Venezuela: o Império ameaça; e está nu. Por Antonio Martins

Ao sequestrar Maduro e escancarar o projeto de submissão da América Latina, Trump revela força e fraqueza. EUA expõem sua condição de opressores. Agora é prioritário afastar sua enorme influência, em particular no Brasil. Há caminhos para isso

Em Outras Palavras

A Venezuela não é para principiantes. No último sábado (3/1), um ataque militar maciço dos Estados Unidos, que concentram no Caribe a maior força naval agressora já reunida nas Américas, sequestrou Nicolás Maduro e decapitou o governo do país. Desde então, Donald Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio, têm multiplicado ameaças. Falaram num “segundo ataque”. Alardearam que “qualquer integrante do governo ou das forças armadas” pode sofrer o mesmo que impuseram a Maduro. Acrescentaram que Delcy Rodriguez, a vice-presidente agora em exercício, pode defrontar-se com “algo pior”. Na vociferação mais recente, o próprio Trump “assegurou” num post em rede social, em 6/1, que Washington exigirá de Caracas de 30 a 50 milhões de barris de petróleo (dois meses de produção), cuja receita seria administrada por ele em pessoa…

No mesmo dia em que esta última intimidação foi proferida, Delcy Rodriguez fez sua primeira aparição nas ruas de Caracas, na condição de presidenta interina. Escolheu como cenário um local simbólico: a Comuna Socialista José Félix Ribas, parte do projeto chavista (retomado apenas recentemente por Maduro) de criar instituições de poder e de iniciativa econômica popular. Foi categórica: “aqui governa o povo, aqui há poder constitucional”. Denunciou a ação de Trump como “agressão armada unilateral”. Exigiu que “cessem o assédio à Venezuela e a agressão ao povo de Bolívar”, e que o presidente seja libertado.

Ainda estão rolando os dados — na Venezuela e em toda a América Latina. A ação militar fulminante dos Estados Unidos e as falas de Trump desde então marcam uma guinada nas relações entre Washington e a região. O direito internacional foi violado de múltiplas maneiras; e de forma indisfarçada. A Casa Branca anuncia a volta da Doutrina Monroe e da estratégia do Big Stick, agora em versão piorada (a “Doutrina Donroe”). Mas o exame mais profundo dos fatos, que se fará a seguir, revela que seu poder tem limites.

Eles aparecem nas próprias decisões de Trump. Apesar do imenso poder bélico que reúne, e de seu esforço para concentrá-lo nas Américas (o “hemisfério ocidental” da Doutrina Monroe), o presidente não pode lançar uma invasão em larga escala, como fizeram seus antecessores recentes no Iraque e Afeganistão. Em decorrência disso, também refugou diante do passo que pareceria natural, após o sucesso do ataque: ir adiante. E tentar a mudança de regime.

A contradição entre os planos e os poderes reais de Trump abre uma brecha, e o objetivo principal deste texto é explorá-la. A América Latina, e em particular o Brasil, já não podem manter com os Estados Unidos as mesmas relações de antes — mas os governos e a opinião pública demoram a dar-se conta disso.

Não se trata de emitir declarações de protesto (as que o Brasil patrocinou ou firmou até o momento são razoáveis). A Doutrina Donroe, o ataque pioneiro à Venezuela e as ameaças subsequentes de Trump a outros países da região constituem, em conjunto, uma declaração permanente de guerra. Nesse sentido, o império está nu — pois despiu-se da roupagem que o associava, no passado, à “democracia”, à “liberdade” ou ao “Estado de direito”.

Mas o poder potencialmente agressor tira proveito de duas ordens de vulnerabilidade. A primeira, de fundo, é a ausência prolongada de projetos nacionais. Foco principal da aplicação do neoliberalismo, a maior parte dos países da América Latina continua submissa — mesmo agora, quando esta ideologia está em farrapos — à crença nas “soluções de mercado”. O Brasil é parte do grupo.

