Em carta, Michelle Bolsonaro pede trégua a Lula para evitar confronto com os EUA. Por Sergio Alarcon

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Micheque escreveu uma cartinha ao Presidente Lula.
Não creio que ele vá recebê-la – tampouco lê-la.
Aquele tempo grotesco em que o chefe do Executivo saía de moto pelas ruas tentando impressionar mocinhas e “ver se pintava um clima” passou.

Diante da previsível indiferença, Micheque fez o que lhe restava: leu a carta em voz alta, como se se dirigisse à nação. Mas, claro, à sua nação – aquela composta de bajuladores e curiosos em busca de exotismos político-religiosos. Não me encaixo em nenhum desses grupos. Ainda assim, o YouTube, em seu misterioso algoritmo de castigos, resolveu me exibir o vídeo.

Logo no início, quase desisti. Bastou ouvir Micheque afirmar que o Brasil teria sido ameaçado por Donald Trump por ter se tornado uma “ditadura”.
Admito: não tenho repulsa aos delírios – pelo contrário, escuto-os com curiosidade e respeito. Não é raro haver poesia no absurdo.
Mas o delírio fascista não é desses.

Ele não é inofensivo nem ingênuo. Não é loucura. Não é erro de raciocínio ou de percepção – é um método bem planejado.
É a mentira encenada como fé, o ressentimento travestido de justiça, a violência reempacotada como defesa. É um discurso que simula caos e confusão, mas opera com precisão retórica: embaralha sentidos, corrompe a linguagem e desloca os marcos da realidade.

A performance de Micheque é um exemplo acabado desse mecanismo.
Trata-se de uma narrativa fabular, profundamente ressentida, que inverte os eixos do mundo para reposicionar os sujeitos políticos: o oprimido vira tirano, o golpista se faz mártir, o fanático clama por tolerância.

Na carta, Lula – eleito para um governo de Frente Ampla – é retratado como ameaça à liberdade, enquanto ela, esposa do líder de um governo sabotador da democracia, do chefe de uma organização criminosa prestes a ser condenado e preso, se apresenta como embaixadora da paz.

Nada na cartinha foi escrito por acaso.
Sugere-se, sem provas nem lógica, que Lula está aliado a “movimentos terroristas” e a ditadores estrangeiros. Acusa-se o governo atual de conduzir o país ao abismo, omitindo que este é o terceiro mandato de um presidente que jamais atacou a Constituição, que respeitou derrotas, promoveu diálogo, conquistou estabilidade econômica e social, e governou sem recorrer à violência.

Em contrapartida, o que a carta omite salta aos olhos:
Nada sobre os ataques golpistas do 8 de janeiro. Nada sobre os planos de bomba no aeroporto. Nada sobre a tentativa concreta de ruptura institucional.
Nada sobre o plano de assassinar Alexandre de Moraes, José Dirceu, Geraldo Alckmin, e o próprio Lula…

E então, no auge da encenação, Micheque faz seu gesto de conciliação: pede que Lula “abaixe as armas da provocação” e “hasteie a bandeira da paz”.
É a velha lógica da chantagem moral: ou você aceita a falsa premissa – enviesada, inverossímil, desonesta – ou será o “radical”, o “divisionista”, o “violento”.
Uma armadilha discursiva na qual o convite à paz funciona como uma convocação à rendição simbólica.

É aí que reside a astúcia suja do fascismo: ele jamais se mostra por inteiro. Ele vem em forma de apelo, de dúvida, à vezes até de palavra doce. Mas sua raiz é sempre o ódio – e seu método, a mentira.

No final de A Resistível Ascensão de Arturo Ui, escrita por Brecht em 1941 como uma parábola da escalada nazista, o dramaturgo nos deixa o aviso:

Der Schoß ist fruchtbar noch, aus dem das kroch.
(“O útero de onde rastejou aquela coisa, ainda é fértil.”)

No Brasil, essa frase tornou-se outra:
“A cadela do fascismo está sempre no cio.”

Brecht nos faz um alerta duro, brutal, verdadeiro e atemporal: o fascismo não morre – ele hiberna. Espera.
Quando o ambiente é fértil – quando o ressentimento se alastra, quando a democracia vacila, quando o medo se torna projeto – ele retorna. Com outra roupa, outra estética, outra voz… Mas sempre com a mesma sanha.

Hoje, seus representantes no Brasil estão acuados. Jair, à beira da prisão. Dudu, exilado. Os velhos aliados, divididos. Os 300 picaretas no Congresso, postos na defensiva.
A cartinha abilolada é, na verdade, Micheque assumindo o papel de porta-voz de um pedido velado de clemência.

E mesmo assim, ensaiam novo fôlego: pedem intervenção estrangeira, fantasiam novas marchas, cultivam o desejo por novos mártires.
O cio segue – basta uma brecha, e outra ninhada monstruosa virá rastejando contra a democracia.

Por isso, o combate não pode cessar.
Contra o fascismo, não há reconciliação possível.
Não há abraço, não há gesto de boa vontade que o transforme em diálogo legítimo.

A resposta é uma só: enfrentamento. Sempre. Sem fim. Sem anistia.

Ilustração: Cérbero, por Philippe Semeria.
Creative Commons. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cerb%C3%A8re_by_Philippe_Semeria.jpg

Encaminhada para Combate Racismo Ambiental por José Costa.

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