ES: Pescador denuncia despejo de água escura no Rio Bubu e cobra fiscalização

Registros em vídeo e ao Iema reacendem alerta sobre poluição histórica em Cariacica

Por Mariah Friedrich, Século Diário

O pescador Alexandre Rosa, que atua há anos em Cariacica, denuncia o despejo de água escura e com forte odor no curso do Rio Bubu, e atribui a contaminação ao esvaziamento de uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) da Companhia Espírito Santense de Saneamento (Cesan), conhecida como “Penicão de Flexal II”. Em vídeo gravado nesse final de semana, Alexandre mostra o que identifica como um cano despejando efluentes sem tratamento diretamente no rio, próximo à ponte da BR-101, e faz um apelo aos órgãos de fiscalização ambiental para que investiguem a situação.

Nas imagens, registradas no fim da tarde, o pescador aponta a coloração escura da água e relata o mau cheiro intenso vindo do local. “Tá’ ficando preta. Aqui é o cano que vem do ‘Penicão de Flexal 2’. Reativaram o ‘Penicão’ lá em Nova Canaã e estão esvaziando esse aqui”, afirma o pescador, que encaminhou denúncia ao Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema). “Penicão” é como é chamado na linguagem popular o modelo antigo de estação que utiliza lagoas a céu aberto.

A estação é operada pela Ambiental Cariacica, empresa criada pela multinacional Aegea Saneamento e responsável pela Parceria Público-Privada (PPP) do esgotamento sanitário no município desde 2015. Segundo o autor dos registros em vídeo, o despejo estaria atingindo todo o trecho do rio no ponto mostrado nas imagens e alcança áreas próximas à ponte ferroviária de Flexal I.

“Na boca do ‘Penicão’ está saindo essa água preta. Isso tá desgraçando a nossa maré todinha lá para baixo”, diz. Ele ressalta que a área afetada é fundamental para a subsistência de diversas famílias que dependem da pesca artesanal no rio e em sua foz.

No vídeo compartilhado nas redes sociais, o pescador também faz um apelo direto aos órgãos ambientais e às autoridades públicas. “Quer esvaziar o ‘Penicão’, lança o esgoto lá na outra rede que foi inaugurada em Nova Canaã, não lança aqui no rio não, porque muita família sobrevive da pesca”, cobra. Ele também demonstra preocupação com os impactos imediatos sobre a fauna aquática. “Os peixes estão ficando sem oxigênio já”, afirma, enquanto mostra o trecho do rio afetado.

A denúncia ocorre em um contexto histórico de degradação ambiental do Rio Bubu, que integra a bacia hidrográfica do Rio Santa Maria da Vitória, uma das mais importantes da região metropolitana. Embora o Rio Bubu não seja utilizado diretamente para o abastecimento residencial, sua preservação é considerada estratégica do ponto de vista ambiental e ecológico.

Dados do Atlas de Saneamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, mesmo sem uso direto para consumo humano, é fundamental controlar os focos de contaminação do Rio Bubu, uma vez que ele está enquadrado como corpo d’água doce segundo a Resolução nº 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), de 17 de março de 2005. Essa classificação estabelece que suas águas são destinadas à preservação do equilíbrio natural das comunidades aquáticas. A contaminação do rio pode provocar impactos em outros organismos e desencadear desequilíbrios no ecossistema local, afetando inclusive áreas conectadas da bacia hidrográfica.

Nesse sentido, o órgão ressalta que o direito ao saneamento e à água de qualidade se conecta diretamente aos direitos ambientais e à qualidade de vida, sendo fundamentais para o acesso à cidadania e para a redução das desigualdades sociais no país. A ausência de controle sobre lançamentos de efluentes sanitário, como o denunciado pelo pescador, agrava um cenário já marcado por fragilidades estruturais.

Estudos sobre a qualidade do corpo hídrico do Rio Bubu também apontam que o mesmo apresenta diversos processos de desgaste e poluição associados a intervenções antrópicas, com a degradação relacionada à expansão de construções privadas e residenciais, à falta de conscientização da população, à ausência de investimentos consistentes em saneamento básico e ao despejo contínuo de esgotos e resíduos domésticos ao longo de seu curso.

O Rio Bubu atravessa tanto áreas rurais quanto regiões urbanizadas, e pesquisadores já constataram a presença de microrganismos possivelmente patogênicos, como bactérias e fungos, associados ao lançamento inadequado de dejetos. Esses processos favorecem a proliferação de coliformes termotolerantes, indicadores clássicos de contaminação fecal, o que representa riscos ambientais e à saúde pública, especialmente para comunidades que mantêm contato direto com a água por meio da pesca e outras atividades.

Alexandre Rosa reforça o apelo por providências urgentes. “Governo, prefeitura, me ajuda aí. E quem vive da pesca? E o pessoal que ainda come o peixe daqui do rio?”, questiona. A denúncia reacende o debate sobre a responsabilidade da gestão de Renato Casagrande (PSB), da administração municipal de Euclério Sampaio (PMDB), da Cesan e da Aegea na gestão do saneamento e sobre a necessidade de garantir que processos de desativação ou esvaziamento de estações não resultem em novos episódios de poluição de corpos hídricos.

Século Diário procurou a Prefeitura de Cariacica e a Cesan para comentar a denúncia, esclarecer a origem do despejo apontado no vídeo e informar se há monitoramento ou fiscalização no trecho do Rio Bubu citado pelo pescador. Até o fechamento desta edição, no entanto, não houve o devido retorno.

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