A segunda debilidade é mais específica, porém mais urgente. Por isso mesmo, sugere um ponto de partida para a ação. As brechas diante do poder da Casa Branca são especialmente graves em três dimensões: a) as tecnologias de informação, as plataformas de comunicação em rede e a inteligência artificial, onde as big techs norte-americanas, associadas à ultradireita, exercem pleno domínio; b) as Forças Armadas, cujo armamento, comunicação e logística estão subordinados aos Estados Unidos; c) a diplomacia, que permanece incapaz de enxergar — e, muito menos, de explorar — as novas possibilidades abertas pelo declínio da ordem eurocêntrica. Segue cega, em especial, como se verá, aos acenos múltiplos lançados pela China.

Certos riscos são também oportunidades. Há três décadas, a esquerda brasileira vive um processo de institucionalização que a afastou de pensar — e projetar para a população — um horizonte histórico. Há agora um estridente sinal de alerta. Ele ajudará a despertar da letargia?

 

I. O assalto


Não saia à caça de traidores. Uma desigualdade brutal de forças tornou o sequestro possível

Poucas horas separam dois fatos surpreendentes — um dependente do outro. Por volta das duas da madrugada de sábado (3/1), após meses de preparativos, o peso das forças militares mais poderosas do planeta abateu-se como um raio sobre Caracas. Começava a operação Decisão Absoluta (“Absolute Resolve”), que se desenrolaria em pouco mais de duas horas. Os pilotos de 150 aviões, estacionados em bases aéreas e em embarcações de guerra deslocadas para o Caribe, receberam enfim a ordem de iniciar a missão ensaiada exaustivamente ao longo de meses.

Em poucos minutos, quatro alvos estratégicos para a defesa da Venezuela foram arrasados — o que colocou o país de joelhos, conforme relata Carla Ferreira: o Forte Tiúna, principal instalação militar do país, sede do Ministério da Defesa e do Comando Estratégico da Força Armada; a Base Aérea de La Carlota, núcleo logístico de proteção da capital; o Comando Geral da Milícia Bolivariana, cérebro das forças de resistência civil armada, muito próximo ao Palácio Presidencial de Miraflores e o Porto de La Guaira, que abastece a capital com suprimentos médicos, bens de consumo e manufaturados. Foram destroçadas igualmente as baterias antiaéreas que deveriam proteger Caracas.

Ao se deslocarem, os aviões — entre eles, poderosos F-18, F-22 e F-35 — abriram um corredor letal. Um ataque eletrônico, produzido pelos especializados Boeing Growler, colocou a Venezuela em blecaute e sob “apagão cibernético”, e ampliou a blindagem, ao bloquear as possibilidades de interceptação. Pela grande fresta penetraram, voando a altitudes muito baixas e invisíveis aos radares, os helicópteros Chinook. Em seu interior estavam centenas de soldados da Força Delta, de elite. Haviam sido informados — por agentes da CIA, drones de espionagem e possivelmente informantes no aparato de segurança venezuelano — sobre o local preciso (o Forte Tiúna) em que se encontravam, naquela noite, Nicolás Maduro e Cilia Flores, sua esposa. Conheciam em detalhes seu interior, após haverem simulado a operação em cenários que o reproduziam, em escala 1:1, no Comando Conjunto das Operações Especiais, no estado norte-americano de Kentucky.

A fase final durou pouco mais de meia hora. Maduro e Cilia foram sequestrados, algemados e conduzidos ao mini-porta-aviões USS Iwo Jima, de onde partiram para a base naval de Guantánamo e de lá, por helicóptero, a Nova York. Cerca de oitenta integrantes da segurança de Maduro — entre os quais, 32 cubanos — foram assassinados pelos invasores. Nenhum soldado norte-americano morreu, diz o Pentágono[1]. O orçamento de guerra dos Estados Unidos, que ultrapassará 1 trilhão de dólares em 2026, é o maior do mundo e superior ao dos dez países que se seguem no quesito, somados. Equivale ao PIB da Colômbia ou ao da Bélgica. Do ponto de vista militar, a operação foi um sucesso.

