Abraji 20 anos: Projetos colaboram com a formação e a defesa dos jornalistas

Em dezembro, a Abraji, uma das principais organizações brasileiras que atuam em defesa dos profissionais de imprensa, completa 20 anos. São duas décadas na linha de frente pela garantia da liberdade de expressão e do acesso à informação no Brasil e pelo aprimoramento profissional dos jornalistas

Abraji

Há exatos 20 anos um grupo de jornalistas criava a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Abraji, que viria a ser uma das principais organizações brasileiras na defesa dos interesses dos profissionais de imprensa. Em sua essência, estavam a luta pela garantia da liberdade de expressão e do acesso à informação no país e pelo aprimoramento profissional dos jornalistas. Em duas décadas, a Abraji e a imprensa testemunharam avanços significativos na área – seja na forma de apurar, publicar ou divulgar histórias de interesse público que muitos querem esconder.

O nascimento da Abraji assinalou um momento histórico para o jornalismo do Brasil. O horror da execução de um jornalista por traficantes no Rio de Janeiro, que expôs um problema que parecia da esfera privada, mas, que, de fato, se tornara uma questão pública: a segurança dos jornalistas e comunicadores.

Em jun.2002, Tim Lopes, repórter da TV Globo, foi perseguido e sequestrado na Vila Cruzeiro, comunidade do Rio de Janeiro, e torturado e assassinado na Favela da Grota, no Complexo do Alemão.

Após a execução de Tim Lopes, profissionais começaram a debater a importância de haver no Brasil uma organização que atuasse de forma independente dos veículos de comunicação e das entidades de classe e promovesse a troca de conhecimentos entre os jornalistas. A ideia não era ocupar o papel do sindicalismo, mas promover uma capacitação permanente e produzir uma massa crítica sobre o que se fazia.

A pauta ganhou ainda mais força durante a primeira edição do seminário “Jornalismo investigativo: ética, técnicas e perigos”, realizado pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, no Rio de Janeiro, em ago.2002. Foi ali que muitos colegas voltaram a se questionar por que ainda não existia no país uma instituição como a IRE (Investigative Reporters & Editors), dos Estados Unidos.

Motivado por essa carência e sensibilizado pela tragédia com o colega Tim Lopes, no dia 4.set.2002, o jornalista Marcelo Beraba teve a iniciativa de enviar um email com um convite a mais de 40 repórteres e editores. Era a proposta de criação da Abraji.

“Uma instituição formada e mantida por jornalistas, independente dos jornais e das entidades de classe (sindicatos, Fenaj e ANJ), voltada para a troca de informações entre nós, para a formação e a reciclagem profissional, para o aprofundamento dos conhecimentos e uso de ferramentas na área do jornalismo investigativo, para a formação de uma literatura e banco de dados, para a promoção de seminários, congressos e oficinas de aperfeiçoamento profissional. […] Não seria uma entidade contra nada e nem contra ninguém, mas a favor da melhoria profissional, o que significa um respeito à sociedade que nos cobra um jornalismo de qualidade […] – e-mail de Marcelo Beraba no dia 4.set.2002.

Mas a decisão de criar a organização veio da segunda edição do seminário do Centro Knight, desta vez em São Paulo. Em um auditório lotado, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), em dez.2002, cerca de 140 jornalistas concordaram em se unir na fundação de uma associação profissional, a Abraji.

Apoio internacional

Na história do nascimento da Abraji, existe um capítulo especial sobre o papel determinante do Centro Knight, para além dos fóruns em torno das práticas e perigos do jornalismo investigativo que serviram como um ponto de partida para a criação da entidade.

Em 2002, recém-lançado pela Fundação John S. and James L. Knight, o Centro havia recebido um financiamento para investir em um projeto na América Latina e no Caribe. Em entrevista à Global Investigative Journalism Network (GIJN), o diretor Rosental Calmon Alves contou que tomou a causa do grupo de jornalistas brasileiros como “o primeiro projeto do Knight Center”.

Com o objetivo de contribuir com a estruturação e consolidação da iniciativa, Alves se dispôs a custear um gerente para a nova organização. Foi então contratado o primeiro gerente da Abraji, o jornalista Marcelo Soares, um dos pioneiros do jornalismo de dados no Brasil.

Acesso à informação 

Apesar da escalada de violações à liberdade de expressão e de imprensa, houve um progresso tangível na área de transparência pública. Um dos legados mais importantes do trabalho da Abraji é a aprovação da Lei de Acesso à Informação (LAI) no Brasil, que completou 10 anos em 2022. Sancionada em 18.nov.2011 e implementada em 16.mai.2012, a Lei nº 12.527/2011 determina a órgãos do setor público diretrizes para a disponibilização, de forma ativa ou passiva, de dados, informações e documentos de interesse público.

Abraji foi uma das organizações da sociedade civil que mais batalharam pela LAI. Como lembrou Fernando Rodrigues, ex-presidente da associação, “a Abraji fez seminários, sensibilizou os jornalistas (que não estavam ainda muito a par desse assunto) e fez pressão explícita sobre o Congresso e o Palácio do Planalto para que o país tivesse uma lei. Como se tratava de um assunto muito novo e sem apelo na sociedade, houve toda essa demora. Foi um trabalho lento de evangelização sobre a necessidade da lei”.

Em entrevista para um artigo que celebrou os 10 anos da lei, Rodrigues pontuou que “hoje, é quase impossível passar uma ou duas semanas sem que algum veículo de comunicação publique uma reportagem dizendo que ‘os dados foram obtidos por meio de pedido via LAI’. Pode parecer normal e corriqueiro, mas é um avanço institucional enorme no sistema democrático e de cobrança de responsabilidade em sociedades abertas, como pretende ser um dia a brasileira”.

