Silva (65 anos) e Joaquim José dos Santos (49 anos) em plena luz do dia, os responsáveis levaram anos para serem condenados e até hoje, 18 anos após o massacre, a área não é regulamentada e a justiça não foi feita.

“Infelizmente, o fazendeiro segue querendo tirar a gente da terra, e 1º de dezembro temos audiência de conciliação. Nós já dizemos que não vamos sair, estamos produzindo vida saudável e agroecologia. São 18 anos de resistência, luta, cultura e tradições.”, conta Kelly.

Todos os companheiros sem terra que foram assassinados deixaram para trás filhos e esposas. Iraguiar, o mais novo deles, contribuía no setor de produção e na coordenação do Acampamento, deixou a esposa grávida de seis meses. A mulher também perdeu o pai, Joaquim, e o tio, Miguel. Miguel terminaria a 4ª série no ano de 2005, e Joaquim plantava milho e feijão na hora do massacre, e faleceu com dois embornais com sementes. Atualmente, a viúva de Iraguiar vive com seu filho no território e continua a luta pela terra, assim como outras famílias que viveram o massacre.

Assentamento Popular Terra Prometida

“Eu vi gente a Deus clamar por um pedaço de terra pra sua vida melhorar. Vi logo em seguida o MST, sem terras a se organizar, e a bandeira vermelha balançar, povo unido nas ruas, caminhos a trilhar, marchando em busca da liberdade para a terra conquistar.

(…) Mas não foi só o que vi, vi inimigo reagir, e achando que é dono de tudo, sua fúria veio mostrar, entrando no acampamento, tentando o povo amedrontar, com armas nas mãos ameaçando atirar. (…) Vi latifúndio com ódio profundo matando, eu vi a terra chorando sangue dos nossos guerreiros, 5 mártires que deram sua vida em prol de outros companheiros. (…) Eu vi o povo com muita luta no Palácio da República o 1° decreto conquistar, pena que as leis do latifúndio se beneficiaram e o decreto derrubaram, ai eu vi os sem terras cansados de tanto esperar, com sua organicidade seus lotes foram criar, com esperança de sua vida melhorar.” – trechos da poesia ‘Eu vi’, de Kelly, Eni e Leyde

Ao longo de 20 anos de história, as famílias viveram acampadas, debaixo da lona preta, e aos poucos foram construindo dignidade e prosperidade no território. A cada ano, mais lavouras e casas iam sendo erguidas com o suor do trabalho. A poesia das companheiras sem terra que moram no Assentamento Popular Terra Prometida dá o tom da resistência: o que o Estado não faz, o povo com suas mãos calejadas constrói.

Kelly Gomes, moradora do Assentamento Popular, relembra o passado e celebra as conquistas.“Hoje a terra nos dá orgulho, cumpre sua função social. Tem escola, conserva seus bens naturais, no local onde se explorava madeira ilegal. Eu cheguei aqui na minha infância, com 12 anos, e hoje já sou mãe e sigo aqui firme na luta, nessa terra farta e produtiva.”, comemora.

Memórias de resistência refletidas na produção.

Mesmo vivendo em um território em que a guerra oculta, sutil e diária dos latifundiários contra os trabalhadores derramou sangue de companheiros que lutavam para poder viver e produzir alimentos, as famílias do Terra Prometida conseguiram transformar o luto em resistência.

“Quando a gente vê um batuque, uma escola funcionando do pré ao quinto ano, quando a gente vê nossas crianças tendo a liberdade de comer uma fruta saudável e correr pelo Terra Prometida, a gente sente orgulho.

Famílias que antes sofriam na cidade, hoje se desenvolveram, têm filhos na faculdade, e produzem para o Armazém do Campo regional, em Almenara, e para o de BH, além de participarem das compras institucionais do município e fazerem entregas para nossa cooperativa central, a Concentra.”, aponta Kelly, emocionada.

O sangue derramado no Terra Prometida segue indignando todos e todas que lutam pela terra, e o MST resiste no território, não se esquecendo e nem permitindo que haja um minuto de silêncio pelos mortos na luta por reforma agrária, mas toda uma vida de lutas.

“Nós fizemos um assentamento de resistência, construímos agrovila, colocamos energia, construímos vida no local onde perdemos nossos companheiros. Nós sempre dizemos que nunca vamos sair daquele território, que só saímos de lá dentro do caixão, para honrar o sangue de nossos companheiros. A gente precisa cultivar nossa memória, saber nossa história, lembrar da violência para produzir vida digna”, afirma Kelly.

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