Gafe do presidente foi amplificada por leitura enviesada e vontade de manter o governo da defensiva
A gafe de Lula na posse da ministra Gleisi Hoffmann é, em si mesma, pouco relevante. Apenas mais uma derrapada do presidente, entre tantas outras, que mostra novamente como é difícil, para um homem de sua geração, se adaptar aos (já nem tão) novos tempos.
Elio Gaspari certamente exagera quando compara Lula com Luís XV, de quem se dizia que, quando encerrou seu longo reinado, já estava fora de moda. Mas que existe uma contradição no cerne deste terceiro mandato, isso existe.
Por um lado, os acenos simbólicos a grupos dominados se tornaram um centrais para marcar o diferencial de um governo que encontra enorme dificuldade para adotar políticas minimamente à esquerda.
Por outro, Lula nem sempre maneja corretamente os códigos que são exigidos, sobretudo no que se refere às questões de gênero. As escorregadelas talvez nem sejam mais frequentes ou graves do que antes, mas o ambiente mudou – de todos os lados.
Entre os apoiadores, os deslizes de Lula são vistos com menos condescendência, geram constrangimento. Mesmo quando permitem uma leitura mais generosa, geram cobranças e fortes recriminações, por vezes daqueles mesmos que preferem sempre silenciar as críticas “para não enfraquecer o governo”.
A imprensa burguesa faz um estardalhaço desproporcional à importância intrínseca do fato, fiel a seu propósito de sempre manter o governo na defensiva, não importa de que maneira. Basta comparar o destaque dado à gafe de Lula, nos jornais e na expressão de indignação de repórteres e colunistas, com a quase invisibilidade da fala de Bolsonaro – que, segundo algumas fontes, teria motivado o presidente a dar a “resposta” na posse da ministra.
Com sua proverbial cavalice, Jair disse que as mulheres petistas eram “feias” e “incomíveis”, reeditando – de caso pensado, para seu público interno – a famosa agressão à deputados Maria do Rosário. Mas o comentário passou quase despercebido.
Se Lula realmente pensou em responder a essa barbaridade, pensou duplamente errado. Primeiro, porque responder significava se colocar no plano de discussão que Bolsonaro estabeleceu, quando esse plano deveria ser recusado por inteiro. Depois, porque, como a fala do inelegível teve pouca repercussão, muita gente não entendeu a referência velada na possa de Gleisi.
Já a direita, com sua desonestidade típica, se faz de ofendida para amplificar o desgaste de Lula – embora seu discurso padrão seja mesmo de objetificação das mulheres. O deputado Gustavo Gayer, um notório canalha, deu um passo além e envolveu os presidentes da Câmara e do Senado, o que vai lhe valer um processo disciplinar. Infelizmente, acho difícil acreditar na sua (merecida) cassação.
