O revolucionário Malcolm X. Por Luiz Bernardo Pericás

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Há cem anos nascia Malcolm X, um dos mais proeminentes ativistas sociais dos Estados Unidos do século passado. Ele seria assassinado a tiros no Salão Audubon, no Harlem, no dia 21 de fevereiro de 1965, sessenta anos atrás. Apesar da distância no tempo, sua influência continua a crescer. Ao longo da vida, Malcolm passou por diversas transformações, ou, como sugeriu o historiador e biógrafo Manning Marable, “reinvenções”: de Malcolm Little se tornou “Detroit Red”, depois Malcolm X e El-Hajj Malik El-Shabazz. Como o próprio Malcolm comentou: “Toda minha vida foi uma cronologia de mudanças”1. Ele se tornou um ícone cultural e uma das principais lideranças revolucionárias afro-americanas de sua época.

Malcolm viu de perto a pobreza e o racismo durante a infância e a juventude. O menino nascido em Omaha (Nebraska), em 19 de maio de 1925, perdeu o pai — um pastor batista, seguidor de Marcus Garvey — quando tinha apenas seis anos de idade. A mãe, então viúva, esgotada física e emocionalmente, com oito filhos para criar e poucas condições financeiras para manter a família, acabou sendo internada num manicômio.

O jovem abandonou a escola aos quinze anos, quando morava em Michigan. Depois foi viver em Boston e, em seguida, em Nova York, período em que passou a cometer delitos e infrações de vários tipos: envolveu-se com roubos, drogas e jogatina ilegal. Não custa lembrar que naquela época havia em torno de 50 mil desempregados no Harlem (onde Malcolm residiu), muitos dos quais oriundos de famílias disfuncionais, com baixa escolaridade e sem trabalho formal, que recorriam ao uso e venda de tóxicos, ao alcoolismo e à prostituição. O caminho para a marginalidade, portanto, era comum para muitos jovens de seu meio. Malcolm ainda retornou a Boston, onde foi preso após uma série de assaltos a residências em 1946. Não tinha sequer 21 anos completos. Cumpriu pena de seis anos e meio em Massachusetts, inicialmente no presídio estadual de Charleston, depois no reformatório de Concord e, então, na colônia penal de Norfolk.

As ruas foram a primeira universidade de Malcolm. O cárcere, a segunda. Lá, ele se dedicou a leituras de obras diversas, de autores tão heterogêneos como Heródoto, Spinoza, Schopenhauer, Kant, Nietzsche, Will Durant, H. G. Wells, Frederick Law Olmstead, Fanny Kemble, Harriet Beecher Stowe, W. E. B. Du Bois, Carter G. Woodson, Homero e William Shakespeare, entre outros; impôs a si mesmo uma disciplina férrea; e se aproximou da Nação do Islã (NOI) – uma organização religiosa liderada por Elijah Muhammad, a qual misturava elementos de nacionalismo negro com uma interpretação bastante heterodoxa (e distorcida) da fé muçulmana.

[…]

Malcolm acabaria se tornando sunita, ao realizar uma emblemática peregrinação a Meca. Vale mencionar que a concepção do Islã propugnada pela NOI não fazia sentido para a maioria dos muçulmanos das correntes tradicionais e era considerada completamente equivocada2. A NOI, assim, não cumpria o papel político ou religioso que deveria. E Malcolm percebeu isso. Seu afastamento seria inevitável. O mesmo não vale para a sua ligação com o Islã, contudo. Ele permaneceria muçulmano até seus últimos dias3. Como afirmou Manning Marable:

“À medida que Malcolm aprendia mais sobre o Islã ortodoxo, ele ficou determinado a propagar o significado dessa fé para o público, independentemente da raça. […] Ele estendeu a mão para seitas e organizações islâmicas que refletiam opiniões e princípios teológicos amplamente divergentes – muçulmanos wahhabistas na Arábia Saudita, socialistas nas seristas no Egito, sufis africanos no Senegal, a Irmandade Muçulmana no Líbano, a Organização para a Libertação da Palestina. Ele evitou discussões que colocavam os muçulmanos uns contra os outros; ele enfatizou a capacidade do Islã de transformar o crente do ódio e da intolerância para o amor.”4

Ainda assim, George Breitman acredita que, apesar de sua conversão na prisão, a religião nunca foi uma preocupação dominante para Malcolm5. Mesmo que não falasse explicitamente em termos de lutas de classes e ditadura do proletariado — ele nunca foi um marxista — e defendesse a luta por “direitos humanos”, Malcolm demonstrava grande admiração pela China popular, por Cuba e pelo Vietnã, assim como por seus principais dirigentes6. Afinal, mesmo que com uma “gramática” distinta dos marxistas, ele apoiou as lutas anti-imperialistas, anticolonialistas e antissistêmicas em todo o Terceiro Mundo, sendo influenciado por conhecidos intelectuais e líderes africanos, asiáticos e latino-americanos (nesse último caso, especialmente os cubanos).

