Da morte do “São Francisco”, ao retorno para a vida, vejo o “Benjamim Guimarães”! Por José Carlos Costa

“O mineiro não tem audácias visíveis. Tem a memória longa. Escorrega por cima. Só quer o essencial, não as cascas. Sempre frequentado pelo enigma, retalhando-o em pedacinhos, como quando pica seu fumo de rolo. Gente muito apta ao reino dos céus. Não acredita que coisa alguma se resolva por um gesto ou um ato, mas aprendeu que as coisas voltam, que a vida dá muitas voltas, que tudo pode tornar a voltar.”

(Guimarães Rosa)

 Pirapora nunca foi uma cidade qualquer. É daquelas que têm o coração batendo do lado de fora: pulsa ao ritmo das águas do São Francisco. E foi ali, em 1926, que o vapor “São Francisco” aportou com o nome que era destino — um nome que, mais que batismo, era pertença. Irmão do “Wenceslau Braz”, vindo também do longínquo Amazonas, foi adquirido pela Companhia Indústria e Viação de Pirapora (CIVP) e, por mais de meio século, desenhou rotas sobre as águas do Velho Chico, transportando vidas, sonhos, histórias…

Anos depois, já sob os cuidados da Comissão do Vale do São Francisco, predecessora da Companhia de Navegação, o “São Francisco” seguiria sua missão até que, no apagar das luzes de um primeiro de janeiro, o destino decidiu que era tempo de fim. Na noite de 1º de janeiro de 1985, por volta de 20h, sem vigia a bordo, em solidão absoluta e afastado da margem, faíscas oriundas da limpeza da caldeira se insinuaram entre toras de lenha seca, e em pouco tempo o fogo devorou tudo. A cidade, do cais, assistiu, impotente. Uns choravam. Outros apenas fixavam os olhos no brilho das chamas.

E assim se foram, um a um, os vapores do São Francisco. Restou só um: o centenário “Benjamim Guimarães”, imóvel no porto por uma década, como se aguardasse — paciente, resignado — o gesto que o libertaria da ferrugem e da espera. O tempo, esse senhor que às vezes tarda, mas não falha, cumpriu-se enfim. Na manhã de 3 de maio de 2025, sob aplausos, lágrimas e reverência, o último dos vapores renasceu. O “Benjamim” foi reconduzido ao leito do rio — não com a altivez de quem desafia o tempo, mas com a humildade de uma criança que se deixa levar por mãos em que confia e que sabe lhe têm amor.

Foi como assistir a um milagre mecânico. Uma ressurreição de ferro, fogo e vapor. Como uma criança idosa, frágil e preciosa, o “Benjamim” desceu com cuidado, abraçado pelas mãos de quem o tratou com o carinho de quem compreende que restaurar um vapor é restaurar uma memória. Agora com caldeira nova, com alma limpa, com corpo reforçado, está quase pronto para singrar as águas mais uma vez. Mas que a história não guarde apenas o nome da empresa que o recuperou, nem apenas o do engenheiro que assinou o projeto… Do engenheiro ao operário mais humilde, aquele que só apertou parafusos, que se registrem os nomes de todos que participaram dessa operação de trazê-lo de volta à vida.

É verdade que, ao navegar, o “Benjamim Guimarães” estará só. Os outros se foram. Não haverá cruzamentos, nem apitos trocados no meio do rio. Não verá mais o “São Francisco”, o “papa-léguas” veloz, cuja silhueta incendiada permanece nas lembranças de quem o amou. E talvez seja esse o seu fardo: ser o último vapor. Mas também é seu privilégio. Porque o último é, muitas vezes, o mais lembrado, o mais querido, o que carrega em si a herança dos que se foram.

Bem-vindo de volta, “Benjamim Guimarães”. Navegue enquanto o rio e a insensatez humana permitirem. Deslize com elegância, com o tempo que quiser. O mundo lá fora corre demais, corre para lugar nenhum. Você, não. Você vai devagar, porque sabe o peso que carrega: o da história, o da memória, o da beleza antiga que em você sobreviveu à pressa moderna.

E enquanto durar o vapor, e enquanto durarmos nós, haverá alguém na beira do cais para acenar — ao vapor, à infância, ao pai ausente, ao tempo que não volta. Porque mais que embarcação, você é lembrança viva do que fomos e, quem sabe, do que ainda podemos ser.

 

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