II. A boca nervosa


Toda a América Latina está agora sob ameaça, anuncia Trump

Mais tortuosos e complexos são os caminhos da política. Eram cerca de 13h30 do mesmo sábado (3/1) quando Donald Trump falou pela primeira vez à imprensa, em sua mansão na Flórida, sobre o sequestro de Maduro. Como defender a invasão e bombardeio de um país soberano — que jamais atacou ou ameaçou os Estados Unidos — e o sequestro do seu chefe de Estado? Além da dificuldade natural do problema, havia agravantes. A hipótese de que a Venezuela abastece de cocaína os Estados Unidos é inverossímil, segundo as próprias agências de inteligência norte-americanas. Os Estados Unidos jamais apresentaram, no Conselho de Segurança da ONU ou na Corte Internacional de Justiça, qualquer queixa a respeito. E, por interesse geopolítico e partidário, o próprio Trump acaba de tirar da prisão o traficante internacional Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras, sentenciado a 45 anos num tribunal de Nova York após extradição e devido processo legal.

A resposta enunciada por Trump continuará a marcar as relações internacionais muito depois que a ação espetaculosa da Força Delta em Caracas tenha se perdido na poeira do tempo. Em 3 e 4/1, em declarações sucessivas de seus governantes, os Estados Unidos anunciaram que tentarão impor, em toda a América, uma versão agravada da Doutrina Monroe (de 1823) e da Ideologia do Grande Porrete [Big Stick Ideology] (de 1904). A ameaça estava explícita, em teoria, na nova Estratégia de Segurança Nacional tornada pública pela Casa Branca em dezembro de 2025. Mas a extensão da cobiça de Washington pelas riquezas latino-americanas e a intenção de usurpar a soberania dos Estados do continente seriam expostas com crueza a seguir.

O jorro intimidatório emanou primeiro da garganta do próprio Trump. “A dominação dos Estados Unidos sobre as Américas nunca será questionada de novo. [Isso] não vai acontecer”, disse o presidente aos jornalistas. O sequestro de Maduro foi, previsivelmente, associado a seu suposto envolvimento com a produção de cocaína. Mas, em seguida, ficou claro tratar-se apenas de um pretexto, porque o presidente passou a descrever o destino que pretende dar… ao petróleo venezuelano. “Vamos manejá-lo profissionalmente, temos as maiores empresas petroleiras do planeta. Investiremos bilhões e bilhões de dólares”. Para assegurar este controle, sob a nova estratégia, Trump disse não descartar a hipótese de uma invasão militar (botas no chão, boots on the ground) [embora tema muito desencadeá-la, como se verá].

Logo, ficaria explícito que o alvo da Casa Branca abrange muito mais que a Venezuela. No domingo (4/1) pela manhã, ao falar à Fox NewsTrump estenderia a ameaça à presidente mexicana Claudia Sheinbaum. Indagado sobre se o ataque a Caracas sugeria algo a Claudia, ele respondeu de pronto: “Ela não está governando seu país — são os cartéis (…) Algo precisa ser feito”. No mesmo dia, em entrevista à revista Atlantic as vociferações voltaram-se contra a Groenlândia: “Precisamos dela para nossa Defesa”. E mais tarde, a bordo do avião presidencial, a boca nervosa buscou Gustavo Petro, presidente da Colômbia: o país “também está muito doente, governado por um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos — e não vai continuar fazendo isso por muito tempo”…

 

III. Governo teleguiado?


Trump e Rubio querem controlar a Venezuela à distância

No retrocesso trumpiano à Doutrina Monroe e à Ideologia do Grande Porrete, há uma inovação destacada e paradoxal. Está exposta no ataque à Venezuela. Ao menos até o momento, os Estados Unidos não buscam a mudança de regime [regime change], que perseguiram em todo o mundo por décadas, tanto sob governos do Partido Republicano quanto do Democrata. Exigem a reorientação total da política. Maduro foi sequestrado, mas não morto (ao contrário de Saddam Hussein e Mouamar Khadafi). Além disso — e muito mais importante — Trump e seus assessores disseram oferecer, tanto à vice-presidente venezuelana Delcy Rodriguez, quanto aos integrantes do aparato estatal e militar do país, um consolo. Poderão permanecer em seus postos e desfrutar dos respectivos confortos, desde que… obedeçam aos novos senhores. Nesta tentativa de arranjo, esdrúxula e incerta ao extremo, está uma das chaves para compreender o que se passa agora tanto em Caracas quanto em Washington.