Os últimos meses de vida de Malcolm foram muito importantes para que ele seguisse por esse caminho. Ao longo do tempo, seu discurso mudou gradualmente e, cada vez mais, ele foi adotando uma postura anticapitalista, aproximando-se bastante das ideias de revolucionários como Che Guevara e Fidel Castro (ele também tinha grande respeito pelo Socialist Workers Party, nos Estados Unidos)7. Nesse fazer, buscaria transcender as fronteiras norte-americanas e “internacionalizar” o combate contra a opressão nacional, o racismo e a exploração dos povos periféricos, condenando de maneira firme os Estados Unidos por suas atividades criminosas em todas as partes do planeta8. Há quem diga, inclusive, que “durante sua vida, ele [Malcom] buscou força ideológica onde quer que a encontrasse, nos ensinamentos sociais e econômicos de sua própria religião do Islã e na análise econômica de Karl Marx. Ele se inspirou nas grandes conquistas da República Popular da China e de Cuba, pegando ideias de todos os quadrantes e acrescentando-as ao considerável capital mental que possuía”9. Alguns até mesmo acham que ele estava no limite para se tornar um “socialista revolucionário”10.

No entanto, se durante um bom tempo ele se definiu como um black nationalist freedom fighter11, isso mudou nos seus últimos meses de vida. Quando criou a Muslim Mosque, Inc., em março de 1964, por exemplo, Malcolm disse: “Nossa filosofia política será o nacionalismo negro. Nossa filosofia econômica e social será o nacionalismo negro. Nossa ênfase cultural será o nacionalismo negro”12. Mas isso durou pouco tempo. Alguns meses depois, sua visão seria outra. O conceito de “nacionalismo negro”, afinal, se tornou limitante para ele diante do objetivo de evitar qualquer sectarismo e incentivar a participação daqueles que não fossem muçulmanos. A Organização da Unidade Afro-Americana (OAAU) seria uma ferramenta política que poderia auxiliar nesta tarefa, quiçá a partir de táticas mais flexíveis para conseguir uma unidade de ação com dirigentes de outras organizações. Em sua entrevista para a revista Young Socialist, de 18 de janeiro de 1965, ele expressa uma nova posição:

“Eu costumava definir o nacionalismo negro como a ideia de que o homem negro deve controlar a economia de sua comunidade, a política de sua comunidade etc. Mas em maio, quando me encontrava em Gana, falei com o embaixador da Argélia, um militante resoluto, um revolucionário no verdadeiro sentido da palavra (o que ele demonstrou amplamente ao dirigir em seu país uma revolução vitoriosa contra a opressão). Quando lhe disse que minha filosofia econômica, social e política era o nacionalismo negro, me perguntou com franqueza: ‘Bem, e onde você me situa?’. Porque ele era branco. Ele era africano, da Argélia, e por sua aparência, era um homem branco. E ele me disse que seu eu definia meu objetivo como a vitória do nacionalismo negro, onde isto o colocava? Onde eu situava os revolucionários do Marrocos, Egito, Iraque, Mauritânia? E me demonstrou que eu alienava as pessoas que eram verdadeiramente revolucionárias, dedicadas em derrocar, por todos os meios necessários, o sistema de exploração que prevalece neste mundo. Isto me obrigou a pensar e a reavaliar bastante minha definição de nacionalismo negro. Podemos dizer que o nacionalismo negro compreende a solução de todos os problemas que enfrenta nosso povo? E se vocês perceberam, não utilizei mais essa expressão há vários meses.”13

* Este é um trecho do artigo “Malcolm X: legado de um revolucionário”, publicado na edição de número 44 da revista Margem Esquerda.

