João Pessoa – PB em “alta”: turismo, mercado imobiliário e os problemas de viver. Por Sérgio Botton Barcellos e Henry Santos

Vivendo em João Pessoa não é possível deixar de perceber o que está acontecendo com a cidade, com a vida de quem vive nela e como o seu ecossistema vem sendo alterado pela quantidade de pessoas e de resíduos gerados, em especial esgoto, os preços de bens de consumo e sobre se deslocar na cidade em especial ao final da tarde. São vários exemplos e detalhes que podem ser trazidos. Claro, observa-se também o planejamento para faturar com o turismo na alta temporada e a falta de planejamento infraestrutural para os impactos disso.

Diante disso, vamos escrever uma série de cinco textos no qual vamos discorrer sobre a questão do saneamento na cidade, a questão da sustentabilidade ambiental, a desigualdade social, mobilidade urbana e turismo em massa com aporte na sociologia que é a ciência na qual trabalhamos.

João Pessoa costuma ser apresentada como um exemplo bem-sucedido de turismo “sustentável”, o ponto mais oriental das Américas e pela beleza de suas praias. A imagem de cidade verde, tranquila, dotada de praias urbanas balneáveis ou mesmo como a “nova queridinha” do Nordeste tornou-se um ativo estratégico de hype nas redes sociais e de marketing, contribuindo para projetar a capital paraibana no circuito nacional do turismo e da moradia desejável. Junto a esse discurso positivo, o turismo de massa revela contradições profundas, que dizem respeito ao modo como o espaço urbano é produzido, apropriado e governado e de como vai a vida do pessoense. Longe de ser apenas um setor econômico, o turismo e o mercado imobiliário tornaram-se um princípio organizador da cidade, com impactos sociais, ambientais e relações políticas pouco transparentes que exigem análise crítica e ação imediata dos orgãos de controle e fiscalização.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o crescimento populacional da Paraíba superou as médias nacional e nordestina, com João Pessoa destacando-se como a capital do Nordeste que mais cresceu proporcionalmente nos últimos anos. Parte significativa dos (as) novos (as) moradores (as) é composta por aposentados (as) e profissionais que atuam em regime de trabalho remoto e são atraídos (as) pela momentânea experiência turística e pela propaganda da qualidade de vida.

A literatura crítica na sociologia urbana permite compreender o turismo de massa não como efeito colateral, mas como elemento estrutural de um modelo urbano orientado pelo lucro e dissociado do bem-estar da maioria da população. No caso de João Pessoa, essa dinâmica expressa uma marca histórica do urbanismo brasileiro: a separação entre planejamento formal e realidade social (Maricato, 2000). O Estado concentra investimentos em áreas estratégicas para o capital turístico-imobiliário, como a orla e o centro histórico, enquanto bairros populares como Gramame – que recebeu mais de 40 mil novos habitantes na última década – permanecem com déficits estruturais, consolidando um “urbanismo de fachada”.

Essa seletividade espacial articula-se à financeirização da moradia, conforme analisado por Rolnik (2015). A expansão da verticalização desenfreada por meio de flats, aluguéis de curta duração e empreendimentos voltados ao turismo transforma a habitação em ativo financeiro, eleva preços e promove a expulsão indireta de moradores de baixa renda, sobretudo nas áreas mais valorizadas. Lefebvre (2001) aprofunda essa crítica ao evidenciar a negação do direito à cidade, uma vez que o espaço urbano passa a ser organizado segundo seu valor de troca, e não como obra coletiva orientada ao uso social. Já, Harvey (2005) interpreta o turismo predatório como parte da acumulação por espoliação, na qual recursos públicos, bens comuns e direitos urbanos são mobilizados para absorver as demandas de interesses privados e privatizando benefícios, socializando os custos sociais e ambientais para a maioria da população.

Essa dinâmica gera uma contradição central: o turismo depende da preservação ambiental e da qualidade de vida urbana, mas sem o planejamento adequado e com ampla participação social, como no caso de João Pessoa, gera danos nos ecossistemas costeiros, o aumento da pressão sobre infraestrutura urbana e a intensificação das desigualdades sociais. A cidade passa a viver uma tensão permanente entre ser um lugar de vida e o lugar de lucro de grupos de investidores e frações da elite local que se beneficiam da atual situação. Em períodos de alta estação especialmente, essa contradição se torna visível com o aumento do esgoto sem tratamento jogado na orla, o aumento da produção de lixo, do consumo de água e energia, na superlotação das praias.

Episódios recorrentes de despejo irregular de esgoto nas praias de Tambaú, Manaíra, Bessa e Cabo Branco expõem a dificuldade do poder público em conter práticas poluidoras protagonizadas por empreendimentos que buscam na cidade o seu lucro. Casos como o do Bar do Cuscuz, conhecido desde 2017 pelos órgãos ambientais por despejar esgoto diretamente no mar, ilustram a reincidência dessas infrações, continua até hoje sendo alvo de denúncias. Situação semelhante é a do Hotel Nord Easy, também identificado como um dos responsáveis por despejar esgoto no mar, cujo gerenciamento é feito pela Rede Nord, pertencente ao ex-secretário de Turismo de João Pessoa. Esses e outros episódios, por exemplo, evidenciam possíveis conflitos de interesse e as assimetrias na aplicação da legislação ambiental.

O discurso do turismo sustentável, ao enfatizar atributos naturais e práticas pontuais de preservação, ele tende a ocultar as relações de poder que organizam o uso do território em João Pessoa. Sustentabilidade, nesse contexto, transforma-se em retórica legitimadora, desvinculada de mecanismos efetivos de controle urbano, participação social e justiça ambiental como é o caso do Programa João Pessoa Sustentável. Fala-se em cidade verde, mas evita-se discutir quem paga o preço e como os contribuintes irão pagar os empréstimos ao BID para promover essa “sustentabilidade” e quem de fato se apropriará do montante financeiro gerado.

O desafio para os governos municipal e estadual na Paraíba, parece não ser apenas tornar o turismo mais eficiente ou mais “verde”, mas recolocar no centro do debate a pergunta fundamental: a cidade está tão boa para a sua população, quanto está para o turismo de massa e a especulação imobiliária?

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