No Brasil não temos pena de morte como mecanismo legal, mas existe uma autorização social, política e econômica para chegar nas favelas e regiões periféricas “atirando na cabecinha”
No dia 28 de outubro de 2025, o governo do estado do Rio de Janeiro realizou a maior operação policial da história levando a 119 mortos, dentre civis e policiais, e 113 presos. A ação nos Complexos da Penha e do Alemão teve início logo pela madrugada, atravessando a região e, posteriormente, toda a capital. Como consequência tivemos diversas ruas e avenidas com barricadas, serviços de saúde e assistência fechados, pânico e violência em todos os lugares. Cabe lembrar que a pior chacina ocorrida anteriormente foi na favela do Jacarezinho, em 2021, levando a óbito 28 pessoas.
A “Guerra às Drogas” é a justificativa utilizada para estabelecer o estado permanente de guerra e exterminar todos aqueles que são “reconhecidos” como perigosos e inimigos. No Brasil não temos pena de morte como mecanismo legal, mas existe uma autorização social, política e econômica para chegar nas favelas e regiões periféricas “atirando na cabecinha”, conforme anunciou, em 2018, o ex-governador Wilson Witzel. Ou seja, o Estado autoriza-se a exterminar a população negra, pobre, periférica e favelada, sem o menor constrangimento.
A megaoperação policial não apenas demonstra a falência da política de segurança no estado do Rio de Janeiro, como declara o ódio destinado a população pobre e favelada. O lastro da morte e da destruição não cabem nos dados divulgados oficialmente, pois ainda temos aqueles que ficam pelo caminho sem identificação e reconhecimento. A eliminação proporcionada pelas operações tem consequências físicas, psíquicas e simbólicas marcando seriamente a população.
O estado permanente de guerra naturalizado no cotidiano fluminense ainda não entra na estatística oficial dos serviços de saúde mental, o que é de fundamental importância para compreendermos os impactos da violência armada na saúde da população. A bala que executou os 119 mortos oficiais – e daqueles não oficiais – continua girando e atravessando o peito das mulheres, das crianças, dos adolescentes, dos jovens, dos idosos e de toda a população desse território. Por consequência, em breve, teremos as vítimas indiretas dessa chacina e infelizmente não haverá dados estatísticos demonstrando que a política de extermínio continua operando cotidianamente.
No livro Na mira do fuzil: a saúde mental das mulheres negras em questão, publicado em 2023, pela Editora Hucitec e o Selo Diálogos da Diáspora, tratamos sobre os impactos do estado permanente de guerra na saúde mental de mulheres mães de vítimas de violência armada. Nos depoimentos coletados foi possível identificar o processo de adoecimento psicossocial gerado pela morte ou mutilação dos filhos. Grande parte apresentou adoecimento físico, como hipertensão, diabetes, câncer, doenças cardiovasculares, dentre outros, assim como o adoecimento psíquico. Em alguns casos, temos depoimentos que lembram de outras mulheres que “morreram de tristeza” e não resistiram ao tamanho da dor.
Dessa maneira, podemos dizer que temos estabelecido como sociabilidade, e projeto político o tombamento de corpos, a dilaceração simbólica dessas pessoas e a mortificação em vida. Ou seja, não basta exterminar, é preciso demostrar que tais mortos são da “pior espécie” e, por isso, mereceram a eliminação. Por outro lado, deixa-se registrado para a comunidade e a família que existe uma vigilância permanente tendo a violência como linguagem corporal e psíquica. Já as vítimas indiretas vão ser atravessadas por uma dor que não poderá ser arrancada ou “curada”, tendo que adaptar-se ou sucumbir, tornando-se mais um afetado.
O projeto político de extermínio continuará produzindo dor e destruição, o que significa que não estamos tratando apenas de segurança pública. A pauta da saúde mental é fundamental, uma vez que estamos lidando com um estado permanente de guerra que continuará perpetuando o extermínio físico e psíquico. Diariamente temos a produção do trauma psicossocial que precisa ser tratado como caso de saúde pública e criado dispositivos de cuidado em saúde mental, na perspectiva da atenção psicossocial, para viabilizar suporte e reparação para as pessoas que foram lesionadas pela violência armada. Ou continuaremos produzindo dor e destruição?
É urgente que seja implementada uma política pública que objetive o acesso à justiça, reparação e atenção psicossocial, já que a estratégia de destruição está legitimada. Não podemos avançar no campo dos direitos sociais sem que tenhamos mudanças concretas e efetivas para garantir o direito ao cuidado, a saúde mental e ao bem-estar. Agora é o momento de reconhecer os mortos e contabilizar os estragos produzidos pela política do extermínio, mas não sem esquecer que a chacina fluminense marcou para sempre nossas vidas. Afinal, quem contabiliza os nossos mortos?
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Rachel Gouveia Passos é Professora da Graduação e da Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Coordenadora da Pesquisa Censo Psicossocial dos usuários dos serviços de saúde mental do estado do Rio de Janeiro e do Projeto de Pesquisa e Extensão Luta Antimanicomial e Feminismos. Autora de artigos e livros sobre saúde mental e as relações de gênero, raça e classe.
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Imagem: Agentes da prefeitura limpam rua onde os corpos da chacina encontrados pela comunidade foram depositados por ela, antes de saírem para o IML, na chamada “Operação Contenção”. Crédito: Tânia Rêgo /Agência Brasil.