O experimento começou a ser ensaiado na entrevista de sábado, em Palm Beach. Um Trump imperial manifestou a intenção da Casa Branca de “dirigir o país” [we’re going to run the country]. Mas descartou, para espanto e decepção de muitos, a hipótese de instalar no poder a opositora Maria Corina Machado. Identificada com a ultradireita internacional, ela possui algum capital político e tentara, pouco antes, cortejar as corporações norte-americanas com a promessa de “privatização maciça” do petróleo, ouro e infraestrutura venezuelanas. Em suas próprias palavras, “uma oportunidade de 1,9 trilhão de dólares”…

Trump preferiu apostar na vice-presidente de Maduro, Delcy Rodriguez, que segundo suas palavras, governará em condições especialíssimas. “Marco [Rubio, secretário de Estado] está trabalhando nisso diretamente e acaba de conversar com ela. No essencial, está disposta a fazer o que julgo necessário para tornar a Venezuela grande de novo”… Porém, ameaçou: “Estamos prontos para realizar um segundo ataque, muito maior, se necessário”. Foi além: “Todas as figuras políticas e militares na Venezuela deveriam entender que o que se passou com Maduro pode ocorrer também com elas”E deixou claro que a situação perdurará até que os Estados Unidos possam “organizar uma transição segura”.

Poucas horas depois, ao pronunciar-se na TV estatal, Delcy sugeriu outro rumo. Classificou a intervenção de Washington como “bárbara”, reafirmou que Maduro é “o único presidente do país”, denunciou seu “sequestro” (empregando o termo preciso) e pediu sua libertação. Foi o que bastou para que Trump e seus assessores voltassem à carga. No domingo pela manhã, o secretário Marco Rubio anunciou, em entrevista, que os Estados Unidos continuarão bloqueando as exportações de petróleo venezuelano até que a empresa estatal que explora a maior parte das jazidas (PDVSA) abra-se ao investimento externo — em especial norte-americano. “[O bloqueio] vai permanecer até que vejamos mudanças, não apenas para favorecer o interesse nacional dos Estados Unidos, que é o objetivo número um, mas também para promover um melhor futuro para o povo”.

Horas mais tarde, o próprio presidente voltou ao tema, em outro contato com jornalistas. Indagado sobre o petróleo, respondeu de pronto: “Precisamos de acesso total. Ao petróleo e a outras coisas no país”. E a respeito de quem exerce o poder em Caracas, garantiu: “Estamos lidando com quem tomou posse. Não me pergunte quem está no comando [in charge], porque eu responderei, e isso pode ser muito controverso”. O repórter insistiu: “O que isso significa?”. “Significa que nós estamos no comando”, respondeu Trump.

A repetição muito reiterada de uma ameaça pode revelar dúvida sobre a capacidade de cumpri-la.

 

IV. Os limites


Ao contrário do que tenta fazer crer, o imperador não pode tudo

Invadir um país soberano, sequestrar seu presidente e retirar-se. Renunciar à “mudança de regime”. Desfazer-se de uma aliada como Maria Corina Machado. Crer no controle de um governo por meio de arreganhos. O que terá levado Trump a seguir, na operação contra a Venezuela, um padrão tão distinto dos empregados normalmente nas intervenções praticadas pelos Estados Unidos? Os fatos são recentes e estão em desenvolvimento. Para respostas seguras, será preciso mais tempo. Porém, com base no exame de acontecimentos e tendências objetivas, é possível ensaiar boas hipóteses.

A primeira remete a um dos aspectos do declínio do poder norte-americano: a quebra do consenso social necessário para as guerras. Trump captou este sentimento. Um dos pontos-chave de seu discurso, na disputa pela Casa Branca, foi a denúncia das intervenções no exterior. Ao condená-las, apontou-as como produto da ação do establishment. Referiu-se com insistência ao custo que elas impuseram aos norte-americanos, a quanto beneficiaram o complexo industrial-militar e desviaram recursos que, segundo ele, poderiam “fazer os Estados Unidos grandes de novo” (MAGA). A narrativa tornou-se hegemônica. Em dezembro de 2025, segundo pesquisas citadas pelo site The Conversation63% dos eleitores norte-americanos rejeitavam uma ação militar contra a Venezuela.

