Moradores de Conceição do Mato Dentro (MG) culpam mineradora por falta de água, poeira e mau cheiro

“Tirou a paz, tirou a calma, tirou a saúde, tirou a tranquilidade”, diz atingido sobre atividades da Anglo American

Lucas Wilker, Brasil de Fato

Falta água e cresce o mau cheiro, o barulho excessivo, a poeira, o isolamento e as doenças psicossociais. Esse é o cenário que os moradores de Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas e Dom Joaquim, em Minas Gerais, denunciam devido às ações do empreendimento Minas-Rio, da mineradora Anglo American, na região.

“Estamos tendo dificuldade para conquistar uma água descontaminada. Hoje, estamos sendo abastecidos por caminhão pipa, tomando água mineral”, lamenta Ludmila Oliveira Silva, moradora do reassentamento Fazenda Piraquara, em Conceição do Mato Dentro.

Desde 2014, com o início das operações do Projeto Minas-Rio, a empresa extrai minério de ferro na região e conta com o maior mineroduto do mundo, com cerca de 529 km de extensão, que transporta a polpa do mineral ao Porto do Açu, no Rio de Janeiro. Esse transporte utiliza 1,55 milhão de litros de água por hora.

De acordo com a Anglo American, o recurso hídrico é retirado do rio do Peixe, de poços artesianos e de estruturas próprias de armazenamento. Conforme o licenciamento ambiental, a mineradora tem autorização para utilizar 2,5 milhões de litros de água por hora.

Um estudo realizado pelo Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens (Nacab) e pela Cáritas, assessorias técnicas independentes (ATIs) que atuam nos municípios, apontou impactos na água de 13 comunidades atingidas pelo complexo minerário.

Segundo o documento, o uso e a ocupação do solo na região foram profundamente alterados, o que atingiu a paisagem local. Também houve aumento de ocupação e de supressão vegetal, o que gerou tensão hídrica e elevou a insegurança nas comunidades locais.

Barulho e poeira

Percílio Elias da Silva, morador de Taporoco, comunidade localizada a aproximadamente 9 km da mina do Sapo e a apenas 3 km da borda oeste da barragem de rejeitos da mineradora, reclama também do barulho excessivo e do mau cheiro ocasionado pela atividade.

“O que mais incomoda são os caminhões fora de estrada, por causa da sirene, da ré e do constante vai e vem. Na madrugada, ele aumenta mais, mesmo porque não tem movimento na BR. Não tem nada para abafar”, relata.

Uma poeira escura, que vem do minério de ferro, também se intensificou nos últimos dois anos, segundo ele. Com isso, a manutenção da limpeza de utensílios domésticos precisa ser constante, além do problema impactar diretamente na saúde.

“Eu fui um dos acometidos. Fui tuberculoso há quase 9 anos e fiz todo o tratamento, já estava completamente curado. Por causa da poeira, foi detectado que a tuberculose voltou, porque a minha imunidade baixou. O meu pulmão ficou tampado por causa dessa poeira”, lamenta.

Impacto nos modos de vida

Morador reassentado em Gondó, um distrito de Córregos, em Conceição do Mato Dentro, Valter Peixoto diz que, além de sofrer com todos esses problemas, está insatisfeito com seu reassentamento, que o retirou do local onde morava.

“Me reassentaram debaixo do empreendimento da serra. Então, me tornei atingido novamente. Tenho sentido muitos impactos, com poluição de poeira, barulho, detonação de bomba, etc. Hoje, eu também passei a não ter água de qualidade. A minha água está poluída”, critica.

Para ele, todo esse contexto é um “abuso”, que “tirou a paz, a calma, a saúde, a tranquilidade e o modo de vida de cada morador da comunidade”.

Já Percílio Elias da Silva relembra que a comunidade de Água Santa, onde funciona atualmente a barragem de rejeitos, era um lugar de comércio e festas. Ele relata que, agora, a população que morava ali é invisibilizada e isolada, esquecida tanto pela empresa quanto pelo poder público.

“O meu medo maior é essa doença psicossocial, porque as pessoas pensam que ela não existe, que a depressão. Ela existe, sim”, sublinha o morador de Taporoco.

Outro lado

Procurada pela reportagem, a Anglo American afirmou que mantém a gestão dos aspectos e impactos do projeto Minas-Rio dentro de suas áreas de atuação e no entorno do empreendimento, mas que realiza monitoramentos ambientais de forma contínua, focada na qualidade do ar, na gestão de ruídos e vibrações e no controle de águas. Os índices, segundo a empresa, cumprem a legislação brasileira.

A mineradora também pontuou que desenvolve iniciativas voltadas à conservação ambiental, ao impacto positivo junto à biodiversidade local e à preservação da água subterrânea na região.

Edição: Ana Carolina Vasconcelos

Imagem destacada: Todo dia, Solange Peixoto caminha cerca de meia hora para buscar água no “Buracão” – Foto: Douglas Magno/O Tempo.

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