Notas

  1. “My whole life had been a chronology of – changes.” Malcolm X e Alex Haley, The Autobiography of Malcolm X (Nova York, Ballantine Books, 1999 [1965]), p. 390. Ver também Igor Gueevski e Svetlana Chervónnaia, “Malcolm X”, em Los negros norteamericanos (Moscou, Academia de Ciencias de la URSS/Instituto Miklujo Maklai de Etnografia, 1987), p. 92. ↩︎
  2. Ver Manning Marable, Malcolm X: A Life of Reinvention (Nova York, Viking, 2011), p. 165-7, 223-4 e 252 [ed. bras.: Malcolm X: uma vida de reinvenções, trad. Berilo Vargas, São Paulo, Companhia das Letras, 2013]. ↩︎
  3. Ver Malcolm X, “No sólo un problema norteamericano sino un problema mundial” [16 fev. 1965], em Malcolm X, Habla Malcolm X: discursos, entrevistas y declaraciones (Havana, Editorial de Ciencias Sociales, 2008), p. 164-5. ↩︎
  4. Manning Marable, Malcolm X: A Life of Reinvention, cit., p. 486 [ed. bras.: p. 538-9]. ↩︎
  5. Ver George Breitman, The Last Year of Malcolm X: The Evolution of a Revolutionary (Nova York, Schocken Books, 1967), p. 7. ↩︎
  6. Malcolm X diria: “Sou um muçulmano e um revolucionário, e estou aprendendo cada vez mais sobre teorias políticas à medida que passam os meses. O único grupo marxista nos Estados Unidos que me ofereceu uma tribuna foi o Socialist Workers Party. Eu os respeito e eles me respeitam. Os comunistas me rejeitaram, saíram de sua rota para me atacar… quer dizer, com exceção dos comunistas cubanos. Se uma mistura de nacionalismo e marxismo faz os cubanos lutarem do jeito que lutam e faz os vietnamitas se levantarem tão resolutamente contra o poder dos Estados Unidos e seus lacaios europeus e de outras partes do mundo, então deve haver algo de bom nisso”; ver Jan Carew, Ghosts in Our Blood: With Malcolm X in Africa, England, and the Caribbean (Chicago, Lawrence Hill, 1994), p. 36. Já em relação aos intelectuais negros e seu papel na luta pela libertação africana: “Há uma tendência superficial entre alguns de nossos intelectuais de que a leitura de citações de Marx, Lênin e Mao Tsé-tung pode torná-los mestres das teorias revolucionárias desenvolvidas por esses grandes homens. O intelectualismo, a meu ver, não é apenas a recitação do marxismo, do leninismo e das teorias de Mao Tsé-tung. Qualquer um que faça mau uso das obras desses grandes homens ou atribua a si mesmo suas frases progressistas para seus próprios fins está cometendo um grave crime contra a raça negra. Um estudioso, na minha opinião, representa um orientador em um período revolucionário e é o elo que une o abstrato e o concreto”; ver Mburumba Kerina, “Malcolm X: The Apostle of Defiance, An African View”, em John Henrik Clarke (org.), Malcolm X: The Man and His Times (Toronto, Macmillan, 1969), p. 117. ↩︎
  7. De acordo com Manning Marable, “por décadas, o SWP [Partido Socialista dos Trabalhadores] havia promovido o nacionalismo negro revolucionário. O próprio Leon Trótski acreditara que os negros norte-americanos seriam a vanguarda da inevitável revolução socialista nos Estados Unidos. A separação de Malcolm da Nação do Islã e seu endosso ao registro eleitoral e protestos de massa por afro-americanos parecia aos trotskistas um movimento em direção ao socialismo”; Manning Marable, Malcolm X, cit., p. 302 [ed. bras.: p. 339]. Em 8 de abril de 1964, Malcolm daria uma palestra no Palm Gardens de Nova York patrocinada pelo Fórum Trabalhista Militante, um grupo ligado ao SWP. Para Marable, “em teoria, ele estava falando para um grupo eclético de ativistas marxistas independentes não alinhados e nacionalistas negros, mas na realidade era majoritariamente um público marxista com muitos seguidores fiéis de Malcolm também na audiência”; idem, p. 305 [ed. bras.: p. 342-3]. O intelectual marxista negro norte-americano Adolph Reed, por sua vez, comentaria: “O Partido Socialista dos Trabalhadores me atraiu, alguns meses antes do assassinato de King, em parte porque o SWP procurou ativamente se identificar com Malcolm, prometendo unir o marxismo e a sensibilidade do Black Power, que parecia ser seu legado”; Adolph Reed Jr., “The Allure of Malcolm X and the Changing Character of Black Politics”, em Joe Wood (org.), Malcolm X in Our Image (Nova York, St. Martin’s Press, 1992), p. 205. ↩︎
  8. Ver Steve Clark, “Introducción”, em Malcolm X, Habla Malcolm X, cit., p. 7. ↩︎
  9. Mburumba Kerina, “Malcolm X: The Apostle of Defiance, An African View”, em John Henrik Clarke (org.), Malcolm X: The Man and His Times, cit., p. 119. Já Amiri Baraka considerava que Malcolm admitia “que o Islã não é o único caminho para a consciência revolucionária e os muçulmanos, cristãos, nacionalistas e socialistas podem se unir como uma força anti-imperialista nos Estados Unidos”; ver Amiri Baraka, “Malcolm as Ideology”, em Joe Wood (org.), Malcolm X in Our Image, cit., p. 29. ↩︎
  10. Ver Ruby M. e Essien Udosen Essien-Udom, “Malcolm X: An International Man”, em John Henrik Clarke (org.), Malcolm X: The Man and His Times, cit., p. 237. ↩︎
  11. Manning Marable, Malcolm X: A Life of Reinvention, cit., p. 306 [ed. bras.: p. 343]. ↩︎
  12. Malcolm X, “Declaración de independência” [12 mar. 1964], em Habla Malcolm X, cit., p. 38. ↩︎
  13. Ver idem, “El sistema norteamericano de explotación y opresión” [18 jan. 1965], em Habla Malcolm X: discursos, entrevistas y declaraciones, cit., p. 137-8. ↩︎

 

Luiz Bernardo Pericás é professor de História Contemporânea na USP. Formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México), foi Visiting Scholar na Universidade do Texas.

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