É esta, provavelmente, a razão principal para o descarte de Maria Corina. Colocá-la no poder significaria uma enorme provocação para os partidários do chavismo. O país mergulharia em instabilidade — o pior cenário possível para os enormes investimentos necessários à indústria petroleira e para suas instalações vulneráveis. Tendo-a instalado no Palácio Miraflores, os Estados Unidos precisariam defendê-la. Trump se chocaria tanto com uma ampla maioria do eleitorado quanto com seu próprio discurso.

A segunda hipótese liga-se às opções particulares de Trump para tentar fazer frente ao declínio. Ele não admite recorrer às instituições internacionais construídas no pós-II Guerra para sustentar o hegemonismo norte-americano. Chama-as de “globalistas”. Nas relações bilaterais com outros países, projeta ao máximo a força econômica e militar dos Estados Unidos para arrancar concessões. (Vale relembrar suas relevantes vitórias nos acordos comerciais com a União Europeia e Japão, após impor o “tarifaço”). Busca acrescentar a esta força sua brutalidade pessoal: o ímpeto supremacista, o assédio constante, os xingamentos, o uso contumaz da mentira e da falsificação. Está obcecado em restaurar o poderio das corporações norte-americanas. Não são exatamente estes os elementos centrais de sua agressão à Venezuela e de sua tentativa de teleguiar seus governantes?

* * *

A receita será eficaz na Venezuela? É, evidentemente, muito cedo para saber. A demonstração de força dos Estados Unidos foi impressionante e arrasadora. O sequestro de Nicolás Maduro deixa o chavismo desprovido de seu principal líder popular e do ponto de unidade entre todas as suas vertentes. A burocratização, notória, de parte de seus membros com postos no Estado tende a tornar tentadora a proposta abjeta de Trump. A pressão será ampliada pelo bloqueio dos carregamentos de petróleo venezuelano, que os Estados Unidos não relaxaram e que priva o país de sua principal fonte de divisas.

Mas há outra face do chavismo. A que se constituiu nas batalhas históricas do comandante. A que se inspirou no projeto antiimperialista e de redistribuição ampla da riqueza petroleira. A que participou de processos como a Constituinte popular de 1999 e as múltiplas tentativas de inventar uma democracia popular, capaz de superar os limites das instituições liberais. A que se entusiasmou com os esforços de Maduro para reanimar as “comunas populares”, após o vexame nas eleições presidenciais de 2024. Diferentemente do que ocorreu nas ditaduras militares patrocinadas por Washington, durante a Guerra Fria, esta tradição não está sendo arrasada — e dificilmente o será, enquanto Delcy Rodriguez permanecer à frente do governo. O projeto de Trump, como se viu, é outro.

O que ocorrerá quando ambas as faces desta moeda — a tentativa de obrigar o chavismo a agir contra o que o constituiu; e a permanência, no poder, de um movimento cujas origens rebeldes não se perderam — tornarem-se incompatíveis? A intervenção de Trump colocou de novo a Venezuela no centro do cenário geopolítico global. Tudo o que ocorrer por lá terá repercussão. Trump ordenará a Delcy Rodriguez executar seu projeto? Ela aquiescerá? Caso o faça, haverá revolta? O que ocorrerá, então?

O enorme espanto provocado pela ação fulminante dos Estados Unidos, no sábado, pode ter levado alguns a pensar que um capítulo da história da América Latina estava se fechando. Na Venezuela, ao contrário, uma nova página da disputa pelo futuro do país — extremamente difícil e árdua, mas não perdida — pode estar se abrindo.

Mas e no conjunto da América Latina, e em particular no Brasil?

