A voz que o tempo não apagou. Por José Carlos Costa

Porque algumas lições não estão nos livros — estão nas pessoas que nos marcam para sempre.

Sessenta anos se passaram tal como quem estende a mão para um livro esquecido na estante — não por acaso, mas porque algo nele pulsa, chama, insiste em ser lido. Um livro ainda intacto, mas que parecia aguardar por mim há décadas, como se soubesse que, um dia, eu voltaria para abrir suas páginas. E ao tocá-lo, fui conduzido não apenas à leitura, mas a uma travessia no tempo.

Foi assim que aconteceu. Eu caminhava por um shopping em Belo Horizonte, distraído entre vitrines e passos apressados, quando uma voz atravessou o ar e me alcançou. Não vi quem falava. Apenas ouvi. E naquele instante, como quem escuta o eco da própria infância, fui lançado de volta a um tempo remoto — sessenta anos atrás. Soube, sem dúvida ou hesitação: era ela. Minha professora do curso primário, de 1960. Eu tinha onze anos. Ela, a última a me ensinar antes que a vida me empurrasse para outros saberes. A voz dela, guardada em mim como se fosse uma fotografia sonora, emergiu intacta. Entrei na loja, pedi licença e perguntei — quase como quem pede permissão ao passado — se era quem eu pensava. Ela confirmou. E ali, entre sapatos e memórias, nos emocionamos.

Mas essa história não começa ali, naquele reencontro tardio. Começa muito antes — numa sala de aula modesta, onde carteiras de madeira rangiam sob os cotovelos curiosos de crianças em formação, e o cheiro de giz pairava no ar como uma espécie de perfume do saber. Essa história começa no Grupo Escolar Santo Antônio, nome que ainda hoje ressoa com ternura e saudade. Quarto ano primário. Tempo de descobertas e encantamentos.

O “Santo Antônio” não era apenas uma escola — era um território afetivo. No recreio, o mingau de fubá fumegava em canecas de alumínio, feito e servido com carinho por Cecília e Dona Miluquinha, cujas mãos pareciam conhecer o segredo de alimentar não só o corpo, mas também o afeto. Aquele mingau tinha gosto de cuidado, de casa, de infância protegida.

Mas, no meu retorno ao tempo, essa história começa com uma criança que ainda não sabia o que era o tempo, mas já sentia que havia algo sagrado na atenção de um adulto que ensina. Ela não era apenas professora — era presença. Tinha o dom de fazer com que cada aluno se sentisse escolhido. E talvez tenha sido isso que ficou: a sensação de ter sido visto, ouvido, acolhido.

A psicanálise nos ensina que o sujeito se constitui na palavra do outro. Lacan diria que é no campo do Outro que o eu se forma. E ali, naquela sala de aula, eu fui nomeado. Fui chamado pelo meu nome, corrigido com firmeza, elogiado com parcimônia, e isso me deu contorno. A voz dela não era apenas som — era gesto, era cuidado, era estrutura. Winnicott falaria da “mãe suficientemente boa”; eu diria que ela foi a professora suficientemente boa. Aquela que não apenas ensinava, mas sustentava. Sem oprimir, sem humilhar, sem bater. Não desrespeitava a individualidade de suas crianças com castigos e insultos.

Sim, porque, em outras salas, por mínimas travessuras, por uma conversa fora de hora, havia uma ou outra professora que corrigia com beliscões, puxões de orelha, reguadas nos braços… Por um dever de casa não feito, alunos ficavam de castigo, em pé, no canto da sala, mirando a parede, engolindo o choro e a humilhação, sem saber até quando duraria aquele sofrimento.

A nossa turma era privilegiada. A nossa professora, possivelmente no exercício do seu terceiro ou quarto ano de magistério, aos nossos olhos era puro encantamento, muito bela sob todos os aspectos. Não nos humilhava, não exigia perfeição de nós, crianças. A sua autoridade nascia do respeito que lhe dedicávamos, da admiração, do amor que sentíamos por ela.

Lembro-me com nitidez — como quem folheia um capítulo querido da própria infância — do nosso Clube de Leitura. Era sempre às quintas-feiras, após o recreio, quando o tempo parecia desacelerar para que as palavras encontrassem morada em nós. Por um período, fui eleito presidente daquele pequeno universo de livros e vozes. E que orgulho eu sentia! Cabia-me, com cerimônia quase ritual, buscar os volumes na estante da nossa sala e distribuí-los entre os colegas, como quem reparte pão fresco buscado ali na padaria do Sr. Targino Lima, na Rua Paracatu, no meio do quarteirão seguinte ao do grupo escolar.

