Ato marcou Dia da Trabalhadora Rural, celebrado em 15 de outubro
Por Brunna Ramos, Brasil de Fato
Com cantos, faixas e alimentos nas mãos, mais de duas mil mulheres ocuparam a Esplanada dos Ministérios nesta quarta-feira (15), em Brasília, para encerrar o 2º Congresso Nacional do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). A marcha marcou o encerramento de três dias de debates e formações sobre soberania alimentar, feminismo camponês popular e políticas públicas, celebrando os 42 anos de atuação do movimento.
Realizado entre os dias 13 e 15 de outubro, na Granja do Torto, o 2º Congresso Nacional do MMC reuniu representantes de 18 estados onde o movimento está presente. Durante o encontro, o movimento aprovou seu novo documento-tese, com atualizações das diretrizes políticas desde o primeiro congresso, realizado em 2004.
Segundo Adriana Mezzadri, da direção nacional do MMC do estado de Santa Catarina, “a importância dessa celebração é também a consolidação do nosso processo de formação e luta, que vem sendo construído há dois anos para culminar nesse congresso”. Ela explica que o documento se atualiza para os desafios atuais, abordando temas como solidariedade internacional, enfrentamento à violência contra as mulheres, soberania alimentar e a aliança entre campo e cidade.
A programação contou com 20 rodas de conversa temáticas, além de uma mostra da produção camponesa e troca de sementes crioulas. Para Mirelle Diovanna, da coordenação nacional, o congresso é o maior espaço de decisão do movimento, “onde tiramos nossas deliberações, ouvimos nossas bases e definimos os rumos da militância para o próximo período”.
Ao longo dos dias, o evento contou com a participação de representantes da Via Campesina e de movimentos camponeses do continente africano. O encontro debateu a construção do feminismo camponês popular no Brasil e no mundo. “Discutimos os desafios e os caminhos que precisamos construir para avançar como movimento de mulheres do campo, das águas e das florestas, com base na solidariedade internacionalista”, afirmou Mirelle.
Mulheres em marcha
Durante os três dias de congresso, mulheres com diferentes trajetórias compartilharam experiências e reflexões. “Foram dias de muita escuta, reflexão e síntese de saberes práticos e teóricos sobre temas que nos atravessam cotidianamente”, relatou Sirley Ferreira, da direção nacional do MMC em Sergipe. Segundo ela, o congresso também foi um espaço para fazer um balanço dos desafios que ainda enfrentamos para garantir nossos direitos.
A carta final do congresso trouxe as principais deliberações do movimento. “As mulheres camponesas vão seguir avançando, sem recuar, e fortalecendo todas as instâncias do movimento, agregando mulheres da cidade, mulheres quilombolas, indígenas, LBTIs e jovens”, disse Diovanna. Entre as pautas centrais, estão o avanço da agroecologia, políticas públicas para a juventude rural e o enfrentamento à violência.
A marcha de encerramento levou as camponesas até o Palácio do Planalto, marcando também o Dia Nacional da Mulher Trabalhadora Rural, celebrado em 15 de outubro. Durante os dias, foram trocados alimentos orgânicos e sementes crioulas como símbolo da produção camponesa e da aliança entre campo e cidade.
“Essa é a importância de ocupar as ruas, as praças, para também pautar a soberania nacional, a soberania alimentar e o enfrentamento à violência contra as mulheres”, disse Mezzadri. O ato contou com a presença da ministra Márcia Lopes e de representantes de movimentos parceiros da Via Campesina, além do coletivo Mulheres do Sol.
Mirelle explicou que o ato reforça o papel do movimento na luta pela segurança alimentar: “Nós produzimos e doamos alimentos saudáveis, vindos dos nossos quintais produtivos, para partilhar com companheiras da cidade. Isso também é construção de soberania alimentar e agroecologia”.
Câmara dos Deputados
Na tarde de quarta (15), mulheres do MMC participaram da sessão da Comissão de Defesa das Mulheres na Câmara dos Deputados. Em discurso no plenário, Raniele Barbosa Soares, que compõe a base do movimento em Roraima, destacou a presença de mulheres de todo o país e a urgência de políticas públicas específicas para o campo.
“Estar aqui nesse espaço é mais do que simbólico, é necessário e urgente, porque nós trazemos a voz das mulheres do campo que são invisibilizadas”, afirmou. Camponesa de Roraima, ela disse que “as políticas públicas ainda não chegam para nós, e é por isso que precisamos ocupar esses espaços com nossa presença e com nossas propostas”.
Durante sua fala, Raniele leu trechos da carta final do congresso, reforçando a diversidade do movimento: “Somos agricultoras, pescadoras artesanais, extrativistas, assentadas, indígenas, quilombolas, mulheres do campo, das florestas e das águas. Somos fruto de muita luta por dignidade e por cidadania”.
Datas simbólicas e continuidade da luta
A escolha do dia 15 de outubro para o ato de encerramento também coincidiu com duas datas significativas para o movimento. Além de ser o Dia Nacional da Mulher Trabalhadora Rural, a véspera do dia 16 de outubro, que marca o Dia Internacional da Luta pela Soberania Alimentar.
“Essas datas são marcos da nossa luta por alimentos saudáveis, justiça social e reconhecimento do nosso trabalho. Somos mulheres que constroem esse Brasil todos os dias”, afirmou Sirley Ferreira, de Sergipe.
Aliança entre campo e periferia
Durante o ato de encerramento do Congresso Nacional, foi anunciada a entrega de alimentos agroecológicos para mulheres do Sol Nascente, uma das maiores comunidades periféricas do Distrito Federal, que recentemente vem sofrendo derrubadas. A doação foi feita como parte da ação política do movimento que busca unir campo e cidade na construção da soberania alimentar.
Os alimentos entregues foram produzidos por mulheres camponesas em quintais produtivos e enviados por meio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
“Essa doação é símbolo da nossa solidariedade entre as mulheres. Nós produzimos comida saudável no campo e partilhamos com quem também luta por dignidade na cidade”, afirmou Diovanna.
Editado por: Clivia Mesquita
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Imagem: entre os dias 13 e 15 de outubro, na Granja do Torto, o 2º Congresso Nacional do MMC reuniu representantes de 18 estados – Foto: Brunna Ramos
