Na ocasião da festa de Santos Reis, CPT no Tocantins celebra 48 anos

“Entre cantos e ladainhas, neste chão, Santo Reis segue em caminho, guiando fé e coração. Mesmo na lida mais dura, na dor do dia a dia, o povo reza e festeja, porque a esperança não esfria.”

Por CPT Araguaia-Tocantins

No dia 6 de janeiro de 2026, a comunidade Raposa, no Território Tradicional da Serra do Centro, em Campos Lindos (TO), viveu mais uma edição da reza centenária em honra aos Santos Reis, celebração protagonizada pelas comunidades tradicionais da região. Em um chão sagrado de memória, fé e resistência, a reza reafirma uma promessa mantida ao longo de gerações pela família de dona Lurdes e seu Filó, entrelaçando ancestralidade, espiritualidade popular e a própria existência coletiva em um território historicamente marcado
por conflitos fundiários e reiteradas violações de direitos.

Com cantos, benditos, ladainhas e partilhas, a celebração expressa que a fé do povo não é passiva, mas profundamente atuante e comprometida com a vida. Rezar, neste contexto, também é resistir. É afirmar o enraizamento no território, é dizer que a cultura, os modos de vida e os saberes tradicionais seguem vivos,
apesar da dureza do cotidiano, da pressão dos grandes empreendimentos e das ameaças constantes que recaem sobre as comunidades.

A presença da Comissão Pastoral da Terra Regional Araguaia-Tocantins na celebração reafirma a centralidade da mística popular na missão pastoral da nossa entidade. Não por acaso, o dia 6 de janeiro também marca a celebração dos 48 anos de atuação da nossa CPT no Tocantins, uma caminhada construída ao lado dos povos do campo, das águas e das florestas. Celebrar esse aniversário nesse espaço e nesse dia simbólico reforça que a luta pela terra, pelos territórios e pelos direitos humanos se sustenta na força espiritual, cultural e comunitária dos povos tradicionais. A mística alimenta a caminhada, fortalece os vínculos e renova a esperança coletiva, sendo parte viva de uma metodologia pastoral que sempre articula fé, política e compromisso com a justiça social.

Jadir de Morais Pessoa, histórico assessor da CPT, com razão observa que “a festa popular é o grande e fecundo momento a ensinar que a arte de viver e de compreender a vida que nos envolve está na perfeita integração entre o velho e o novo”. No território tradicional da Serra do Centro, essa integração se materializa na persistência da tradição de Santos Reis, que enfrenta os desafios do presente com a força ancestral de suas raízes. Sem o velho, o presente se esvazia; sem o novo, a história se interrompe.

Em um território onde comunidades tradicionais enfrentam o avanço do agronegócio, a concentração fundiária, a omissão do Estado e a invisibilização sistemática de seus direitos, a celebração de Santos Reis assume também um caráter decisivo na luta pela terra. Cada canto entoado e cada gesto de devoção reafirma que ali há povo, há história e há resistência. A fé e a organização popular denunciam as injustiças e, ao mesmo tempo, anunciam a possibilidade concreta de uma vida digna no campo.

Neste 6 de janeiro vivenciamos uma espiritualidade enraizada no chão do Cerrado: aquela que não se dobra à violência do agronegócio, que não se cala diante das injustiças e que ensina que a luta também se faz com cantoria, memória e esperança.

O ano de 2026 começa, a reza-resistência continua.

Foto: Ludimila Carvalho

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

1 × três =