Nunca foi depressão

Por Eliara Santana

Em novembro de 2022, Jair Bolsonaro as recolheu da vida público-midiática após a derrota. Ele se recolheu no Planalto, e caravanas de apoiadores políticos passaram a visitá-lo. Diziam que ele estava “deprimido”. Não dava entrevistas, não falava com ninguém. Mas recebia as caravanas. A esquerda comemorava: “está deprimido”, “perdeu, mané”, “tá derrotado, acabou”. À época, eu postei que não era bem assim, que o recolhimento era muito mais estratégia do que depressão – ele é milico e safado, ou um combo dos dois, milico-safado, e sabe simular emoções e construir narrativa de perseguição como ninguém.

Pois bem, em dezembro, ele foi para os EUA. Por aqui, diziam: “acabou”, “está arrasado”, “não vai voltar mais”. Meus cabelinhos da nuca estavam eriçados: bandido, quando recua, é para contra-ataque. Eu estava vendo a mobilização nas redes, que não havia cessado. E que já falava em golpe. Mas, Lula havia ganhado, havia um clima de festa, Natal chegando… deixemos os temores de lado um pouquinho.

Chega janeiro de 2023. Posse festiva, gigantesca, país (aparentemente) apaziguado. Nenhum problema à vista.

Só que não…

8 de janeiro. Brasil amanhece em choque. “Nossa, como isso aconteceu? Não havia sinais”. Minha gente, minha gente… precisamos de letramento de sinais. TODOS OS SINAIS estavam dados. Não quisemos ver, talvez, pelo republicanismo que nos impede de enxergar os ratos que se camuflam e pela então incapacidade de perceber a potência do ecossistema de desinformação.

Jair está em prisão domiciliar. Quando foi preso, diziam “acabou”, “cachorro morto”, “ vai mofar na Papuda”. Após pressões, a torcida do Atlético e a torcida do Flamengo podem visitá-lo sob argumento de que está “deprimido”. Saem de lá com falsas carinhas de peninha. Caravanas. É tanta gente que o condomínio de ricos em Brasília já reclama do movimento.

Congresso faz motim. Manifestação na Paulista é enorme. Do exterior, chegam apoios.

A mansão de Jair se tornou um bunker. Pra articular. Certamente, não estão discutindo tratamento pra depressão. Seguimos.

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Zelik Trajber.

Reprodução da obra “Bolsonaro”, do alemão Frank Hoppmann, publicado originalmente no jornal Paradox, de Israel, e um dos vencedores do concurso internacional de caricaturas, cartum editorial e desenhos de humor da World Press Cartoon (WPC)

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

19 + dezesseis =