“A Argentina vai se tornar o laboratório social do futuro”. Entrevista com Robert Boyer

IHU

As ramificações da economia, o poder de Wall Street, a ideia de financeirização e o estado da economia argentina são alguns dos temas abordados pelo economista francês (1943), nascido em Nice. Pensador e economista global, é também um conhecedor do cenário argentino.

Robert Boyer Pesquisador associado do Institut des Amériques, foi diretor de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica e de estudos da École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, sendo um dos fundadores da chamada escola da regulação, cuja abordagem teve grande influência em todo o mundo, dentro das tradições que se opõem às visões ortodoxas da economia.

Entre outros, é autor dos livros A teoria da regulação: uma análise crítica, Os modelos produtivos (com Michel Freyssenet) e A antropologia econômica de Pierre Bourdieu.

A entrevista é de Hector Pavon, publicada por Clarín, com tradução do Cepat.

Eis a entrevista.
Estamos vivendo um momento especial na economia mundial? Como este momento pode ser chamado ou caracterizado?

Estamos vendo a fragmentação da economia mundial e se corre o risco de sua reorganização em três zonas geográficas: América, Ásia e, no meio, a Europa com a África como continente associado. Não estamos vendo apenas a globalização, mas a formação de entidades regionais. A prova está nos acordos de livre comércio assinados pela Oceania e a China, que se tornaram o principal bloco de livre comércio, além da Europa. Sendo assim, a grande mudança não é tanto o colapso das relações internacionais, o grande perigo é a fragmentação completa.

O projeto chinês consiste em organizar as atividades financeiras dentro da zona do Pacífico. Consequentemente, mudaria completamente o papel do dólar. A segunda consequência é a crise das organizações multinacionais: a Organização Mundial do Comércio não funciona, a ONU é incapaz de deter o conflito entre Israel e a Palestina… vivemos o declínio dos tratados. Em alguns casos, sofremos de egoísmo nacional, o problema é que se converte em egoísmo regional. É um período de grandes mudanças.

Qual é a dimensão atual da “financeirização”, esse seu conceito que se refere ao poder estruturador que o capital financeiro – bancos, instituições de crédito, fundos de investimento, entre outros – adquiriu nas economias ocidentais?

É muito desigual. Nos Estados Unidos, o crescimento provém do aumento da riqueza financeira dos lares. A financeirização é o fenômeno em que o meu padrão de vida e o meu consumo dependem da minha riqueza. Podemos mostrar que quando o mercado de ações está crescendo bem, para países como a Argentina o resultado final é a dependência da afluência de capital.

Sendo assim, por um lado, existe a dimensão virtuosa das finanças, em que todos os países, todos os ricos do mundo, querem investir os seus dólares estadunidenses, e há o outro lado, que como resultado – os países dependentes, como os da América Latina – são forçados a depender de entradas de capital que, finalmente, desestabilizam seus modelos. Se acontece uma crise nos Estados Unidos, desestabiliza as atuais entradas em massa de capital. Tudo depende da saúde dos Estados Unidos. Então, está claro que a financeirização criou um grande problema.

Que outras consequências isso traz?

As desigualdades entre os indivíduos. Thomas Piketty argumenta que as desigualdades surgem quando a renda de alguns cresce junto com o mercado de ações, enquanto um empregado recebe muito pouco salário. O segundo fator são as profundas desigualdades dentro da sociedade, que se manifestam em todas as sociedades. É um fenômeno em massa, mas muito assimétrico. As desigualdades financeiras nos Estados Unidos têm significados absolutamente distintos. A diferença é que nos Estados Unidos podem financiar os seus enormes déficits porque todo o capital está relacionado com esse país.

Qual é a dimensão do poder de Wall Street para além dos Estados Unidos?

Defende o benefício da extraterritorialização de qualquer companhia no mundo. Wall Street capitaliza o fato de os Estados Unidos intervirem em quase todas as transações que sejam feitas com dólares em todo o mundo. Isto explica a tentativa da China e da Rússia em criar um sistema totalmente oposto, independente, para evitar esta dependência. Wall Street continua tendo um poder enorme e a longo prazo.

E que lugar a Argentina ocupa neste mapa?

As finanças são muito poderosas. Comparativamente, a Argentina é um país novo. A China está a cerca de trinta séculos de distância. Tenho a impressão de que o argentino, em cada crise, pergunta-se: sou italiano, sou espanhol? Impressiona-me muito que em crises como a de 2001 crescem as filas em torno das embaixadas italiana e espanhola para retornar à Europa. E depois o segundo elemento: as poupanças dos argentinos que estão no exterior…

Último ponto: há muito pouco crédito. É fácil imaginar que quando existem empresários dinâmicos, precisam de crédito. Contudo, há tão pouca confiança na estabilidade monetária que as empresas que investem são muito poucas e há poucos mecanismos que dão crédito para acumular capital: há uma crise monumental.

Como avalia as medidas econômicas tomadas nos últimos meses, na Argentina?

