O neoimperialismo mostra sua cara. Por Celi Pinto

Estamos frente a um novo momento do imperialismo capitalista que, antes de tudo, dispensou completamente a ideia de democracia

No Sul21

Não vou começar meu primeiro artigo de 2026 desejando “Feliz Ano Novo”, porque não acredito que o será; prefiro desejar força, resistência e resiliência para superar o que nos espera.

Todos e todas estamos paralisados frente à invasão da Venezuela pelos Estados Unidos no último dia 3 de janeiro. Muito tem se dito e pouco se sabe sobre o que vai acontecer; não serei mais uma a dar opiniões e argumentar com fatos autoexplicativos. Não tenho expertise em política internacional para fazer uma análise adequada e, de opiniões mirabolantes e pouco sérias, a mídia e as redes sociais já nos trouxeram o suficiente.

O que me interessa como fenômeno é a nova fase do imperialismo da nação mais poderosa do mundo em relação à interferência direta sobre as nações que estão sob suas áreas de influência. Estou particularmente interessada na questão latino-americana, apesar de reconhecer que o fenômeno é de muito maior amplitude. Chamarei aqui de neoimperialismo, porque o movimento tem facetas muito inovadoras.

Parto do pressuposto de que estamos frente a um modelo de intervenção imperialista muito diferenciado, em sua forma de agir, daquele que aconteceu nas décadas de 1960 e 1970 no subcontinente latino-americano. Isso ocorre por duas razões: pela falta de um inimigo ideológico a enfrentar e, paradoxalmente, pela existência de uma ideologia de extrema-direita bem articulada, que bebe em águas do fascismo clássico — águas por muito tempo proibidas após desembocarem na II Guerra Mundial.

As intervenções dos Estados Unidos nos países latino-americanos nas décadas de 1960/70 foram feitas de forma dissimulada, utilizando-se de igrejas, fundações de assistência, programas de desenvolvimento e treinamentos teoricamente técnicos de militares e policiais em academias estadunidenses para desestabilizar governos. Tudo era sempre negado pelas embaixadas e pelo Departamento de Estado, que defendiam a presença dessas instituições a partir de razões supostamente nobres ligadas à pobreza no subcontinente. Mesmo após os golpes, quando havia provas cabais — como o assassinato de Orlando Letelier, morto com uma bomba em seu carro em Washington, em 1976 —, os Estados Unidos se eximiam de responsabilidades.

Por outro lado, quando o governo dos Estados Unidos apoiava as ditaduras latino-americanas, agia em oposição ao que era visto como “perigo comunista”, a partir de uma cartilha de defesa da democracia. E o perigo comunista não era uma fantasia. Mesmo que um regime à moda soviética dificilmente se instalasse na América Latina, havia Cuba, havia grupos de esquerda organizados (inclusive de guerrilha) e havia um sonho de socialismo. Na verdade, os EUA tinham razões para temer um Allende ou um João Goulart. O mais interessante em tudo isso é que os estadunidenses, assim como os militares ditadores da América Latina, diziam-se defensores da democracia, apesar do regime de terror que impingiam aos povos de seus respectivos países.

Naquele contexto, democracia era sinônimo de capitalismo e a negação dos comunistas que, quando calmos, “comiam criancinhas” (no sentido canibal do termo). Os ditadores militares se apresentavam como antipolíticos e tecnocratas; os regimes que instalaram eram, ao contrário dos totalitarismos, contramobilizadores. Nunca pensaram em militarizar escolas públicas, por exemplo. Se as fantasias sobre o comunismo podiam soar algumas vezes hilárias, havia um princípio de verdade nelas: o comunismo — para eles sinônimo de socialismo — tinha um projeto de sociedade, um projeto de sistema econômico e um projeto de bem-viver.

As grandes novidades do neoimperialismo do segundo milênio estão nas características distintas das intervenções e na ideologia. Se antes apenas a pesquisa de historiadores e as manifestações tardias de diplomatas conseguiam provar que a interferência estadunidense realmente ocorreu, agora a intervenção é anunciada; sua preparação é vista em tempo real nas redes sociais e nas TVs. Trump avisou que invadiria a Venezuela, já mandou recado de uma possível nova invasão ao governo chavista que ele próprio lá manteve e ameaçou a democrática Colômbia.

Trump não é “destrambelhado”, e o governo dos EUA não está nas mãos de um louco que pensa uma coisa num dia e outra no seguinte. Esta é uma interpretação muito jocosa para jornalistas de programas de TV vespertinos, mas não para uma análise séria. O capitalismo estadunidense, responsável pela nação mais rica do mundo, estaria na dependência dos humores de um bando de malucos irresponsáveis? Trump pode ser, no máximo, a face mais asquerosa e de grande serventia para os interesses do capital.

Isto posto, estamos frente a um novo momento do imperialismo capitalista que, antes de tudo, dispensou completamente a ideia de democracia. Mesmo que precária, ela dava um aspecto de decência e de respeito aos direitos humanos ao discurso do Ocidente. Nas décadas de 1960/70, os opositores dos regimes ditatoriais poderiam lutar por direitos humanos; era um valor político. Agora, não é mais. E isto não é pouca coisa.

Se antes a ideologia organizada estava com o “inimigo”, como bradavam os operadores estadunidenses, agora ela é o cerne do neoimperialismo. Este se constrói com muito mais liberdade, pois não tem um rival externo para limitar seus arroubos. Os outros grandes players mundiais, como China e Rússia, parecem mais interessados em compor com o imperialismo estadunidense para manter seus interesses geopolíticos do que em comprar brigas diretas.

A consequência imediata é o desaparecimento da noção de democracia. Sem essa “responsabilidade” e sem um contraponto externo, o neoimperialismo apropria-se velozmente de velhas premissas fascistas: a construção dos indesejáveis, o militarismo nacionalista e o expansionismo.

Os “indesejáveis” tomam forma de acordo com o cenário: podem ter características raciais, como no caso dos imigrantes, ou ser identificados em movimentos sociais — pejorativamente chamados de identitários. Entre estes, o movimento feminista é o grande alvo, pela desestruturação que sua militância implica em várias relações de poder.

O militarismo expressa-se na mudança do nome do Departamento de Defesa para “Guerra” no governo Trump, no absurdo aumento de gastos militares dos cambaleantes países da União Europeia e na própria invasão à Venezuela. O expansionismo aparece nas constantes ameaças estadunidenses que atingem até membros da OTAN, tratado do qual os próprios Estados Unidos foram os grandes articuladores.

O imperialismo do segundo milênio tirou seus véus. O que nós, latino-americanos, temos a temer não é pouco. Estamos em uma posição mais frágil do que no século passado: não temos mais uma esquerda articulada e países democráticos da região, como o Brasil, tentam provar aos EUA que são “confiáveis”. O que é ainda mais perigoso: a direita na região fortaleceu-se e não tem mais medo de ser extrema, de se declarar antidemocrática e de incorporar os princípios mais deploráveis que sustentaram o fascismo no século XX.

(*) Professora emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cientista política e historiadora.

Imagem: Charge de Latuff

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