 

V. A oportunidade


Diante da Doutrina Donroe, ou a América Latina e o Brasil se curvam, ou se reinventam

Em maio de 2025, uma vasta matéria da revista digital Defesanet revelou que integrantes do governo Trump cobiçavam as infraestruturas de Fernando de Noronha e a Base Aérea de Natal (RN). A nova Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca estava em elaboração. A publicação apurou que diplomatas do “entorno de Trump” haviam suscitado o tema em contatos com políticos e militares brasileiros. Pretendiam instalar nos dois locais estruturas (equipamentos e aeroportos) de vigilância e projeção de poder sobre o Atlântico Sul, o que naturalmente exigiria constituição de enclaves operacionais, blindados às autoridades brasileiras. Esgrimiam, como argumento, um esdrúxulo “direito funcional de reúso estratégico” — o mesmo que a Casa Branca tem usado para tentar recuperar o controle do Canal do Panamá. A própria Defesanet considerou: “o nome disso é colônia”…

O episódio revela, quase na forma de caricatura, uma nova realidade. Diante da Doutrina Donroe, e do que ela já produziu na Venezuela, os governos e sociedades da América Latina têm duas alternativas. Caso se curvem ou se omitam, aprofundarão a letargia e o sentimento de impotência que se espalharam pela região há três décadas, quando se tornou hegemônico o projeto neoliberal. Os impasses estruturais — desigualdade, regressão produtiva, atraso tecnológico, devastação da natureza, instituições alienadas da vida real e tantos outros — continuarão não enfrentados. Os países serão vassalos de uma potência em declínio, condenados às misérias do capitalismo tardio e à condição periférica.

Mas a intimidação de Trump e seu desejo de apertar o garrote da colonização podem, paradoxalmente, soar o toque de despertar. Nesta hipótese, a consciência de que há risco de submissão mais profunda leva a identificar as vulnerabilidades. E o esforço por saná-las desencadeia uma mobilização nacional capaz de reavivar ideias hoje adormecidas: como projeto paísreconstrução e horizonte político.

Nesse movimento, três objetivos podem ser estratégicos: a) Soberania Digital; b) revisão da Política Nacional de Defesa e c) política externa voltada à construção de uma ordem pós-eurocêntrica e a parcerias com o Sul Global. São desafiadores. Exigirão construção persistente e prolongada. Contudo, são claros, capazes de mobilizar e de gerar efeitos secundários positivos.

A luta pela Soberania Digital é, das três, a mais crucial, urgente e complexa. Mas talvez seja a que mais pode libertar energias políticas e econômicas hoje contidas. O cenário atual é contraditório. Em alguns aspectos, a dependência frente aos Estados Unidos é dramática: o Brasil encontra-se rendido a suas big techs. Um estudo  realizado em 2025 pelos pesquisadores Sérgio Amadeu e Jeff Xiong demonstrou que o país hospeda em servidores de corporações norte-americanas a quase totalidade dos dados estratégicos que gera. Estão nestas condições os dados das universidades brasileiras, dos centros de pesquisa e tecnologia, do SUS, do IBGE, da Receita Federal, dos tribunais superiores (inclusive o STF e o TSE), por exemplo.

Na mesma situação submissa encontra-se o desenvolvimento de software básico — a ponto, por exemplo, de “Google e Microsoft hospedarem os e-mails e os repositórios de dados (drive) de 154 universidades públicas brasileiras”. Também são estrangeiras as plataformas usadas quase universalmente no país para pesquisa na internet (Google), comunicação pessoal por mensagens (WhatsApp-Meta), redes sociais (Facebook e Instagram-Meta ou TikTok-Bytedance), ou para serviços de transporte pessoal, de entregas, de hospedagem, de contratação pontual de serviços e muitos outros. Todas elas capturam, processam, distribuem  por meio de algoritmos e monetizam e comercializam tanto a comunicação gerada conscientemente pela população (uma postagem de texto ou vídeo em rede social, por exemplo) quanto os dados gerados de forma involuntária (como um formulário qualquer preenchido online). A programação algorítmica, agora reforçada por inteligência artificial, tem enorme poder de influir sobre comportamentos — inclusive eleitorais. E o alinhamento das big techs com políticas de ultradireita tornou-se declarado desde a posse de Trump.

Em contrapartida, o país tem duas enormes potencialidades no mesmo campo: um grande contingente de programadores e desenvolvedores muito bem formados (que hoje, por falta de alternativas, trabalham principalmente para as big techs) e movimentos sociais informados, criativos e capazes de formular política para a área. Se a luta pela soberania digital tornar-se prioridade de Estado, a superação da vulnerabilidade poderá avançar de forma consistente e relativamente rápida.