O padrão de vida médio argentino, comparado ao dos estadunidenses, tem um declínio no consumo. O corte de 35% na renda dos aposentados e a explosão no preço do transporte público são uma grande pressão sobre o nível de vida.

A segunda originalidade deste ajuste brutal é que a escola austríaca propõe um estado minimalista pró-capitalismo e os impostos que penalizam a acumulação são destruídos. Macron e outros líderes também fizeram um ajuste, mas quando se antecipa a violência como parte da terapia, sabe-se que isto não vai funcionar.

Lamento dizer que a Argentina se tornará o laboratório social dos próximos anos. Enquanto isso, retorna o estado na Europa, fala-se de política, portanto, a volta do estado é um momento em que todos se tornam protecionistas, precisamos de infraestruturas, escolas, estabilização.

O estado está voltando na Europa?

Para Milei, existe socialismo nos Estados Unidos, algo que vem da sua adesão à visão austríaca e isso é estranho porque, hoje, há muito poucos economistas conservadores. É como um dinossauro que ressuscitou. Na Europa, há economistas conservadores, mas não da escola austríaca, o que também é uma grande novidade. Sem um banco central, este sistema não passará, é um pouco arrogante pensar assim.

Parece-me uma extraordinária demonstração de autoconfiança dar lições de capitalismo aos principais empresários do mundo em Davos. Vejo isto como algo muito engraçado. Você precisa de uma participação pública. Primeiro, produz-se acumulação, depois, o estado tem que tentar redistribuir. Por fim, vem a escolaridade gratuita obrigatória, os investimentos em ferrovias, as infraestruturas que, por exemplo, contêm as nuvens na Internet, por exemplo. Até mesmo as empresas muito grandes não dispõem de recursos para realizar a pesquisa fundamental.

Portanto, há toda uma série de razões pelas quais o estado está gradualmente construindo o capital. Na Dinamarca, o estado realiza um controle diário nos municípios sobre a qualidade dos serviços, a educação, as creches para as crianças, a saúde gratuita e assim por diante. Há também o partido-Estado na China, totalmente dirigido pelo Partido Comunista.

Lá, os empresários e intelectuais mais talentosos formam a elite, é um estado de desenvolvimento estatista como nunca houve antes. Na China tudo está ligado, mais uma vez, para acumular riqueza e poder. Ao contrário dos estadunidenses, esta forma de estado é relativamente eficiente. A industrialização da China acontece três vezes mais rápido do que a da Inglaterra em seu momento.

Hoje, qual é o papel do FMI? Qual é a sua legitimidade e peso?

Quando o FMI deu 44 bilhões de dólares da última vez à Argentina, eu disse a mim mesmo que não se importa que a Argentina não possa pagá-lo, então, deu um pouco mais de dinheiro para que o reembolsasse. Deu-lhes mais por razões geopolíticas, acredito. Tenho a impressão de que já não têm o poder que costumam ter, estão um pouco perdidos porque não querem criar uma crise financeira global. Contudo, como um soldado, o FMI tem de restaurar a estabilidade financeira. Tanto a Organização Mundial do Comércio como o Fundo Monetário Internacional estão sofrendo uma espécie de decadência interna.

A China está no processo de tentar criar suas próprias instituições a nível regional. Os preços são fixados em dólares e o volume comercial é vinculado ao dinamismo mundial. Paradoxalmente, a dependência da Argentina em relação ao resto do mundo aumentará. O melhor teria sido reconstituir uma base nacional de consumo antiga e sustentável, uma pequena base industrial que permitisse, em caso de crise mundial, compensar a perda de exploração devido ao dinamismo interno e com a abertura da indústria, os produtores entenderam que não vão mais produzir leite e vão ter acesso a ele no Uruguai.

Considera que hoje a economia volta a ser mais importante do que a política?

É muito mais importante olhar para a política. Nos Estados Unidos, defendem-se politicamente, defendem a sociedade. A Europa antepôs a economia à política. Hoje, todo o esforço está concentrado na defesa individual, na política industrial comum, em impulsionar a economia. Então, esta é a fragilidade da Europa: antepôs a economia à política.

Aprendemos que todo o esforço está concentrado na defesa individual da política industrial. Esta é a fragilidade da Europa: antepôs a economia à política. Na minha opinião, é um grande retorno à geopolítica, como se defender em um mundo que está em processo de divisão, e a economia se converte, então, no serviço da geopolítica.

Quantos governos “pensam verde”? Que países estão realmente lutando contra a mudança climática em sua abordagem econômica?

Na França, por exemplo, queriam impor um imposto sobre a gasolina, o que aumentou brutalmente os preços marginais, o que significa que os pequenos artesãos, as famílias etc. caíram abaixo do limiar de subsistência. A grande dificuldade é que triunfar sobre a ecologia significa que temos de arbitrar o público e alcançar a estabilização do clima em nível mundial.

A grande dificuldade é a luta contra o bem público, a habitabilidade da terra, isso significa que temos que arbitrar contra a consciência positiva nos países ricos. É factível nos Países Baixos, mas não em todas as partes. Então, vamos lutar racionalmente contra a mudança climática em um momento bastante dramático.

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