Hoje, tantos anos depois, lamento não recordar todos os nomes que compunham aquele círculo silencioso e atento. Mas alguns resistem ao esquecimento, como personagens que se recusam a sair da história: Alonso, Lucinho Coelho e Alcides Costa (filho de Pedroca e de D. Duzinha), infelizmente falecido. Das colegas, guardo com carinho os nomes de Alice Rodrigues, Idalina Carneiro, Terezinha, Sônia Ribeiro (de Baianinho), Marluce Ornelas, Lourdes e uma loirinha linda, salvo engano, chamava-se Esvetiana — cada uma com seu jeito de escutar e imaginar, como se o livro se revelasse diferente em cada par de olhos.

As demais aulas também tinham o seu encanto, mas havia algo especial naquelas manhãs de quinta. Nos demais dias, seguíamos a Cartilha da Lili com a disciplina dos que descobrem o mundo letra por letra. E havia ainda o livro de leitura diária, cujo título parecia ter sido escolhido por um poeta: As mais belas histórias, Quarto Livro, de Lúcia Casasanta. Até o sobrenome da autora é mágico. Nunca um nome coube tão bem a um livro. Eram, de fato, histórias belas e inesquecíveis, que nos enriqueciam a imaginação como quem planta sementes em terra fértil.

Na hora de escrever uma Composição — palavra que mais tarde, no ginasial, ganharia o nome de Redação — era como se aquelas histórias viessem nos visitar. Elas sopravam ideias, imagens, personagens. E nós, ainda pequenos, aprendíamos a dar forma ao pensamento, a costurar sentimentos com palavras, a transformar o cotidiano em narrativa.

Hoje, ao revisitar essas lembranças, percebo que aquele Clube de Leitura foi mais do que uma atividade escolar. Foi um ensaio de vida. Um lugar onde aprendemos a escutar, a partilhar, a imaginar. E talvez seja por isso que, mesmo sem lembrar todos os nomes, lembro com nitidez o silêncio respeitoso, o cheiro dos livros, o som das páginas virando — como se o tempo, ali, tivesse aprendido a ler conosco. Mais que tudo isso: a presença da nossa professora, ali, pertinho de nós, transmitindo-nos tranquilidade.

O tempo passou. Vieram outros mestres, outras mestras, outras vozes, outras ausências. Mas aquela ficou. Silenciosa, como um livro que se guarda sem ler, mas que se sabe importante. E então, sessenta anos depois, a vida me devolve a voz. Não o rosto, não a imagem — a voz. E isso me comove profundamente. Porque é como se o inconsciente tivesse guardado não o que ela disse, mas como ela dizia. O timbre, a cadência, o afeto.

Hoje, ao escrever esta crônica, compreendo que aquele reencontro não foi mero acaso. Foi como se o inconsciente, paciente e silencioso, tivesse bordado ao longo de décadas uma trama invisível entre tempos distintos —e, num gesto súbito, puxasse o fio que ainda me ligava à origem. A vida, com sua sabedoria discreta, parecia sussurrar: “Ainda há raízes que sustentam o que você se tornou.”

E eu, tocado por essa revelação, apenas agradeço. Agradeço sobretudo pelo amor à escrita e aos livros que ela, minha professora, semeou em mim com mãos firmes e ternura rara. Amor que, ao longo da vida, cultivei como quem cuida de um jardim secreto — onde cada palavra germina com sentido, cada leitura é um reencontro.

Algumas pessoas passam pela nossa vida como estações: deixam marcas, mudam o clima, mas seguem adiante. Outras, no entanto, permanecem — não porque ficaram, mas porque se tornaram parte de quem somos. Esta crônica é mais do que um tributo. É um gesto de gratidão àquela que permanece viva e eterna na minha memória afetiva: a mais amada entre todas, a professora que jamais esqueci.

Nos tempos do “Santo Antônio”, ela era Maria do Perpétuo Socorro — para nós, simplesmente a professora Socorro. Nascida em Januária, Minas Gerais, aniversaria em 9 de março, dois dias antes de mim — coincidência que, na infância, me parecia um sinal de afinidade.

Hoje, já aposentada, é a Dra. Maria do Socorro Diamantino Marques. Advogada, casada, mãe de dois filhos, vive em Belo Horizonte desde 1965. E, apesar dos títulos e do tempo, continua a mesma: simples, serena, sem afetações — como se o tempo tivesse respeitado a essência de quem sempre ensinou com o coração.

Entre o menino que aprendia a escrever composições e o homem que hoje redige esta crônica, há um elo que não se rompeu. E esse elo tem nome, tem voz, tem história. Tem Socorro.

*JOSÉ CARLOS COSTA é professor e pedagogo aposentado, reside em Pirapora-MG

Imagem gerada por IA.

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

um × 4 =