Uma das frentes de atuação pela LAI se deu por meio do Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, coalizão de entidades da sociedade civil, organizações de mídia e pesquisadores que se dedica hoje a fazer o controle social da implementação da lei. A criação dessa rede, que voltou a ser coordenada pela Abraji neste ano, foi conduzida pela associação em 2003, após o I Seminário Internacional de Acesso à Informação Pública.

A Abraji hoje

Fiel às mesmas causas que inspiraram sua criação – a liberdade de expressão, o acesso à informação e a capacitação profissional de jornalistas -, a Abraji atua como criadora ou parceira em 15 projetos/programas:

  • Achados e Pedidos: projeto que reúne em uma plataforma milhares de pedidos de acesso à informação de cidadãos e as respostas da administração pública feitas via LAI. Também produz diagnósticos sobre a implementação da lei. Em 2022, incorporou as ações do Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas. É executado em parceira com a Transparência Brasil.
  • Aleph: ferramenta criada pelo OCCRP (Organized Crime and Corruption Reporting Project) que agrupa mais de 500 bases de dados que podem ser cruzadas entre si, com informações do tipo “follow the money”.
  • CruzaGrafos: ferramenta gráfica de software livre, criada em parceria com o Brasil.IO, que permite verificações cruzadas e investigações avançadas de dados ao interligar diversas informações em uma espécie de teia.
  • Ctrl+X: portal organizado pela Abraji que reúne processos judiciais contra profissionais da área da comunicação. Monitora a retirada de conteúdo e o assédio judicial contra o jornalismo.
  • Estudo de desempenho da LAI: análise bianual realizada pela Abraji sobre o uso da LAI nas redações.
  • LAI nas Redações: programa de treinamento voltado para jornalistas sobre o funcionamento da LAI e como incorporá-la no dia a dia das redações.
  • Mapa de Acesso a Informações Públicas: levantamento bianual feito pela Abraji focado em avaliar questões de transparência no Brasil. O último relatório analisou o descumprimento da LAI no estado de São Paulo.
  • Monitoramento de ataques contra jornalistas: projeto monitora as violações às liberdades de expressão e de imprensa e ao direito de acesso à informação no Brasil. É feito em parceria com a rede Voces del Sur, que reúne 14 organizações latino-americanas da sociedade civil que acompanham a situação da imprensa em seus respectivos países.
  • Monitoramento de bloqueios a jornalistas no Twitter: projeto monitora jornalistas bloqueados por autoridades públicas no Twitter. Desde 2020, a Abraji acompanha essa prática, que limita o acesso de profissionais de imprensa a informações de interesse público divulgadas nos perfis oficiais.
  • Pinpoint: ferramenta gratuita do Google que permite identificar automaticamente nomes de pessoas, instituições e locais mencionados em arquivos de texto e realizar transcrições de áudios. Desde ago.2021, a Abraji é curadora do projeto no Brasil.
  • Programa de Proteção Legal para Jornalistas: garante assistência jurídica a jornalistas e comunicadores que, em razão de seu trabalho, estejam sendo silenciados ou constrangidos por meio de processos judiciais.
  • Programa Tim Lopes: é uma resposta da Abraji à violência contra jornalistas, em especial no interior do país. Acompanha e produz conteúdos sobre assassinatos e casos graves de ataques a jornalistas.
  • Projeto Comprova: coalizão de 43 veículos de comunicação, liderada pela Abraji, que investiga colaborativamente a veracidade de conteúdos duvidosos disseminados em redes sociais, aplicativos de mensagens e sites.
  • Projeto Violência de gênero contra jornalistas: monitora a violência contra mulheres jornalistas e comunicadoras e os ataques de gênero a pessoas jornalistas e comunicadoras de forma geral no Brasil.
  • Publique-se: projeto que permite verificar processos judiciais de interesse público que citam políticos como partes.

Além disso, a Abraji realiza, anualmente, um dos eventos mais importantes de jornalismo da América Latina, o Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. Desde 2015, a associação possui uma central de cursos on-line, por meio da qual já treinou mais de 20 mil profissionais e estudantes. Somente em 2022, 3.200 pessoas participaram dos treinamentos da Abraji.

A organização também atua por meio de litigância estratégica e advocacy para defender os direitos e causas dos jornalistas. Para saber como a Abraji desenvolve esse trabalho, clique aqui.

Outras redes

Em 20 anos, a Abraji viu nascer dezenas de organizações com objetivos semelhantes, mas que ganharam força e capilaridade para cumprir objetivos específicos, como ProjorFiquem Sabendo, Redes CordiaisColetivo Lena Santos, Livre.JorFarol JornalismoÉnois, Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca) e a Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que agora produzem seus próprios eventos.

Para se ter ideia de como o universo do jornalismo cresceu, o último Congresso da Abraji, em ago.2022, contou com a presença de mais de 140 organizações, entre veículos nacionais e estrangeiros, iniciativas de jornalismo independente, entidades da sociedade civil, entes ligados à transparência pública, empresas, projetos e instituições de ensino.

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Documentário dos 20 anos

Para celebrar o seu aniversário, a Abraji lançou o documentário on-line “Abraji 20 anos: de Tim Lopes a Dom Phillips”, roteirizado, dirigido e montado por Diego de Godoy. A partir dos depoimentos dos ex-presidentes da organização e de outros convidados, o filme conta a história da Abraji e discute as transformações que atravessaram o jornalismo brasileiro nas últimas duas décadas.

 

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