Uma vala clandestina, aberta sem registro algum na documentação do Cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus da cidade de São Paulo, foi usada pela ditadura militar para esconder mais de mil corpos em 1975. Sua descoberta foi anunciada publicamente depois da democratização do país, em 4 de setembro de 1990, durante o governo da prefeita Luíza Erundina. Os remanescentes ósseos constituíram mais uma inegável prova material dos crimes de lesa-humanidade da ditadura para os que ainda queriam negar que ela havia sequestrado, torturado, executado e escondido corpos.
O jornalista Caco Barcellos fazia matéria sobre as vítimas da violência policial e foi avisado da existência da vala por Antônio Pires Eustáquio, administrador do Cemitério. A Câmara dos Vereadores de São Paulo abriu uma CPI para investigar. A vereadora Tereza Lajolo foi a responsável pela elaboração do relatório, de 1991, que comprovou o uso do Serviço Funerário do Município para a prática dos desaparecimentos. Tratou-se da primeira comissão pública a investigar os crimes da ditadura.
Quem eram essas pessoas escondidas na Vala de Perus? Crianças vítimas da epidemia de meningite, cuja notícia a ditadura censurou? Mortos pelo Esquadrão da Morte? Militantes de esquerda? Pobres e desconhecidos enterrados como “indigentes”? A sociedade brasileira ainda não sabe bem ao certo, porém todos foram atingidos, seja pelas políticas de segurança, seja pelas políticas “sociais” da época. Alguns militantes foram, de fato, lá identificados: este é o trabalho da Antropologia Forense, usar os métodos antropológicos para resolver crimes e, neste caso, revelar quem foram as vítimas.
A prefeitura de São Paulo realizou na época um convênio com a Unicamp, que contava com uma equipe chefiada pelo professor de Medicina Legal Badan Palhares, para a identificação dos remanescentes. Depois de Denis Casemiro e Frederico Eduardo Mayr terem sido, a princípio, identificados (no caso de Denis, provou-se em 2025 que a universidade errou), os trabalhos foram paralisados pela Unicamp, e os remanescentes ósseos foram deixados de lado e armazenados fora das especificações de segurança, tendo sofrido até com inundações.
Os familiares de mortos e desaparecidos descobriram a situação e sua denúncia levou o Ministério Público Federal a propor, em 2009, uma ação civil pública que tramita até hoje na Justiça Federal. Ela determina que os governos federal, do estado de São Paulo e a Prefeitura de São Paulo cumpram suas responsabilidades no trabalho de identificação dos remanescentes ósseos.
Em 2005, ocorreu mais uma identificação, de Flávio Molina, com exame genético feito em laboratório particular. Os remanescentes, porém, não estavam realmente recebendo um trabalho antropológico condizente. A USP e a UFMG, que receberam esse encargo depois, não lograram identificar mais ninguém na Vala.
Em 2014, a partir da demanda dos familiares de desaparecidos políticos, fez-se uma articulação do governo federal com a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, presidida por Adriano Diogo. A iniciativa também envolveu Amelinha Teles, então assessora da comissão; a Ministra das Mulheres, Eleonora Menicucci; a Presidenta da República Dilma Rousseff; e a reitora da Unifesp, Soraia Smaili. Dessa articulação nasceu o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (CAAF-Unifesp) em 4 de setembro de 2014.
Constituiu-se então o Grupo de Trabalho de Perus, composto pela Unifesp, a Secretaria de Direitos Humanos do governo federal e a Prefeitura de São Paulo, com um comitê de gestão, um científico e outro de acompanhamento, e que contavam também com a presença de familiares e organizações da sociedade civil. Apesar da extinção generalizada dos grupos de trabalho pelo governo Bolsonaro, em 2019, essa forma de atuação continua como o Projeto Perus, amparada na ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal.
Desde então, apesar de sua quase paralisação durante a administração de Jair Bolsonaro, que deixou de enviar a verba devida pelo governo federal para o projeto e tentou levar os remanescentes ósseos para a guarda da Polícia Federal em Brasília, o CAAF identificou mais quatro pessoas: Dimas Antônio Casemiro e Aluísio Palhano, em 2018; e Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva, em 2025.
O trabalho de identificação divide-se em três categorias, que ocorrem de forma integrada: ante mortem; postmortem; genética. Na primeira, buscam-se informações sobre a vítima — desde informações de caráter físico (como a altura e a idade) até sua trajetória, identificando também as circunstâncias do crime e o destino do corpo, o que é feito em contato com os familiares, amigos e colegas de quem desapareceu, combinando fontes orais (especialmente entrevistas) e escritas (incluindo documentos sigilosos dos órgãos de repressão e vigilância).
Os pesquisadores postmortem atuam diretamente com os remanescentes ósseos, asseguram suas condições de guarda e higienização, analisam as misturas de ossos para identificar e separar os casos, buscam neles os fatores de identificação que correspondam aos perfis dos desaparecidos segundo as informações obtidas na pesquisa ante mortem. Essa análise antropológica dos ossos, que permite identificar as faixas de idade, a altura e outras características, é fundamental: não é viável em termos econômicos e logísticos simplesmente fazer a análise genética dos mais de mil casos presentes na Vala de Perus. Além disso, há situações em que a genética não tem como dar a palavra final: nos casos de Dimas Antônio Casemiro e Denis Casemiro, dois irmãos desaparecidos, o que permitiu a diferenciação entre eles foi justamente a análise antropológica.
A pesquisa genética ajuda a determinar os familiares de quem serão colhidas as amostras e realizar os relatórios técnicos de identificação, além de assegurar a integridade das amostras. Os testes genéticos do caso da Vala de Perus são realizados na Holanda pela International Commission on Missing Persons (ICMP).
Neste aniversário de 35 anos da Abertura da Vala de Perus, e meio século após sua construção pela ditadura, para tratar dessa história e discutir o futuro, ocorrerá o I Seminário Internacional de Antropologia Forense e Direitos Humanos, realizado entre 3 e 5 de setembro de 2025, organizado pelo CAAF-Unifesp e pelo Instituto de Estudos sobre a Violência de Estado (IEVE). O seminário contará com grandes especialistas da área de Antropologia Forense, familiares de desaparecidos de crimes da ditadura e da democracia, bem como representantes da comunidade de Perus, especialmente da comunidade cultural Quilombaque, além de exposições de arte, sempre na intersecção entre memória e direitos humanos, que é um das grandes características da Antropologia Forense na América Latina.
No dia 4, haverá um ato de memória no local da Vala, no cemitério Dom Bosco, onde foi erguido um monumento em homenagem aos desaparecidos feito por Ricardo Ohtake em 1992.
A respeito da memória desse tempo, lembro do grande poeta argentino Julián Axat, filho de desaparecidos da última ditadura naquele país e membro da organização H.I.J.O.S. Ele imaginou no poema “nosotros 2011” entrar em ossários e, “entre fêmures e mandíbulas // armando puzzles impossíveis // dentes com metacarpos”, “antes de ser / a fracassada equipe / nossa-forense”, escrever um poema que “nos devolve / a pele viva / da voz” (tradução minha).
Esperemos que o evento possa fazer o mesmo: devolver a voz a esses remanescentes ósseos. Mesmo não identificados, que eles possam nos falar sobre o país de ontem e o de hoje, que ainda reluta em ouvi-los.
Pádua Fernandes é pesquisador do Projeto de Identificação dos Remanescentes Ósseos da Vala de Perus, do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (CAAF-Unifesp).
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Imagem: Monumento erguido no Cemitério de Perus, concebido por Ricardo Ohtake. Foto: CAAF-Unifesp
