Sócio da Ônix Céu Aberto, Gabriel Baya Andrade doou R$ 20 mil para o deputado, líder de campanha contra mudanças no Pix; segundo dossiê, mineradora infiltrou apoiadores na Associação Quilombola de Queimadas, no Vale do Jequitinhonha, para facilitar licenciamento
Por Alceu Luís Castilho, Bruno Bassi e Tonsk Fialho, em De Olho nos Ruralistas
Casado com uma fazendeira capixaba, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) ganhou projeção nacional como líder da bancada evangélica e um dos principais porta-vozes da direita bolsonarista. Nas últimas semanas, o parlamentar publicou um vídeo com informações manipuladas sobre mudanças no sistema de pagamentos Pix, cuja repercussão — mais de 300 milhões de visualizações no Instagram — levou ao recuo do Ministério da Fazenda e emplacou a maior derrota do governo Lula desde a posse, em 2023.
Mas Nikolas não é só um evangélico. Ele integra a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e vota em conjunto com a bancada ruralista quando o assunto é a criminalização da luta pela terra. Em 2023, foi um dos signatários pela instalação da CPI do MST e é autor de vários requerimentos contra o movimento sem-terra. Quase todos, arquivados.
O ataque contra os povos do campo também faz parte de sua rede de financiadores: três dos doadores de campanha de Nikolas Ferreira estiveram envolvidos em violações de direitos contra quilombolas, indígenas e comunidades rurais.
Na última segunda-feira (27), De Olho nos Ruralistas publicou uma reportagem em vídeo mostrando o histórico desses empresários. Entre eles, estão influenciadores que promovem “jogo do tigrinho” e golpes financeiros, indiciados por financiar atos antidemocráticos e um dono de supermercados cujas redes de relações chegam até o presidente dos Estados Unidos: “Tigrinho, golpistas e ex-sócio de Trump: quem financiou Nikolas Ferreira?”
Confira o vídeo completo abaixo:
MINERADORAS INFILTRARAM APOIADORES EM ASSOCIAÇÃO QUILOMBOLA
Um dos doadores retratados no vídeo é o empresário mineiro Gabriel Thadeu Baya Andrade, que fez um Pix de R$ 20 mil para a campanha do deputado em 2022, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Ele é sócio da Ônix Céu Aberto, uma das mineradoras que protagonizam um conflito contra a Comunidade Quilombola de Queimadas, no Vale do Jequitinhonha. Um dossiê feito em 2024 pela Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais (N’Golo) e pelo Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) acusa a Ônix e outra mineradora, a Herculano, de infiltrarem apoiadores na Associação Quilombola de Queimadas. O objetivo seria facilitar o licenciamento de atividades de mineração de ferro na região, no município de Serro.
Segundo o relato dos quilombolas, elas abrem estradas e desmatam a região, sem consultar as comunidades afetadas e intimidando aqueles contrários ao projeto.
Durante as enchentes de 2024 em Porto Alegre, Nikolas posicionou-se contra a política do Ministério da Igualdade Racial de monitorar o impacto nas comunidades ciganas e quilombolas. ” A prioridade deve ser para todos que estejam necessitando, independente de qualquer coisa”, disse à época.
DOADOR DE 2020 É ACUSADO DE SECAR NASCENTES NA BACIA DO RIO DOCE
Para ser eleito vereador em Belo Horizonte, em 2020, Nikolas Ferreira recebeu doações como a de Mauricio Toledo Jacob, que repassou R$ 5 mil à campanha do jovem político. O valor é o mesmo proposto como limite pelo Ministério da Fazenda para o monitoramento de Pix de pessoa física — o que gerou a controvérsia alimentada por Nikolas nas redes sociais.
O empresário é dono do grupo Toledo Mineração, uma das maiores produtoras de mármores e granitos do Brasil, com jazidas em Minas e no Espírito Santo. E tem ainda uma empresa de pecuária bovina no Norte mineiro, com capital de R$ 8,5 milhões.
Mauricio Toledo já foi prefeito em Mantena, no Vale do Rio Doce. O jornalista Lauro Jardim, no jornal O Globo, contou que ele teve de devolver R$ 650 mil aos cofres mineiros após o Tribunal de Contas do Estado encontrar falhas nos repasses de recursos ao município. Ele também é alvo de denúncia do Ministério Público Federal por extrair 1.016 m³ de granito além do permitido, entre 2005 e 2006, no Espírito Santo.
Uma de suas empresas, a Serra Leste Mineração, foi acusada em 2022 por moradores da comunidade de Barreira de Cima, em Guanhães, de poluir um córrego e secar as nascentes da região, na Bacia do Rio Doce.
Os casos vieram à tona após Toledo doar R$ 50 mil para a campanha de outro influenciador da extrema direita: Pablo Marçal, um aliado próximo de Nikolas Ferreira.
MADEIREIRO QUE DOOU EM VAQUINHA FOI CONDENADO POR CRIME AMBIENTAL
Parte da campanha de Nikolas Ferreira à Câmara, em 2022, foi financiada por doações feitas por um site de vaquinhas on-line, o Quero Apoiar. Foram arrecadados R$ 31.124,72 dessa forma.
Uma das doações de R$ 1 mil veio do madeireiro Heliton Peixer Baleeiro, da Brasil Madeiras, com sede em Espigão D’Oeste (RO). Em 2022, ele foi flagrado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) com madeira de origem desconhecida. Na época, os fiscais concluíram que elas só podiam ter saído das Terras Indígenas Zoró, Sete de Setembro e Roosevelt.
Em 2023, a Justiça absolveu o doador Baleeiro da acusação de receptação, pois não ficou comprovada a origem criminosa do material. Mas ele foi condenado por crime ambiental por comercializar madeira sem licenciamento.
De Olho nos Ruralistas tentou contato com os empresários Heliton Baleeiro, Maurício Toledo Jacob e Gabriel Thadeu Baya Andrade, mas não obteve retorno até o fechamento da reportagem. A assessoria do deputado Nikolas Ferreira não respondeu ao pedido de informações.
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Imagem principal (Reprodução): vídeo do De Olho nos Ruralistas investiga histórico de doadores do deputado Nikolas Ferreira