Em 2025, o hacktivista Uirá Porã traçou, em entrevista a Outras Palavras, um possível roteiro: 1. Construir, a partir das universidades, uma rede brasileira de data centers públicos; 2. Recuperar as duas empresas estatais do setor (Dataprev e Serpro), hoje enredadas em parcerias submissas com as big techs dos Estados Unidos; 3. Articular, nestas empresas e ligadas regionalmente aos data centers universitários, equipes de desenvolvedores dispostos a produzir aplicativos para municípios, outros entes públicos, empresas e sociedade civil. Neste desenho, a Soberania Digital deixa de ser apenas um objetivo estratégico de Estado e passa a se desdobrar em serviços à sociedade, estímulo à formação em massa de profissionais qualificados e espaço de desenvolvimento de consciência e reinvenção social.

* * *

A revisão da Política Nacional de Defesa é necessária para enfrentar uma debilidade ainda mais escancarada. A própria orientação de parte das fragatas da Marinha nos oceanos depende hoje… do Starlink de Elon Musk. Mas não só. O historiador Manuel Domingos, que estuda em profundidade as Forças Armadas brasileiras, lembra, num texto recente, que as Forças Armadas brasileiras vivem, desde o Barão do Rio Branco, o fetiche da dependência pela tecnologia comprada das potências ocidentais. Não se compreende a Defesa como ação orgânica da sociedade brasileira — o que poderia levar ao desenvolvimento tecnológico autônomo. Adquirem-se pacotes — os caças suecos Gripen ou submarinos franceses, por exemplo — que submetem o país a múltiplas dependências.

Em junho de 2024, por exemplo, o Departamento de Justiça dos EUA  solicitou à Saab, fabricante dos caças Gripen vendidos ao Brasil, que fornecesse “esclarecimentos” sobre a operação. A revista Sociedade Militar advertiu, à época:

“O movimento levanta suspeitas sobre possíveis interferências que visam, na verdade, manter o Brasil em um estado de dependência em relação aos Estados Unidos (…) O Gripen, apesar de ser um caça moderno, depende de uma cadeia de fornecedores internacionais: o motor é americano, o sistema de ejeção é britânico, e vários outros componentes vêm de diferentes partes do mundo. Isso significa que, se em algum momento Estados Unidos ou Reino Unido decidirem colocar o pé no freio, por questões políticas ou comerciais, esses caças ficariam no chão. E não é só teoria — a história já mostrou isso em diversos episódios”…

Livrar o país de tal dependência, para evitar que o próprio equipamento das Forças Armadas  esteja sob risco de bloqueio, pode ser um projeto compreensível e politizador. Mas, assim como no caso da Soberania Digital, vai além dos interesses de Estado. Manuel Domingos sustenta, em seu texto, que a Política de Defesa Nacional, publicada em maio de 2024, “fez-se pó na madrugada do último sábado”, quando os Estados Unidos demonstraram a que estão dispostos. Mas lembra que uma revisão poderia, além da autonomia tecnológica, colocar em debate outros pontos igualmente importantes para um projeto de país. Entre eles, orientar as Forças Armadas para seu papel de Defesa do território (colocando em xeque as tendências a voltá-las contra “inimigos internos”) e pensar, também no campo militar, uma política de  integração da América do Sul — inclusive para ter mais força contra as ameaças reais…

A ameaça Trump, como se vê, pode levar o Brasil a refletir sobre si mesmo. Mas num tempo de desafios globais — como as desigualdades crescentes, os riscos de colapso ambiental e as ameaças constantes de guerra — não é preciso repensar também as alianças geopolíticas?

 

VI. As alianças


Para enfrentar os EUA, a América Latina precisa de aliados. A China está se apresentando

Uma terceira debilidade salta aos olhos ao se analisarem as condições para a América Latina e o Brasil enfrentarem a nova atitude ameaçadora dos Estados Unidos. Em especial no governo Lula 3, a política externa tornou-se tímida, convencional e incapaz de imaginar construções e parcerias fora da ordem eurocêntrica.

