Monitoramento aponta que índice ultrapassou o permitido em vários meses de 2025
Por Mariah Friedrich, Século Diário
Associação Juntos SOS Espírito Santo Ambiental e a Associação de Moradores, Empresários e Investidores da Enseada do Suá (Ameies) reforçaram, nos últimos dias, cobranças aos órgãos públicos a respeito do que consideram um aumento visível da poluição atmosférica por poeira sedimentável – popularmente conhecida como “pó preto” – em Vitória.
A falta de dados transparentes de monitoramento também é alvo de críticas. A Rede Manual de Poeira Sedimentável (RMPS) do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) só apresenta dados até outubro de 2025. No ponto de coleta da Enseada do Suá, de acordo com informações da RMPS, de janeiro a outubro do ano passado, a taxa média de deposição de poeira sedimentável ficou sempre acima do permitido pela legislação municipal (5 gramas por metro quadrado em 30 dias), e também acima do que é tolerado pela legislação estadual (10 gramas por metro quadrado em 30 dias) nos meses de janeiro, junho e julho.
Em agosto do ano passado, o Tribunal de Justiça do Estado (TJES) decidiu pela constitucionalidade Política de Qualidade do Ar de Vitória (Lei 10.011/2023), que apresenta parâmetros mais restritivos para a poluição, considerados mais alinhados às recomendações internacionais. Em junho, o governador Renato Casagrande (PSB) sancionou o Decreto nº 6.076 R/2025, que regulamenta a Política Estadual de Qualidade do Ar, com padrões considerados insuficientes para conter a poluição atmosférica, de acordo com movimentos sociais que atuam nesse tema.
O ambientalista Eraylton Moreschi, dirigente da Juntos SOS Ambiental, reforça a cobrança para que o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), que mantém a Rede de Monitoramento da Qualidade do Ar (RAMQAr), publique de forma regular e acessível os dados sobre o material particulado, especialmente após sucessivos relatos de acúmulo da substância em bairros como a Enseada do Suá. Até o momento.
No âmbito municipal, moradores e comerciantes também tem criticado o secretário de Meio Ambiente de Vitória, coronel Alexandre Ramalho (PL). A Ameies protocolou ofício junto à Prefeitura de Vitória cobrando explicações técnicas, fiscalização e providências diante do aumento da deposição de pó preto no bairro.
Até o momento, segundo a entidade, não houve resposta formal da administração do prefeito Lorenzo Pazolini. A comunidade relata acúmulo recorrente da poeira em residências, veículos e estabelecimentos comerciais, o que reforça a percepção de agravamento do problema. A percepção dos moradores e comerciantes é de que o problema é recorrente, enfatiza Leandro Moulin, representante da Ameies. Para ele, a ausência de respostas concretas e de dados atualizados compromete o direito à informação e à saúde da população.
As críticas também alcançam os Termos de Compromisso Ambiental (TCAs) firmados entre o governo do Estado, Vale ArcelorMittal e os ministérios públicos Federal (MPF-ES) e do Estado (MPES). Embora o Executivo afirme que metas foram cumpridas, entidades ambientais avaliam que os acordos foram ineficientes para conter a poluição em condições climáticas adversas, como períodos de vento intenso, e não garantiram a redução contínua da poeira sedimentável ao longo do ano.
As organizações defendem uma atuação integrada entre Estado e município, com fiscalização rigorosa, transparência na divulgação dos dados ambientais e a aplicação efetiva das legislações vigentes. “Não se trata de incômodo, mas de saúde pública e de cumprimento da lei”, reforça Eraylton Moreschi. A concentração nos últimos 15 dias é alarmante”, afirma. Segundo ele, vídeos publicados em suas redes sociais mostram a intensidade da poeira. “É muito pó preto mesmo. Estamos voltando ao início do século”, criticou.
Ele também questiona a eficácia das medidas adotadas até agora para reduzir a dispersão do material particulado. De acordo com ele, enquanto não houver o enclausuramento das pilhas de estocagem, especialmente em períodos de verão ou em condições climáticas desfavoráveis, o problema tende a persistir. “Tudo que foi feito até hoje são paliativos. Quando não tem vento, até reduz um pouquinho, mas quando venta, o pó preto volta todo”, disse.
As queixas recorrentes contra poluidoras como Vale e ArcelorMittal já motivaram ações civis públicas e a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito da Qualidade do Ar, conhecida como CPI do Pó Preto entre fevereiro e julho de 2024. A CPI do Pó Preto já apontava, entre outras questões, os danos à saúde da população evidenciados pelos 26 mil casos de doenças respiratórias registrados apenas na rede pública de Vitória no segundo semestre do ano anterior, período marcado por diversas ultrapassagens aos limites de poluentes estipulados pelo Decreto Estadual nº 3.463-R/2013, considerados extremamente altos e em desacordo com os padrões da Organização Mundial de Saúde (OMS) para a regulação da qualidade do ar.
Greenwashig
Moreschi também reforla críticas ao secretário estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Felipi Rigoni (União), por negacionismo e “greenwashing”, após declarações sobre o impactos na saúde da população da Grande Vitória provocados pela poeira proveniente da mineração. “Greenwashing” é uma expressão na lingua inglesa que nomeia o marketing enganoso sobre empreendimentos responsáveis por degradação ecológica e apresentados como suntentáveis.
A Juntos SOS ES Ambiental afirma que o discurso adotado pelo gestor minimiza os prejuízos causados pelas poluidoras do Complexo de Tubarão (Vale e ArcelorMittal), principais emissoras do material particulado, chamado popularmente de “pó preto”, uma poeira fina composta por partículas de minério de ferro, carvão e outros metais pesados.
Em declarações à imprensa, Rigoni tem repetido o discurso defendido pelo setor empresarial, de que não é possível respirar a poeira sedimentável porque ela “sedimenta”, não fica suspensa no ar. A ONG rebate e aponta que as partículas visíveis são, na realidade, aglomerados de nanopartículas. Estudos científicos indicam que, em ambientes úmidos — como os pulmões humanos — esses aglomerados se dissociam integralmente, tornando-se partículas menores e absorvíveis pelas células. Além disso, a poeira pode ser novamente lançada ao ar pelo fenômeno da ressuspensão, comum em períodos de vento, voltando a ser inaladas pela população.
O discurso oficial tenta enquadrar a poluição atmosférica que se espalha pela cidade e causa problemas respiratórios e impacta o meio ambiente como um simples incômodo visual, avalia o ambientalista Eraylton Moreschi, dirigente da Juntos SOS Ambiental. Ele aponta que Rigoni desconsidera evidências científicas e dados históricos que associam a poeira sedimentável a impactos à saúde pública. “Tudo o que sedimenta esteve em suspensão em algum momento. No caso do pó preto, cerca de 95% das partículas são inaláveis”, afirma.
A Juntos SOS Espírito Santo Ambiental protocolou pedido formal de informações com base na Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011), cobrando fundamentação técnica e científica para as afirmações feitas pelo gestor.
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Imagem: Leonardo Sá
