O ‘negacionismo progressista’ que nos governa. Por Eliane Brum

Passou da hora da geração de Lula terminar seu caso de amor com o petróleo

em Sumaúma

O colombiano Gustavo Petro acertou em cheio ao apontar o dilema de Lula, do Brasil e da maioria dos governos de esquerda e de centro-esquerda do mundo. “[Os governos de] direita têm um fácil escape, que é o negacionismo. Negam a ciência. Para os progressistas, é muito difícil. Gera então outro tipo de negacionismo: falar em transições”, afirmou ele na Cúpula da Amazônia, realizada nos dias 8 e 9 deste mês de agosto. Petro se referia ao discurso da “transição” para energias renováveis e não poluidoras, usado por governantes como Lula para justificar a continuidade da exploração de combustíveis fósseis. Como SUMAÚMA antecipou, o presidente da Colômbia se esforçou para convencer os colegas a fazer um pacto pelo fim da exploração de petróleo na Amazônia, mas ficou falando sozinho. Seu isolamento denunciou o que tem aterrorizado jovens ativistas da geração de Greta Thunberg: a dificuldade de fazer com que políticos, a maioria homens moldados no – e pelo – século 20, sejam capazes de tomar decisões que contrariem suas crenças mais arraigadas – justamente as decisões urgentes para barrar o aquecimento do planeta em 1,5 grau Celsius.

É evidente que os governantes trabalham pelo lucro imediato – no caso do governo brasileiro, para apresentar melhores índices econômicos, assim como garantir recursos para produzir políticas que permitam o cumprimento de promessas sociais e a reeleição em 2026. Também é evidente o lobby da indústria de combustíveis fósseis, que com a corrupção de cientistas e institutos supostamente científicos conseguiu atrasar a transição energética em décadas produzindo mentiras como se fossem ciência, com a cumplicidade de grande parte da imprensa. E continua usando vários truques para seguir produzindo, vale lembrar.

É necessário, porém, apontar também o critério subjetivo que atravessa as decisões. As gerações que estão hoje no poder no Brasil foram esculpidas por mais de meio século de propaganda nacionalista que exaltava o petróleo como a melhor fonte de riqueza de uma nação. E essa propaganda moldou corações e mentes de quem hoje toma as decisões – ou, no que se refere à adaptação à mutação climática e à mitigação de seus efeitos, com frequência não toma as decisões que deveria tomar.

Ao apontar como o negacionismo de esquerda se articulava sob o escudo supostamente responsável da “transição energética”, o presidente colombiano afirmou que era um “disparate total” falar em emergência climática e seguir explorando combustíveis fósseis. Petro não só conquistou o protagonismo numa cúpula em que Lula era o anfitrião como explicitou as contradições do Brasil. Até o final do ano passado, o país era governado por Jair Bolsonaro, um extremista de direita que incentivava a destruição da floresta e garantia impunidade aos desmatadores. Hoje, o Brasil é liderado por Lula, um homem de centro-esquerda que se forjou político no sindicalismo de fábrica. A imagem-símbolo da pujança de seu segundo mandato, encerrado em 2010, eram suas mãos sujas do petróleo do pré-sal. Treze anos depois, Lula voltou ao poder, e é impossível fingir não perceber que o petróleo e os demais combustíveis fósseis são os vilões que levam ao colapso da casa-planeta ao transfigurar o clima e, com ele, a geografia que a espécie humana acreditava ser imutável. Mas saber parece não ser suficiente para fazer o que é preciso.

Tanto é assim que a exploração de petróleo na bacia da foz do rio Amazonas, na chamada margem equatorial, foi o motivo da grande cisão no primeiro semestre deste terceiro mandato de Lula. O projeto da Petrobras, estatal brasileira de combustíveis fósseis, foi barrado pela pasta de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, como antecipamos com exclusividade em SUMAÚMA. A maior parte do governo, porém, não engoliu essa negativa. Nem o presidente. Pouco antes do início da cúpula, Lula garantiu durante uma entrevista que o povo da Amazônia poderia “continuar sonhando” com a exploração de petróleo na bacia da foz do Amazonas. Na véspera da cúpula, usou uma frase que Bolsonaro poderia ter dito: “[A Amazônia tem que ser um] espaço para geração de riqueza para o povo, não um santuário”.

Lula continua sendo um personagem paradigmático do século 20 com a crença de que o homem é capaz de resolver qualquer coisa e, claro, está no centro do universo. Claramente, nessa mentalidade, que compartilha com os “homens do mercado”, a natureza está a serviço e só tem valor se tiver utilidade para a espécie humana. O mundo acabou de viver o julho mais quente da história. Só nos últimos dias há catástrofes causadas por eventos extremos do Havaí à China e a Antártida derrete a níveis nunca vistos. Mas a esquerda que Lula representa acredita que o tempo ainda está sob controle humano. Na cabeça cimentada no século 20 dessa geração de políticos, dá para fazer dinheiro com o petróleo para ampliar o número de consumidores de mercadorias enquanto lentamente se faz a transição energética – ou “verde”.

No documento final da Cúpula da Amazônia aparece quatro vezes a expressão “ponto de não retorno”, usada para se referir ao momento-limite a que a floresta vai chegando em ritmo acelerado, aquele em que o bioma já não consegue mais se regenerar. Na cabeça de políticos como Lula, porém, dá para planejar a transição com tranquilidade enquanto se estimula a compra de carros movidos a combustível fóssil e se chama um colega pra comer um churrasco de boi da Amazônia. E, ainda assim, é imperativo dizer: Lula é o melhor que temos.

Envelhecer é um movimento. Portanto, o problema não é envelhecer, mas parar de se mover no campo das ideias, deixar de se abrir à indeterminação da vida e de seus encontros, fechar os olhos – e o cérebro – aos desafios do banzeiro que nos foi dado viver. Alguns e algumas das intelectuais climáticas mais poderosas do mundo são mulheres e homens da mesma geração de Lula ou da geração imediatamente anterior. A própria Marina Silva, pouco mais de uma década mais jovem, é uma pensadora potente sobre o planeta em mutação climática. Raoni, a quem Lula deixou mais uma vez esperando, desta vez na Cúpula da Amazônia, tem presumidos mais de 90 anos e um pensamento atualíssimo.

Infelizmente, porém, os fatos e as declarações mostram que a maioria dos políticos dos quais dependem as decisões que vão determinar a qualidade de vida nos próximos anos e décadas são negacionistas de direita e de esquerda, na forma como SUMAÚMA propõe que o negacionismo seja pensado. Nesta altura, acreditar que a mutação climática foi produzida pela espécie humana é o óbvio – e o óbvio cientificamente comprovado. Isso é insuficiente para fazer de alguém um não negacionista. Para poder afirmar que não se é um negacionista é preciso ser capaz de viver segundo a emergência do momento. É preciso agir no cotidiano para barrar o aquecimento do planeta, que já nos lançou na era dos eventos extremos.

Na apresentação do novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em 11 de agosto, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), foi lançado como protagonista de um projeto agregado: o futuro “Plano de Transformação Ecológica”. “Trata-se da criação de uma nova conduta e postura em relação ao meio ambiente. Um novo tipo de interação com a natureza e a vida de todo o planeta”, afirmou. Torcemos para que Haddad compreenda que não se pode esperar nem um dia a mais – a não ser que a decisão seja pela catástrofe. O tempo do discurso correto que não vira ação já se esgotou.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, EM 2010, COLHE ÓLEO DA PRODUÇÃO DE PRÉ-SAL NO CAMPO BALEIA FRANCA, NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO. FOTO: RICARDO STUCKERT

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