Foram-se os tempos do chanceler Celso Amorim e de suas iniciativas ousadas e surpreendentes — a participação central na criação dos Brics, a realização de uma reunião de cúpula entre América do Sul e países árabes (que sobressaltou Washington) ou a tentativa (com a Turquia) de costurar um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã (sabotada por Hillary Clinton). Sob Mauro Vieira, prevalece no Itamaraty o que o economista Paulo Nogueira Batista Jr. chamou, com ironia mordaz, de “turma do visto permanente nos Estados Unidos”. São os diplomatas que temem (mesmo a partir do governo Trump) qualquer gesto que incomode os Estados Unidos — em especial as aproximações estratégicas com os BRICS e a China.

Embora os chineses sejam, há muito, os principais parceiros comerciais do Brasil, o país estabeleceu com eles uma relação que reproduz sua vocação colonial e sua regressão produtiva. Exporta produtos primários — em especial soja e minério de ferro. Importa bens e serviços tecnológicos. Duas proposições de Beijing, lançadas nos últimos meses — Iniciativa de Governança Globalde setembro de 2025, e o Documento sobre a Política para a América Latina, de dezembro — sugerem que a agenda bilateral poderia ser muito distinta.

O primeiro enuncia cinco proposições aparentemente genéricas, mas que se chocam de frente com o “direito imperial à intervenção” enunciado por Trump. Três deles se destacam: a) a “soberania igualitária” (“todos os países, independentemente de tamanho, força ou riqueza, terão sua soberania e dignidade respeitadas, seus assuntos internos livres de interferência externa e o direito de escolher de forma independente seu sistema social e nível de desenvolvimento”), b) o respeito ao direito internacional e às instâncias da ONU; c) uma “abordagem centrada nos povos” (“o bem-estar das populações é o propósito máximo da governança global”). O segundo, mais longo e detalhado, formula propostas específicas de colaboração, abrangendo, entre outros, áreas e temas que soam relevantes ao Brasil: (re)industrialização, preservação da natureza, energias limpas, ciência e tecnologia (incluindo internet e IA), intercâmbio militar e outros.

Nenhum dos documentos recebeu destaque nas mídias convencionais brasileiras. Ambos merecem ser examinados com atenção. Não se trata de propor um “alinhamento à China”, como às vezes alardeiam, em tom pejorativo, os que são contrários à parceria. Mas de perceber que, enquanto Washington anuncia de forma clara uma postura imperialista e agressiva, há um aceno de outra natureza. Quem o faz é um país do Sul Global, que sofreu um “século de humilhações” das potências eurocêntricas — mas recuperou-se numa revolução popular, construiu um socialismo heterodoxo, tornou-se a maior economia, a grande fábrica do mundo e, nos últimos anos, um polo de desenvolvimento de alta tecnologia.

Há razões objetivas para acreditar que o gesto é de boa-fé. Não apenas porque a China afirma, com insistência, sua opção pelo Sul Global, mas também porque, num certo sentido, necessita fazê-la. A polarização que marcou a Guerra Fria está se armando outra vez. Trump vê Beijing como seu alvo número um. A Europa curva-se aos Estados Unidos, mesmo desprezada. Barreiras comerciais e ideológicas contra a China estão sendo erguidas de ambos os lados do Atlântico Norte. A opção pelo antigo “terceiro mundo” é, além de tudo, pragmática.

Em que condições poderia se dar a parceria? No caso brasileiro, este artigo sonda possibilidades. Envolvem Amazônia em pé, internet, superação do dólar, indústria e defesa, entre outros pontos. Mas é, em essência, um convite a incluir este tema na pauta de debates do país. Desde a II Guerra Mundial, as alianças com Washington são vistas, no Brasil, como naturais e quase incontornáveis. Haverá algum mal em cogitar outros caminhos, agora que a Doutrina Donroe pesa sobre nós? Adotaremos a mesma postura da “turma do visto permanente”?

* * *

Ao invadir a Venezuela com imenso aparato, sequestrar seu presidente e anunciar o desejo de controle absoluto sobre a América Latina, Donald Trump fez um lance de arrogância máxima — mas altíssimo risco. Para a região respirar, é preciso que a aposta naufrague. Este texto visa ajudar a construir tal alívio.

Imagem: Jonathan Crow

 

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